ANO IV

17/07/2026

HojePR

gennaro

O último romântico a cavalo

17/07/2026
cavalo

Há homens que escrevem poemas. Há homens que fazem serenata. E há João Pedro.

João Pedro resolveu atravessar boa parte do Paraná montado num cavalo.

Não é que fosse contra automóveis. Apenas achava que certas notícias exigem um meio de transporte compatível com a emoção. Afinal, depois de quarenta anos esperando, chegar de utilitário esportivo seria uma falta de respeito com o próprio sentimento.

Tudo começou em União da Vitória, quando ele e Silvânia eram adolescentes. Ela era a loira mais bonita do colégio. Naquela época bastava uma menina sorrir duas vezes para um rapaz acreditar em destino. João Pedro acreditou.

Silvânia, porém, acreditou em outro rapaz.

Casou-se, foi morar em Curitiba, criou família e viveu sua vida. João Pedro também viveu a dele, embora alguns amigos sustentem que viver não é exatamente o verbo. Trabalhou na fazenda dos pais, tornou-se um criador respeitadíssimo de cavalos e nunca mais falou em Silvânia. O detalhe é que nunca mais deixou de pensar nela.Existe uma diferença importante entre esquecer e não comentar.

Quarenta anos depois soube que Silvânia estava viúva e passava alguns dias em Balneário Camboriú com amigas.

Foi quando João Pedro tomou uma decisão que seus cavalos aceitaram com mais naturalidade do que seus conhecidos.

— Você vai a cavalo? Vou. Até Camboriú?

— Até ela.

Quando a resposta cabe em duas palavras, discutir perde a graça.

Dias depois, já na praia, um garçom de um restaurante sofisticado estranhou um movimento na calçada. Primeiro apareceu um chapéu. Depois um cavalo. Depois um homem. Não necessariamente nessa ordem.

O maître ficou diante de um problema que nenhum curso de hotelaria havia previsto.

— Boa tarde…

João Pedro tirou o chapéu.— Boa tarde.

— O senhor tem reserva?— Tenho. O maître consultou a agenda.

Não encontrou nenhum cavalo inscrito.— Em nome de quem?— Do destino.

Nessas horas, o protocolo costuma pedir demissão.

Silvânia estava à mesa com as amigas. Conversavam sobre a vida, que é um assunto inesgotável para quem já viveu bastante e ainda pretende viver muito.Olhou para a entrada.

Reconheceu João Pedro antes mesmo de reconhecer o cavalo.Ou talvez tenha reconhecido o cavalo primeiro. Nunca se sabe. A memória é um animal curioso.

João Pedro caminhou até ela sem pressa. Quarenta anos de atraso autorizavam mais alguns segundos.

— Silvânia…

Ela sorriu daquele mesmo jeito que um dia havia complicado a adolescência de metade dos rapazes de União da Vitória.

— Demorei um pouco.

— Percebi.

— A estrada era longa.

Ela olhou para as botas empoeiradas, para o cavalo parado com uma educação rara e para aquele homem que parecia ter saído inteiro de uma fotografia antiga.

— Ainda bem que você não desistiu.

Então João Pedro fez o pedido.

Sem discurso.

Sem ajoelhar.

Até porque ajoelhar diante de um cavalo sempre envolve riscos desnecessários.

— Casa comigo?

Silvânia respondeu “sim” antes que o restaurante inteiro lembrasse de respirar.Os aplausos vieram logo depois. As amigas choravam. Os garçons sorriam.

O chef apareceu na porta da cozinha sem entender por que todos estavam emocionados por causa de um homem de chapéu e um cavalo perfeitamente comportado. Quanto ao animal, permaneceu imóvel.

Quem convive com cavalos sabe que eles raramente fazem perguntas. Apenas acompanham as pessoas até onde o coração delas decide ir.

Na saída, alguém comentou:— Isso foi a coisa mais romântica que já vi. Outro discordou.

— Romântico foi o homem. O cavalo só estava trabalhando.

Há controvérsias.

Porque, olhando bem para a fotografia tirada naquele dia, o cavalo parecia sorrir.

E, convenhamos, depois de carregar um apaixonado por mais de setecentos quilômetros, ele tinha todo o direito de participar da felicidade.

Há quem diga que o amor move montanhas.

Pode ser.

Mas, naquele dia, ficou provado que, quando demora quarenta anos para chegar, ele prefere mesmo ir a cavalo.

Leia outras colunas do Gennaro aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário