Há homens que escrevem poemas. Há homens que fazem serenata. E há João Pedro.
João Pedro resolveu atravessar boa parte do Paraná montado num cavalo.
Não é que fosse contra automóveis. Apenas achava que certas notícias exigem um meio de transporte compatível com a emoção. Afinal, depois de quarenta anos esperando, chegar de utilitário esportivo seria uma falta de respeito com o próprio sentimento.
Tudo começou em União da Vitória, quando ele e Silvânia eram adolescentes. Ela era a loira mais bonita do colégio. Naquela época bastava uma menina sorrir duas vezes para um rapaz acreditar em destino. João Pedro acreditou.
Silvânia, porém, acreditou em outro rapaz.
Casou-se, foi morar em Curitiba, criou família e viveu sua vida. João Pedro também viveu a dele, embora alguns amigos sustentem que viver não é exatamente o verbo. Trabalhou na fazenda dos pais, tornou-se um criador respeitadíssimo de cavalos e nunca mais falou em Silvânia. O detalhe é que nunca mais deixou de pensar nela.Existe uma diferença importante entre esquecer e não comentar.
Quarenta anos depois soube que Silvânia estava viúva e passava alguns dias em Balneário Camboriú com amigas.
Foi quando João Pedro tomou uma decisão que seus cavalos aceitaram com mais naturalidade do que seus conhecidos.
— Você vai a cavalo? Vou. Até Camboriú?
— Até ela.
Quando a resposta cabe em duas palavras, discutir perde a graça.
Dias depois, já na praia, um garçom de um restaurante sofisticado estranhou um movimento na calçada. Primeiro apareceu um chapéu. Depois um cavalo. Depois um homem. Não necessariamente nessa ordem.
O maître ficou diante de um problema que nenhum curso de hotelaria havia previsto.
— Boa tarde…
João Pedro tirou o chapéu.— Boa tarde.
— O senhor tem reserva?— Tenho. O maître consultou a agenda.
Não encontrou nenhum cavalo inscrito.— Em nome de quem?— Do destino.
Nessas horas, o protocolo costuma pedir demissão.
Silvânia estava à mesa com as amigas. Conversavam sobre a vida, que é um assunto inesgotável para quem já viveu bastante e ainda pretende viver muito.Olhou para a entrada.
Reconheceu João Pedro antes mesmo de reconhecer o cavalo.Ou talvez tenha reconhecido o cavalo primeiro. Nunca se sabe. A memória é um animal curioso.
João Pedro caminhou até ela sem pressa. Quarenta anos de atraso autorizavam mais alguns segundos.
— Silvânia…
Ela sorriu daquele mesmo jeito que um dia havia complicado a adolescência de metade dos rapazes de União da Vitória.
— Demorei um pouco.
— Percebi.
— A estrada era longa.
Ela olhou para as botas empoeiradas, para o cavalo parado com uma educação rara e para aquele homem que parecia ter saído inteiro de uma fotografia antiga.
— Ainda bem que você não desistiu.
Então João Pedro fez o pedido.
Sem discurso.
Sem ajoelhar.
Até porque ajoelhar diante de um cavalo sempre envolve riscos desnecessários.
— Casa comigo?
Silvânia respondeu “sim” antes que o restaurante inteiro lembrasse de respirar.Os aplausos vieram logo depois. As amigas choravam. Os garçons sorriam.
O chef apareceu na porta da cozinha sem entender por que todos estavam emocionados por causa de um homem de chapéu e um cavalo perfeitamente comportado. Quanto ao animal, permaneceu imóvel.
Quem convive com cavalos sabe que eles raramente fazem perguntas. Apenas acompanham as pessoas até onde o coração delas decide ir.
Na saída, alguém comentou:— Isso foi a coisa mais romântica que já vi. Outro discordou.
— Romântico foi o homem. O cavalo só estava trabalhando.
Há controvérsias.
Porque, olhando bem para a fotografia tirada naquele dia, o cavalo parecia sorrir.
E, convenhamos, depois de carregar um apaixonado por mais de setecentos quilômetros, ele tinha todo o direito de participar da felicidade.
Há quem diga que o amor move montanhas.
Pode ser.
Mas, naquele dia, ficou provado que, quando demora quarenta anos para chegar, ele prefere mesmo ir a cavalo.
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