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21/07/2026

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A Copa dos narradores exaltados e dos craques endeusados

20/07/2026
narradores

A Copa do Mundo acabou.

A Espanha levou a taça, a Argentina ficou com o vice, Mbappé terminou como maior artilheiro da história do torneio e nós finalmente podemos desligar a televisão sem ouvir, a cada três minutos, que alguém está “fazendo história”.

Agora que a bola parou de rolar, seria saudável discutir a atuação da imprensa esportiva brasileira durante a competição.

Eu sei. É pedir demais.

A imprensa esportiva não gosta muito de discutir a imprensa esportiva. Prefere analisar o posicionamento do lateral-direito de Cabo Verde aos 37 minutos do segundo tempo. É um assunto menos delicado.

Comecemos pela CazéTV.

A plataforma foi um fenômeno. Transmitiu todos os jogos, rompeu definitivamente o monopólio das grandes emissoras no ambiente digital, alcançou números impressionantes e mostrou que milhões de brasileiros já não precisam esperar que uma rede de televisão decida qual partida merecem assistir.

Mérito absoluto.

Mas audiência não transforma gritaria em narração. A narração da CazéTV foi, salvo raríssimas exceções, sofrível.

Era grito antes do passe, grito durante o passe, grito depois do passe e, em algumas transmissões, grito até quando o jogador amarrava a chuteira. Qualquer avanço pela lateral parecia a travessia do Mar Vermelho. Um chute para fora virava tentativa histórica. Um drible no meio-campo era anunciado como fenômeno paranormal.

Faltava apenas o narrador pedir que a Fifa interrompesse a partida para canonizar o autor de um lançamento de 20 metros.

Empolgação é necessária. Futebol sem emoção vira leitura de ata de condomínio. Mas emoção não significa transformar os 90 minutos em uma crise coletiva de ansiedade.

Narração profissional exige informação, ritmo, domínio do jogo, repertório e, principalmente, noção de proporção. Nem todo lance é espetacular. Nem toda defesa é milagrosa. Nem todo gol é antológico. Às vezes, pasmem, é apenas um gol.

O destaque positivo foi Fernando Nardini, egresso da ESPN e contratado pela CazéTV pouco antes da competição. Talvez justamente por ter formação profissional, experiência e respeito pelo ouvido do telespectador, Nardini conseguiu narrar sem parecer que estava sendo perseguido por uma alcateia.

Na Globo e no SporTV, infelizmente, o panorama não foi muito diferente. Mudam os estúdios, o logotipo e o valor dos contratos. A devoção permanece.

Os narradores passaram a escolher jogadores preferidos como adolescentes escolhem integrantes de uma banda. A partir daí, cada toque do eleito era uma obra de arte. Se errasse o passe, a ideia havia sido genial. Se chutasse para fora, faltara apenas um detalhe. Se desaparecesse durante 70 minutos, estaria “atraindo a marcação”.

Craque moderno nunca joga mal. No máximo, o universo não compreende sua grandeza.

E foi assim que a Copa se transformou numa reunião permanente de adoradores de Mbappé, Messi, Haaland e outros semideuses fabricados por departamentos de marketing, redes sociais e narradores com necessidade urgente de produzir uma frase épica.

A cada partida, alguém “entrava para a história”. A cada rodada, surgia um “feito inacreditável”. A cada gol, uma nova página era escrita.

Ao final, a história do futebol já devia estar com umas 48 mil páginas, 16 anexos e um prefácio escrito pelo patrocinador oficial.

Mbappé é craque? Claro que é. Marcou dez gols nesta Copa, chegou a 22 em Mundiais e tornou-se o maior artilheiro da história da competição. São números extraordinários. Negá-los seria tão tolo quanto transformá-lo numa divindade.

O problema começa quando o recorde estatístico passa a ser usado como certificado automático de superioridade histórica.

Fazer mais gols em Copas não significa, necessariamente, ter jogado mais futebol do que todos os outros. Significa ter feito mais gols em Copas. É uma diferença bastante simples, embora aparentemente complexa demais para parte dos nossos comentaristas.

Mbappé não é maior do que Pelé, Maradona, Messi, Garrincha, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Cruyff ou Beckenbauer. Não vi ele bater uma falta com a genialidade e competência do Zico.

Alguém realmente quer me convencer de que Mbappé jogou mais futebol do que Ronaldo Fenômeno? Que teve mais talento do que Ronaldinho Gaúcho? Que dominou uma partida como Zidane? Que enxergava o jogo como Platini?

Mbappé é velocidade, potência, finalização e números. É um jogador extraordinário. Mas ainda não é essa mistura de Pelé com Zeus que alguns narradores tentaram nos vender.

Aliás, só para permanecer na França, ele ainda precisa comer muito croissant para alcançar o cartaz de Platini e Zidane.

Messi é diferente. Numa lista séria dos dez maiores da história, ele obrigatoriamente estará presente. Pode-se discutir a posição. A presença, não.

Isso não significa, porém, que cada caminhada de Messi em campo precise ser tratada como uma manifestação artística patrocinada pelo Ministério da Cultura. Houve momentos em que ele tocava na bola e a narração assumia o tom de quem acabara de presenciar o teto da Capela Sistina sendo pintado ao vivo.

Haaland também recebeu sua cota de louvores celestiais. Grande goleador, força impressionante, excelente jogador. Mas às vezes parecia que jamais alguém havia finalizado uma bola dentro da área antes de sua chegada ao futebol.

E já vou avisando: não me venham com Vinícius Júnior.

É um bom jogador. Tem velocidade, capacidade de desequilíbrio e já fez partidas importantes. Mas não é craque.

Não adianta gritar mais alto, repetir cinquenta vezes ou colocar uma trilha emocionante no vídeo. Vinícius Júnior não se transforma em gênio por decisão editorial.

Talvez um dia se transforme. Duvido, mas milagres acontecem. Segundo os narradores desta Copa, aconteceram uns quinze por partida.

O futebol atual tem grandes jogadores. O que não tem é a obrigação de fabricar um novo maior da história a cada temporada.

Nem todo talento precisa ser comparado com Pelé, esse sim o maior da história e insuperável. Nem todo goleador precisa superar Ronaldo. Nem todo camisa 10 precisa ser o sucessor de Maradona. E nem todo narrador precisa agir como sacerdote de uma religião recém-criada.

A Copa acabou.

Agora os deuses podem descer do Olimpo, devolver as chuteiras rosas aos patrocinadores e voltar a ser aquilo que sempre foram: excelentes jogadores de futebol. Alguns melhores do que outros. E vários muito menores do que a gritaria anunciava.

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