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O escândalo do Banco Master já impactou as eleições de outubro. A Bancada do Master, como ficou conhecido o grupo de políticos que atuou a favor do banqueiro Daniel Vorcaro, sofreu baixas e agora tenta dar sobrevida a algumas candidaturas na véspera da campanha eleitoral. O grupo aparece na Vorcarosfera, ferramenta do Estadão que mostra as relações políticas do empresário.
Os ex-governadores do Rio Cláudio Castro (PL) e do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) desistiram de suas candidaturas ao Senado após os impactos do escândalo. Cláudio Castro foi alvo da Polícia Federal e é investigado pelos aportes no Rioprevidência, fundo de pensão dos servidores do Rio. Ele nega irregularidades.
“Rezando muito, conversando muito, ouvindo muito, partilhando com minha família, meus amigos, pessoas que me acompanham, eu resolvi tomar a decisão mais difícil da vida”, disse Castro, ao anunciar a desistência de concorrer ao Senado, no dia 28 de maio, para, segundo ele, se concentrar em sua defesa.
Ibaneis não foi alvo de nenhuma operação, mas sofreu o mesmo desgaste por conta da relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e da tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. A crise impactou sua imagem e a relação com aliados, incluindo sua vice e atual governadora, Celina Leão (PP), de quem se afastou.
“Estou completando 55 anos e quero cuidar da minha vida”, afirmou o ex-governador à TV Globo no dia 8 de julho. Dois dias depois, Ibaneis comemorou seu aniversário na terra natal, em Contagem, no Piauí, a mais de 800 quilômetros de Brasília, onde pretendia ser candidato.
Ibaneis foi alertado pelo seu advogado, o criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, que era melhor para sua defesa estar fora da campanha. “Para o advogado criminal, é sempre bom estar fora da mídia e não estar fazendo política, mas essa não é uma questão que o advogado deve opinar”, disse o defensor ao Estadão. “Agora, o enfrentamento é mais técnico, que é tudo que o advogado quer.”
Na pré-campanha à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) também foi atingido após ser revelado um diálogo em que ele pede dinheiro a Daniel Vorcaro para bancar o filme do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Desde que foi divulgado o áudio em que ele pede dinheiro a Vorcaro, suas intenções de voto caíram de 42% para 37% no segundo turno, conforme pesquisas da Genial/Quaest. Não bastasse isso, o senador ainda foi atingido pelas críticas da ex-primeira-dama e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, e pelas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil.
Desde o início do escândalo, Flávio tentou colar a crise do Master no PT. Ele mantém essa postura, mas passou a ter de se defender pelo seu próprio envolvimento com Vorcaro.
“O núcleo do PT inteiro está envolvido na sacanagem, começou lá na Bahia com esse Augusto Lima . E ninguém fala do Augusto Lima por quê? Só fala do Vorcaro”, disse Flávio Bolsonaro em entrevista ao podcast Flow News, na última quarta-feira, 16. Augusto Lima é ex-sócio de Vorcaro.
A assessoria de Flávio afirmou ao Estadão que o Caso Master não é uma preocupação para a pré-campanha dele à Presidência.
Em março, uma pesquisa da Genial/Quaest apontou que 67% dos brasileiros dizem levar em conta o escândalo do Banco Master antes de definir seu voto nas eleições.
Na semana passada, o mesmo instituto apontou que, na opinião dos eleitores, os mais atingidos pelo Caso Master foram: a família Bolsonaro, para 14%; o governo Lula, para 8%; o Supremo Tribunal Federal, para 5%; o Banco Central, na opinião de 4%; e o Congresso Nacional, segundo 1% dos entrevistados.
Um levantamento da AtlasIntel/Bloomberg, também divulgado neste mês, apontou que 37,6% dos entrevistados ligam o Caso Master a aliados do presidente Lula e 36% afirmam que os maiores envolvidos no escândalo são os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para 17%, os dois grupos estão igualmente comprometidos.
“O Caso Master afeta mais o eleitorado que não é polarizado, aqueles que não são nem Lula, nem Bolsonaro. Esse eleitorado, que não está nos campos radicalizados, se importa mais com essa história. Os radicalizados vão relativizar”, diz o cientista político Murillo de Aragão, CEO da Arko Advice.
“Eu não vejo um lulista militante de esquerda votar ou não votar porque o filho do Lula eventualmente estava envolvido no escândalo do INSS ou o porque o líder do governo estava envolvido com o Banco Master. A busca pelo poder é maior que os valores. E isso vale para os dois lados”, observa o especialista.
No Piauí, o senador Ciro Nogueira (PP) tentará a reeleição, mas também se viu atingido, após ser acusado pela PF de receber propina de Vorcaro. Em meio à crise, ele fez até elogios a Lula em andanças pelo Estado e afastou o partido de apoiar formalmente a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro – situação que ainda será decidida pela federação do PP com o União Brasil.
“Eu tenho uma admiração enorme por vários presidentes da República que nós tivemos. O presidente Lula, que foi uma pessoa que enfrentou a questão da fome no nosso País…”, disse Ciro durante um discurso em São João do Piauí, no dia 3 de julho. Lula tem favoritismo histórico no Estado e já esteve no mesmo palanque que o senador.
Em outra agenda, em União (PI), ele fez questão de reforçar que fará acenos à direita e à esquerda. “Eu, quando vou fazer uma ponte, eu não vou fazer a ponte só do lado direito. Vou fazer a ponte do lado esquerdo também porque, se não, não fiz ponte nenhuma.”
Na Bahia, o senador Jaques Wagner (PT) recorreu a Lula para manter viva sua pré-campanha ao Senado. Lula e outros aliados fizeram agendas públicas com Wagner para exaltar sua figura após ele ser alvo de uma operação da Polícia Federal e também ser acusado de receber propina do Master. “A verdade é essa, é que nem todo irmão é um amigo, mas todo amigo é um irmão”, disse Lula em Alagoinhas (BA), no dia 1.º de julho, duas semanas após a operação.
Em São Paulo, o deputado Guilherme Derrite (PP) enfrenta obstáculos em sua pré-campanha ao Senado em São Paulo, com a divulgação de pesquisas recentes que colocaram adversários à frente. Ele atuou para aprovar um projeto que, na visão do governo e de uma ala do Congresso, enfraquecia a Polícia Federal em meio às investigações do Master.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) defendeu sua pré-candidatura e criticou as duas principais adversárias de Derrite na disputa pelo Senado – as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede).
“Com todo o respeito às duas candidatas ao Senado dos outros partidos, elas não começaram a fazer política em São Paulo, não elegeram esse Estado para servir”, disse Tarcísio. “Foram servir o Mato Grosso do Sul e o Acre, e levaram o cartão vermelho do Mato Grosso do Sul e do Acre. E se fossem concorrer por lá, lá não seriam eleitas.”
Ao Estadão, a assessoria de Derrite afirmou que o escândalo do Master tende a produzir impactos relevantes sobre as pré-candidaturas da esquerda. “Não há dúvidas de que os desdobramentos das investigações terão reflexos eleitorais para aqueles que são alvo das apurações e precisarão prestar esclarecimentos à sociedade, como ocorre com importantes lideranças da esquerda, entre elas o senador Jaques Wagner, que nega as acusações e é investigado no âmbito do Caso Master. E isso causará também impacto às pré-candidatas ao Senado ligadas à esquerda em São Paulo.”
Pesquisa CNT/MDA divulgada em junho apontou que 80,7% dos eleitores não votariam de jeito nenhum em um candidato a deputado federal ou senador que tenha seu nome associado ao escândalo do Master ou à fraude do INSS.
“O atingimento vai ocorrer muito na dimensão dos indivíduos. Não há um partido que seja mais atingido e outro menos atingido”, diz o cientista político Antonio Lavareda, ao afirmar que as candidaturas de parlamentares ligados ao Master serão afetadas.
Na eleição presidencial, segundo ele, Flávio Bolsonaro sofre um desgaste maior que Lula por ter seu nome diretamente envolvido em um pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro. “Vieram à tona várias informações negativas sobre o líder do governo Lula, mas o Jaques Wagner é coadjuvante da campanha presidencial. Flávio é protagonista, é candidato a presidente.”
Para Lavareda, o impacto do Master é menor do que a Lava Jato teve nas eleições de 2018. “O Caso Master é mais transversal que a Lava Jato porque atinge os Três Poderes, incluindo o Supremo, mas ainda não adquiriu o mesmo peso porque encontrou o País em um momento diferente. Na Lava Jato, havia uma crise econômica profunda, culminou no impeachment de uma presidente e maculou o vice-presidente que a substituiu e terminou o mandato com apenas 8% de aprovação.”
Outros personagens também devem ir para a campanha eleitoral com o Caso Master no encalço: como o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, pré-candidato a deputado federal no Rio, que recebeu R$ 6,4 milhões do Banco Master por meio de seu escritório de advocacia.
Na Bahia, o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa (PT) vai concorrer ao Senado. Ele era governador do Estado quando privatizou a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), em 2018. A operação foi a base para o surgimento do Master no ano seguinte.
Costa se juntou a Jaques Wagner e ao governador Jerônimo Rodrigues, pré-candidato à reeleição, para tentar eleger uma chapa pura do PT nas eleições majoritárias neste ano. A tentativa do petista é colar o escândalo do Banco Master no ex-presidente Jair Bolsonaro, em função da atuação do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto na raiz de criação do Master.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), é pré-candidato à reeleição e tentará lançar o pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley, para o Senado. O presidente Lula declarou apoio ao adversário dele na disputa, apresentando um obstáculo para a campanha. No âmbito do Caso Master, Motta pediu a liberação de um empréstimo para uma empresa da sua cunhada. Ele tem tratado o caso como uma operação “dentro da legalidade”.
O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União), pré-candidato ao governo da Bahia, também esteve na teia de relações de Daniel Vorcaro. O Banco Master pagou R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria do político baiano. Em agendas públicas recentes, ele tem feito críticas ao PT, especialmente na área de segurança pública, e evita falar do Master.


