O senador Sergio Moro divulgou um vídeo para anunciar que “as brigas de Brasília são as nossas brigas”. Diz também: “não peçam da gente covardia” e “não peçam da gente omissão”.
Calma, senador. Ninguém pediu. O eleitor, no máximo, pediu serviço.
Também não ficou muito claro quem é “a gente”. Talvez Moro esteja usando o plural de campanha, que inclui o candidato, o marqueteiro, o cinegrafista e mais dois assessores encarregados de garantir que ninguém faça perguntas.
Na sequência, ele promete lutar pelo Paraná, pelo Brasil e, pelo entusiasmo da interpretação, talvez também pela democracia ocidental, pela camada de ozônio e pela libertação de alguma tribo ainda não identificada pela equipe de comunicação. Na visão dele talvez os parnanguaras.
É um discurso produzido, ensaiado, repetido e provavelmente testado diante do espelho até que cada pausa parecesse espontânea. Não deve ter sido fácil. Até as pedras do Centro Cívico conhecem a luta diária de Moro contra a naturalidade, o calor humano e qualquer manifestação pública que não pareça ter sido aprovada previamente por um marqueteiro.
O problema, porém, não é a interpretação. É o roteiro.
Moro fala como se acabasse de chegar à vida pública, cheio de disposição para finalmente começar a trabalhar. Mas ele já é senador pelo Paraná. Foi eleito justamente para representar o estado em Brasília. Portanto, quando promete que agora vai lutar pelos paranaenses, surge uma pergunta inconveniente: o que exatamente estava fazendo até agora?
O saldo visível de seu mandato para o Paraná é tão discreto que caberia no rodapé do vídeo, e ainda sobraria espaço para os créditos da produtora.
Como ministro da Justiça, Moro também teve a oportunidade de produzir resultados para o Brasil. Preferiu sair pouco mais de um ano depois. Antes disso, abandonou a magistratura para entrar no governo, deixando a Lava Jato entregue ao próprio destino, que, como sabemos, não foi exatamente glorioso.
Moro tem uma relação curiosa com os cargos públicos. Entra cercado de expectativa e sai antes do fim. Deixou a magistratura, deixou o ministério e agora pretende deixar o Senado no meio do mandato para governar o Paraná.
Devagar com o andor, porque esse santo costuma abandonar a procissão antes da chegada.
No vídeo, Moro afirma que “ninguém aguenta mais quatro anos dessa infelicidade”. Nesse ponto, finalmente concordamos. O Paraná realmente não merece passar mais quatro anos sustentando um senador que parece considerar o próprio mandato apenas uma sala de espera para outro cargo.
Se está tão disposto ao sacrifício, poderia começar renunciando aos quatro anos restantes no Senado sem exigir, em troca, um mandato de governador. Seria uma demonstração concreta de desprendimento. E, sobretudo, de coerência.
Porque querer brigar não significa nada. Falar grosso diante de uma câmera não constrói estrada, não melhora hospital, não reduz fila, não atrai investimento e não resolve problema algum. Coragem de estúdio é um produto relativamente barato. O que custa caro é entregar resultado.
O discurso de Moro não resiste à própria biografia política. Ele pede confiança para fazer amanhã aquilo que não demonstrou capacidade, ou vontade, de fazer ontem.
Por que o eleitor deveria acreditar que agora será diferente?
Talvez o marqueteiro explique no próximo vídeo.
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