O leitor que me desculpe. Eu sei que deveria escrever uma coluna por dia, e hoje eu já havia escrito. É o combinado, apesar da pseudoexploração imposta pelo HojePR a este pobre escriba da velha guarda.
Mas, quando o assunto merece, faço duas, três e até quatro no mesmo dia. Que fazer? Informação é assim, não respeita expediente, horário de almoço nem a soneca depois do café.
Sou daquele tempo em que jornalista dava importância a fatos, documentos e novidades. Lacração me dá urticária. Influencer exige antialérgico, pomada e, dependendo do caso, internação.
Pois surgiu uma história que merece atenção médica.
O jornal Correio do Povo, de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, contratou a Neobe Gestão e Serviços Ltda., mais conhecida como Neokemp Pesquisas, para medir a intenção de voto dos paranaenses ao Governo do Estado e ao Senado. Pagou R$ 25 mil. Está tudo registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número PR-02914/2026.
Sim, um jornal de Jaraguá do Sul resolveu gastar R$ 25 mil para descobrir como estão Moro, Requião Filho, Greca, Sandro Alex e companhia.
É uma curiosidade com orçamento.
Normalmente, quando alguém quer saber da política do estado vizinho, abre o Google, lê os jornais ou telefona para um conhecido. O Correio do Povo encomendou uma pesquisa eleitoral.
Talvez a eleição catarinense esteja tão sonolenta que os jornais de lá tenham decidido importar emoção do Paraná. Talvez os leitores de Jaraguá acordem aflitos, perguntando durante o café: “Como será que anda a rejeição dos candidatos paranaenses?”
Tudo é possível.
A lei não proíbe que um veículo de outro estado contrate uma pesquisa no Paraná. Também não é proibido comprar uma passagem para Lisboa, desembarcar, tomar um café no aeroporto e voltar no mesmo avião. Continua sendo legal. Apenas parece meio estapafúrdio.
É uma espécie de internacionalização do jornalismo regional.
Hoje, um jornal de Jaraguá pesquisa o Governo do Paraná. Amanhã, uma rádio de Ponta Grossa encomenda uma sondagem sobre a Prefeitura de Blumenau. Depois, um blog de Cascavel mede a popularidade do prefeito de Criciúma. Mais adiante, o boletim da associação de moradores de Jandaia do Sul contratará um instituto para saber quem lidera a eleição municipal de Chapecó.
E a Justiça Eleitoral também achou que havia assunto a examinar. O TRE-PR passou a analisar um pedido de suspensão da divulgação do levantamento. A ação aponta supostas falhas na composição da amostra, na ponderação de renda e no plano amostral. São questionamentos ainda submetidos à Justiça, não irregularidades definitivamente comprovadas.
Mas a pergunta mais divertida continua sem resposta: por que um jornal catarinense pagaria R$ 25 mil para medir uma eleição paranaense?
Seria amor ao jornalismo regional? Espírito de integração entre os estados? Solidariedade federativa? Um súbito interesse acadêmico pela fauna política do Palácio Iguaçu?
Ou alguém mais teria interesse nesses números?
Um candidato querendo aparecer bem colocado? Um adversário interessado em testar fragilidades? Um partido procurando munição para negociações? Um grupo político disposto a produzir uma manchete conveniente?
Não sei. Não acuso. Não tenho provas.
Por isso pergunto.
Também seria interessante conhecer o entusiasmo da Neokemp ao aceitar a encomenda. O instituto recebeu o pedido de um jornal local catarinense para pesquisar governador e senador no Paraná e, aparentemente, ninguém levantou a mão para perguntar “pessoal, por que exatamente eles querem isso?”
Não se trata de condenar previamente o jornal ou o instituto. Trata-se de fazer aquilo que a imprensa costumava fazer antes de ser substituída por dancinhas, cortes de podcast e especialistas em absolutamente tudo: perguntar.
Pode haver uma explicação simples, legítima e até banal. Ótimo. Basta apresentá-la.
Qual era o projeto editorial? Onde os resultados seriam publicados? Por que interessariam especialmente aos leitores de Jaraguá do Sul? Houve participação financeira, comercial ou operacional de terceiros?
R$ 25 mil não costumam sair para passear sozinhos. Dinheiro pode não falar, mas raramente encomenda pesquisa eleitoral sem esperar alguma coisa em troca.
Enquanto as respostas não aparecem, a pesquisa fica com a aparência de uma encomenda cujo verdadeiro destinatário esqueceu de colocar o nome na embalagem.
E o leitor me perdoe por outra coluna no mesmo dia. A culpa não é minha.
Se amanhã um jornal de Florianópolis encomendar uma pesquisa para saber quem será o próximo síndico de um condomínio em Londrina, volto imediatamente.
Pseudoexplorado, sim. Mas informado.
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