ANO IV

22/07/2026

HojePR

agenor

O velho chororô eletrônico dos Bolsonaro

22/07/2026
bolsonaro

Pronto. Começou de novo.

Bastou a campanha apertar um pouco e as pesquisas não servirem um banquete completo para Flávio Bolsonaro tirar do armário o velho realejo da família. Aquele que toca uma nota só, a urna eletrônica. Algumas famílias passam de pai para filho um relógio, uma casa, uma receita de bacalhau. Os Bolsonaro transmitem a suspeita sobre a urna, especialmente quando existe o risco de perder.

Em uma reunião com diplomatas de dezenas de países, Flávio insinuou que máquinas usadas nas eleições brasileiras teriam a mesma origem das urnas ligadas à empresa venezuelana Smartmatic.

O problema é que a Smartmatic não fornece urnas nem programas para a votação brasileira, informação já desmentida diversas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Depois da repercussão negativa, a assessoria se apressou em divulgar uma nota dizendo que Flavio tem “integral confiança” no sistema eleitoral brasileiro. É o novo método científico bolsonarista: primeiro espalha a fumaça, depois apresenta um atestado de que não houve incêndio.

É preciso reconhecer certa disciplina no roteiro. O pai fez reunião com embaixadores para atacar as urnas; o filho reúne diplomatas e tropeça no mesmo assunto.

A política brasileira ganhou uma franquia familiar de teoria da conspiração. Muda o palestrante, conserva-se o PowerPoint invisível e repete-se a ladainha. Não estamos dizendo que houve fraude, estamos apenas fazendo perguntas, levantando suspeitas, piscando para os convertidos e deixando a desculpa pré-fabricada na geladeira.

Essa cantilena tem uma característica curiosa. Quando um Bolsonaro vence, a indignação contra as maquininhas perde o volume. A urna deixa de ser misteriosa, perigosa e venezuelana. Torna-se uma senhora honesta, trabalhadora, patriota e provavelmente vestida de verde e amarelo.

Quando o placar ameaça ficar desagradável, porém, ela imediatamente vira comunista, conspiradora e integrante de algum plano internacional descoberto por um sujeito num grupo de WhatsApp.

É uma relação tóxica. Quando entrega vitória, recebe flores. Quando aponta derrota, é acusada de traição.

O discurso funciona para quem já comprou o pacote completo. Urna suspeita, pesquisa comprada, imprensa inimiga, juiz comunista e derrota impossível. Não se pretende convencer ninguém fora da bolha. A intenção é massagear os ouvidos dos convertidos e preparar o terreno para a velha explicação infantil. “Eu não perdi; roubaram de mim”. É a versão política do menino que leva goleada no videogame e desliga o aparelho antes do fim.

E a eleição nem chegou. Pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta semana mostrou Lula com 40% e Flávio com 33% no primeiro turno, embora haja empate técnico no cenário de segundo turno. Não existe derrota consumada. Mas o candidato já começou a experimentar desculpas no provador, talvez para descobrir qual combina melhor com outubro.

Se a candidatura está tão difícil a ponto de exigir uma fraude imaginária antes mesmo da abertura das urnas, existe uma solução simples, barata e democrática: desistir. A direita tem outros candidatos. Ronaldo Caiado está aí. Romeu Zema também. Podem ter seus defeitos, e têm, mas até agora não parecem precisar apresentar uma certidão venezuelana da urna toda vez que a pesquisa traz azia.

Flávio poderia apoiar um deles, preservar o tímpano nacional e evitar que o país seja obrigado a ouvir novamente o remix eleitoral do pai.

Seria até um gesto de maturidade. Reconhecer que sobrenome famoso não é programa de governo, herança política não é talento automático e candidatura presidencial não deve servir apenas para manter a família no centro do palco.

Mas maturidade talvez seja pedir muito. É mais fácil culpar a urna. Ela não dá entrevista, não responde no grupo da família e não chama o candidato para uma conversa séria. É o adversário perfeito, silencioso, metálico e incapaz de revirar os olhos.

O Brasil tem problemas reais demais para suportar outra temporada desse mi-mi-mi eletrônico. Segurança pública, saúde, dívida, educação, produtividade, desigualdade, enfim, assuntos não faltam. Mas debater soluções dá trabalho. A urna, ao contrário, permite indignação sem proposta, barulho sem conteúdo e derrota sem responsabilidade.

Portanto, senador, faça campanha, apresente ideias, tente crescer e convença quem ainda não está convencido. Ou apoie Caiado, Zema, o vizinho, o síndico, quem achar melhor. Só nos poupe desse papo requentado.

Porque perder uma eleição faz parte da democracia. O que ninguém merece é perder também a paciência.

Leia outras colunas do Agenor aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário