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O Brasil registrou um novo crescimento de feminicídios no ano de 2025. Foram 1.571 casos ao longo do ano passado, 4% a mais que em 2024, quando foram contabilizadas 1.504 ocorrências no período. Os dados são da 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira, 23, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Este é o quarto ano seguido de aumento de casos no País, conforme o Fórum. Com exceção de 2021, quando o número de feminicídios caiu 0,6% em relação a 2020, o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres manteve-se em constante crescimento desde 2016, quando o País registrou 929 casos, um ano após a tipificação do crime. Passada uma década, o número de ocorrências deu um salto de 69,1%.
Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que o crescimento de 4% “preocupa” e “está acima da média”. “Estava variando entre 1% e 1,5%, às vezes batendo 2%. Então isso é algo que preocupa muito, porque mostra que, não obstante todo esse arcabouço legal, o fato é que a gente ainda não tem sido capaz de garantir essa proteção às mulheres”.
Samira reconhece que o Brasil avançou no combate à violência do ponto de vista legislativo. Um dos principais marcos é a Lei Maria da Penha, que completará 20 anos em agosto. Contudo, ela entende que, na prática, isso não se reverteu em políticas efetivas de proteção à mulher. “O Brasil vinha com crescimento dos feminicídios ano a ano, mas não com um crescimento tão significativo, de 4%, como a gente viu agora”, afirma.
Por região, os maiores aumentos de feminicídio foram registrados na Paraíba (37,8%), Sergipe (49,4%), Tocantins (52,8%), Rondônia (66%), Acre (74,3%) e Amapá (347%). Neste último Estado, o número total de casos subiu de 2, registrados em 2024, para 9, em 2025.
Em números absolutos, São Paulo lidera as estatísticas, com 270 casos (aumento de 6,4%) e uma taxa de 1,1 por 100 mil mulheres. A lista segue com Minas Gerais, com 117 casos (queda de 4,4%) e taxa de 1,6 por 100 mil mulheres; Rio de Janeiro, com 105 casos (-1,9%) e taxa de 1,2 por 100 mil mulheres; e Bahia, onde foram registradas 102 ocorrências (queda de 7,4% ante 2024) e uma taxa de 1,3 feminicídio por 100 mil mulheres.
Em termos de taxa, os Estados com maiores índices em 2025 foram: Acre (3,2 casos por 100 mil mulheres), seguido de Rondônia (2,9), Mato Grosso (2,7), Tocantins (2,5) e Amapá (2,2).
Feminicídios sobem mesmo com queda de homicídios
Pesquisadores do FBSP chamam a atenção também para o fato de os feminicídios subirem na contramão dos homicídios, que vêm em queda nos últimos anos. “Por que, a despeito da queda dos homicídios no Brasil, a violência letal que acontece dentro de casa continua sem recuar?”, questionam as pesquisadoras Isabella Matosinhos, consultora do FBSP, e Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça no FBSP.
Elas explicam que feminicídio é uma violência doméstica, relacional, que acontece no mundo privado das vítimas e ocorre majoritariamente dentro dos espaços familiares. “Justamente os espaços onde a intervenção do Estado costuma ser mais difícil e onde a violência frequentemente permanece invisível até alcançar seu desfecho mais extremo”.
Não à toa, os parceiros representaram 60,9% da autoria das mortes, enquanto os ex-parceiros responderam por 18,9% — 79,8% no total. “Poucos indicadores ilustram tão claramente as diferenças entre feminicídios e as demais mortes violentas intencionais de mulheres quanto a relação entre vítima e autor”, afirmam.
Isabella e Juliana pontuam que o feminicídio é a consequência final de outros crimes que o antecedem e que esses indicadores também cresceram no período, como perseguição (30,1%), violência psicológica (16,9%), descumprimento de medidas protetivas (16,7%), ameaças (0,5%) — que somaram 788.531 casos em números absolutos — e lesões corporais dolosas no contexto de violência doméstica (2,6%).
Neste último caso, o total de registros foi de 286.270 no ano passado (taxa de 261,7), o que significa que, no Brasil, uma mulher é agredida a cada 2 minutos. “A violência de gênero costuma ser cumulativa, progressiva e escalonada. Raramente ela começa pelo ato mais grave”, afirmam Isabella Matosinhos e Juliana Brandão.
Outro crime que antecede o feminicídio, a tentativa de feminicídio, também apresentou elevação de 5,9% no período: subiu de 3.940 casos registrados em 2024 para 4.189, em 2025. “Por definição do Código Penal, a tentativa é o crime que não se consumou por circunstâncias alheias à vontade do agente. O autor não desistiu de matar: ele não conseguiu”, afirmam.
Medidas protetivas são descumpridas a cada 4 minutos
Conforme o anuário, ao menos 70 mulheres vítimas de feminicídio foram assassinadas com medida protetiva ativa no momento do óbito. Isso equivale a 8,8% do universo de 797 ocorrências registradas nos 18 Estados que forneceram a informação ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Segundo o estudo, 2025 registrou um total de 132.025 registros de descumprimento no ano, 16,7% a mais em relação a 2024. O total representa 362 descumprimentos por dia, 15 a cada hora, ou uma violação do instrumento de proteção a cada 4 minutos.
“Os dois dados, lidos juntos, descrevem um ciclo: a medida é concedida, é descumprida e, em alguns casos — mais do que deveriam —, o descumprimento termina em morte”, aponta a pesquisa. “O Brasil possui boas leis de combate à violência de gênero, mas a questão é que a gente não consegue implementar essas boas leis”, afirma Samira Bueno.



