Existem cidades que desaparecem dos mapas sem nunca abandonar a memória. A de Tiquinho era assim. Bastava alguém fechar os olhos para ouvir outra vez o sino da igreja, o pregão do leiteiro e, sobretudo, sentir o perfume do pão quente atravessando as ruas antes mesmo que o sol terminasse de acordar.
Na década de 1960, quando o tempo ainda caminhava de botinas e conversava nas esquinas, as crianças saíam do Grupo Escolar formando uma alegre procissão rumo às padarias. Levavam nos bolsos algumas moedas de cruzeiros, às vezes uma nota dobrada que os pais chamavam de mesada e elas chamavam de fortuna.
As vitrines eram um pedaço do paraíso. Maria-mole leve como nuvem de junho, bom-bocado dourado, doce de abóbora brilhando como âmbar, doce de leite espesso e, acima de todos eles, as famosas rosquinhas da Tia, de coco ou de laranja. Havia quem jurasse que a receita fora ensinada por um anjo padeiro; outros garantiam que a massa crescia ao som das ladainhas da igreja. Na cidade ninguém ria dessas histórias. Os milagres sempre preferiram morar nos lugares pequenos.
Só Tiquinho não atravessava aquela porta.
Enquanto os amigos escolhiam seus doces, ele pendurava no ombro a caixa de engraxate e percorria as ruas atrás de fregueses.
— Engraxa, seu moço?
Seu trabalho era devolver brilho aos sapatos para que, em casa, não faltasse feijão. Os doces ficavam apenas no território do perfume. Conhecia a rosquinha da Tia sem jamais tê-la provado. Dizia que podia distinguir, ainda na esquina, se naquele dia ela havia usado coco ou laranja. Os adultos sorriam daquela fantasia, esquecidos de que as crianças famintas aprendem a enxergar pelo olfato.
Numa tarde de céu tão limpo que parecia recém-lavado, o destino resolveu distraidamente tropeçar diante do menino. No meio da praça repousava um maço de dinheiro. Tiquinho olhou em volta. Nenhum grito. Nenhuma procura. Apenas o vento sacudindo as folhas da figueira e alguns pardais discutindo assuntos muito mais importantes que a riqueza dos homens. Sem compreender por quê, seus pés caminharam sozinhos até a Confeitaria da Tia, como se obedecessem a uma ordem antiga.
A velha confeiteira levantou os olhos e sorriu.
— Demorou, meu filho.
Era a primeira vez que se encontravam.
Mesmo assim, Tiquinho teve a estranha impressão de que aquela mulher o esperava havia muitos anos.
Comprou um pedaço de maria-mole, um bom-bocado, doce de leite, doce de abóbora. Mas foi ao morder uma rosquinha de laranja que o impossível aconteceu com absoluta naturalidade.
O forno respirou.
A farinha começou a dançar na claridade da janela.
As colheres cochicharam umas com as outras.
E o perfume do pão espalhou-se pela cidade inteira, entrando pelas casas, pelas janelas da escola, pela torre da igreja, como se anunciasse o nascimento de alguma coisa invisível.
Naquele instante nasceu um padeiro.
Dias depois apareceu o verdadeiro dono do dinheiro. Tiquinho devolveu quase tudo o que restava, confessando, envergonhado, a pequena extravagância dos doces.
O homem sorriu.
— Menino, dinheiro a gente recupera. Há encontros que Deus não repete.
Pouco tempo depois, a Tia chamou o garoto para ajudá-la na padaria.
Primeiro veio a vassoura. Depois os sacos de farinha. Em seguida, o aprendizado silencioso dos fornos.
Foi ela quem lhe ensinou que o fermento reconhece mãos impacientes, que nenhuma massa cresce ouvindo gritos e que todo pão guarda um pouco da alma de quem o amassa.
Os anos passaram sem fazer alarde.
A velha partiu como partem os bons perfumes: permanecendo.
Tiquinho assumiu os fornos, abriu sua própria padaria e transformou a antiga rosquinha da Tia numa iguaria conhecida muito além das montanhas que cercavam a cidade. Hoje ela viaja pelo Brasil, atravessa oceanos e chega a mesas onde ninguém sabe localizar no mapa aquele pequeno município do interior, mas todos reconhecem o sabor inexplicável da infância.
Os funcionários da fábrica contam que, na primeira fornada de cada amanhecer, acontece um fato curioso.
Sem que alguém esprema uma única laranja, o ar inteiro se perfuma.
Os relógios parecem andar mais devagar.
A farinha flutua por alguns segundos antes de pousar.
E quem permanece em silêncio consegue ouvir, misturado ao estalar do forno, o riso distante de um menino engraxate correndo pelas ruas com uma caixa de madeira no ombro.Talvez seja apenas o vapor do pão ou o perfume da rosquinha sabor laranja.
Ou talvez exista uma verdade que só os padeiros conhecem: algumas receitas são escritas com farinha, outras com açúcar. Mas as que sobrevivem ao tempo são sovadas pelas mãos invisíveis da esperança.
É por isso que, até hoje, quem morde uma rosquinha da Tia leva para casa muito mais que um doce.
Leva um pedaço daquela tarde em que o destino resolveu ter cheiro de laranja.
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