ANO IV

27/07/2026

HojePR

ici

Transformação digital: tecnologia que o cidadão percebe, mas não vê

27/07/2026
transformação

Por Joseani Schreiber

São 11h da manhã e uma senhora está na terceira sala de atendimento de uma prefeitura, com a mesma pasta de documentos debaixo do braço. Ela já contou a mesma história duas vezes, preencheu o mesmo dado em dois formulários diferentes e agora espera para repetir tudo de novo, porque o sistema desta sala não conversa com o da sala anterior. O problema é silencioso: as plataformas não trocam informações entre si.

É esse tipo de tecnologia que costuma passar despercebido quando funciona bem. Para o cidadão, não precisar apresentar o mesmo documento três vezes ou conseguir resolver, em minutos, algo que antes levava semanas parece apenas o funcionamento natural do serviço. Mas é justamente nessa experiência mais simples e silenciosa que aparece um dos efeitos mais concretos da transformação digital: a integração entre sistemas.

Por trás de um aplicativo, portal ou atendimento mais ágil existe uma estrutura que o cidadão não vê: soluções construídas em momentos diferentes, com tecnologias e finalidades distintas, que precisam trocar dados de maneira automática, segura e rastreável. Sem isso, a digitalização vira apenas uma nova aparência para o mesmo problema antigo, e o próprio cidadão acaba sendo o sistema de integração, levando documentos e repetindo informações de um atendimento para outro.

O trabalho da transformação digital está em compreender como o processo realmente acontece, onde a informação nasce e quem depende dela. Muitas dificuldades atribuídas à falta de tecnologia são, antes de tudo, falhas na organização dos fluxos de trabalho.

Um processo mal compreendido, quando automatizado, apenas erra mais rápido. Por isso, antes de perguntar qual sistema será utilizado, é preciso entender o que precisa ser resolvido e para quem.

Muitas instituições acumulam ferramentas que operam bem isoladamente, mas que, juntas, formam uma colcha de retalhos nunca pensada para trabalhar de maneira integrada. Corrigir esse cenário é uma decisão estratégica, que exige governança clara sobre quais informações são compartilhadas, com quem e para qual finalidade, além de rastreabilidade sobre quem acessa cada dado.

No fim, a integração de sistemas só faz sentido quando produz um resultado perceptível para quem utiliza o serviço: menos filas, menos formulários repetidos, mais segurança e previsibilidade. A tecnologia atua nos bastidores para que as pessoas não precisem entender como essas conexões acontecem; elas só precisam sentir que o serviço funciona.

Talvez esse seja o maior indicador de maturidade digital de uma instituição: não a quantidade de tecnologias que utiliza, mas a forma quase invisível com que elas se conectam: “Quando a senhora saiu da terceira sala sem repetir sua história, a transformação digital cumpriu o que prometeu: entregar um resultado que o cidadão sente, mas não vê.”


Joseani Schreiber é doutoranda em Engenharia de Produção e Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e atua como Analista de Inteligência de Negócios na área de Transformação Digital do Instituto das Cidades Inteligentes (ICI).


Leia outras colunas do ICI aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário