ANO IV

27/07/2026

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A cicuta justa

27/07/2026
cicuta

Há alguma razão em afirmar que Nietzsche foi antes escritor do que filósofo. Um aforista inspirador e inspirado, certamente. O ano de 1888 foi o seu último de vida mental lúcida e talvez o mais prolífico (morreria em 1900). Tempo suficiente para que, no apagar das luzes, risse do que Aristóteles definia como a completude do estado de felicidade: a contemplação. Em máxima, retrucou: “O ser humano não aspira à felicidade, somente o inglês faz isso”.

Fez pilhéria também de Platão no “Fédon”, que narra a condenação à morte de Sócrates por ingestão de cicuta. Em um capítulo de “O Crepúsculo dos Ídolos”, o alemão escreve: “Em todos os tempos, os homens mais sábios fizeram o mesmo julgamento da vida: ‘ela não vale nada’”. Sócrates teria feito exatamente isso. Despedindo-se dos discípulos em diálogos que preenchem páginas e páginas, ele afirma: “Viver significa há muito estar doente”. Seu desapego é tal que há tempo para que trate de contas pendentes: “Críton, devo um galo a Asclépio, pague-o”.

Nietzsche enxerga a decadência de Atenas na dialética do filósofo grego; em sua fealdade (o nobre grego era bonito, o plebeu, feio); na arte de esgrimir as palavras; no incentivo à competição (ágon); e no sentido que dá à disputa entre jovens homens e adolescentes “Sócrates foi também um grande erótico”.

Na cena final do filme “A Última Noite de Bóris Grushenko” (1975), Woody Allen faz um jogo de palavras com a homossexualidade de Sócrates e com o silogismo clássico em que a premissa é a mortalidade do filósofo:

“A) Sócrates é um homem. B) Todos os homens são mortais. C) Todos os homens são Sócrates. Então todos os homens são homossexuais! Ora, eu não sou um homossexual. (Certa vez alguns homens assobiaram para mim. É, eu tinha um corpo que excitava ambos os sexos). Alguns homens são heterossexuais. Alguns são bissexuais. Alguns homens não pensam em sexo de modo nenhum. Eles se tornam advogados.”

Antes, Allen havia escrito um artigo para a “The New Yorker” em que parodiava a morte de Sócrates. Já nas primeiras linhas, e de forma bem-humorada, ele diz que o que o fascina no “mais sábio de todos os gregos é a sua incrível coragem diante da morte”. O que vem a seguir, porém, é um sonho em que Woody Allen se vê na pele de Sócrates:

Ágaton – Ah, meu velho e sábio amigo! Como vão os seus dias de confinamento? Temo que o mundo seja mau. Você foi condenado à morte.

Woody – Tudo bem, chato foi ter provocado tanta polêmica no Senado.

Ágaton – Polêmica nenhuma, a decisão foi unânime.

Símias – O Senado está fulo com você por causa daquelas ideias a respeito de um Estado utópico.

Woody – Talvez eu nunca devesse ter sugerido que a gente precisava de um rei-filósofo.

Símias – Principalmente apontando para você mesmo e pigarreando o tempo todo.

Woody – A morte é um estado de não-ser. O que não é, não existe. Só a verdade existe. Mas, o que é a verdade senão a confirmação de si mesma? Mas, se a morte pode ser confirmada por si mesma, a morte é a verdade, logo existe! O que eles estão planejando fazer comigo?

Ágaton – Fazê-lo tomar cicuta. Lembra daquele líquido escuro que atravessou a sua mesa de mármore?

Woody – Aquilo? Hummm… Escute, ninguém mencionou a palavra “exílio”?

Ágaton – Mas não foi você que provou que a morte não existe?

Woody – Olhem, andei provando muitas coisas na vida. Como acham que consigo pagar o aluguel? Umas teorias aqui, outras observações ali, uma frase brilhante de vez em quando, e, às vezes, alguns ditados e máximas.

Ágaton – Mas você provou tantas vezes que a alma é imortal!

Woody – E é! Pelo menos no papel. Esse é o problema da filosofia: já não funciona tão bem depois da aula.

Ágaton – E toda aquela conversa sobre morrer ser o mesmo que dormir?

Woody – Eu sei, mas o problema é que, se você está morto e alguém grita ‘Hora de acordar!’, é muito difícil encontrar os chinelos.

(Entra o mensageiro) – Parem! Houve uma apelação e o Senado votou de novo. As acusações foram levantadas. Você foi declarado inocente e será publicamente reabilitado!

Woody – Finalmente! Eles recuperaram o bom senso! Sou um homem livre! Livre! E ainda serei reabilitado! Rápido, Ágaton e Símias, peguem minhas malas. Preciso ir. Praxíteles deve estar ansioso para esculpir minha estátua. Mas antes, descreverei para vocês uma pequena parábola: um grupo de homens vive numa caverna escura. Nunca viram o sol. A única luz que conhecem é a das velas que usam para iluminar a caverna.

Ágaton – E onde arranjam as velas?

Woody – Bem, já estavam lá e não me amolem.

Ágaton – OK, OK, mas anda logo. Está demorando muito.

Woody – Então, certo dia, um dos habitantes da caverna dá um pulinho lá fora e vê o mundo.

Símias – Em toda sua clareza.

Woody – Perfeitamente. Em toda sua clareza.

Ágaton – E quando volta para contar aos outros, ninguém acredita.

Woody – Não exatamente. Ele não conta aos outros.

Ágaton – Não???

Woody – Não. Em vez disso, abre um açougue, casa-se com uma dançarina e morre de trombose aos 42 anos”.

É nesse instante que os discípulos o agarram e forçam-lhe a cicuta goela abaixo.

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