Poucos realizadores marcaram tão profundamente a história do cinema brasileiro quanto Ruy Guerra. Um dos fundadores do Cinema Novo, parceiro de nomes como Gabriel García Márquez, Chico Buarque, Edu Lobo e Milton Nascimento, o cineasta chega aos 95 anos mantendo o mesmo entusiasmo criativo que o tornou uma das figuras mais importantes da cultura brasileira.
Para celebrar essa trajetória, a CAIXA Cultural Curitiba apresenta, entre 12 e 23 de agosto, a Mostra Retrospectiva Ruy Guerra, que reúne quase toda a filmografia do diretor. Ao longo de doze dias serão exibidos 17 longas-metragens, além de dois documentários dedicados à sua vida e obra, oferecendo ao público uma rara oportunidade de acompanhar quase sete décadas de produção cinematográfica em uma única programação.
A retrospectiva contempla desde o longa de estreia, Os Cafajestes (1962), até A Fúria (2024), produção mais recente do diretor que encerra a chamada “Trilogia dos Fuzis”, iniciada com Os Fuzis (1964) e continuada por A Queda (1978). Também integra a programação o raríssimo Ternos Caçadores (1969), recentemente restaurado em resolução 4K e exibido novamente após muitos anos fora de circulação.
Além das sessões, o público poderá participar, no dia 14 de agosto, às 19h30, de uma master class conduzida pelo próprio Ruy Guerra, que abordará a construção artística e política da trilogia formada por Os Fuzis, A Queda e A Fúria, obras que atravessam seis décadas de história brasileira por meio de um mesmo personagem.
A programação inclui ainda o lançamento de um catálogo digital com uma extensa entrevista inédita concedida pelo cineasta ao curador e organizador da mostra, Aristeu Araújo, oferecendo ao público um panorama de sua trajetória artística, suas influências literárias e seu pensamento sobre cinema.
“Sempre tive uma paixão muito grande pela palavra. Queria ser escritor antes de ser cineasta. O cinema acabou sendo o caminho possível para contar histórias, mas continuo lendo o dicionário todos os dias como quem lê um romance. A palavra continua sendo o centro de tudo o que faço”, afirma Ruy Guerra.
Nascido em Moçambique, durante o período colonial português, Guerra estudou cinema em Paris no momento em que surgia a Nouvelle Vague francesa. Chegou ao Brasil em 1958 trazendo uma sólida formação cinematográfica e participou da fundação do Cinema Novo ao lado de Glauber Rocha, Cacá Diegues e outros realizadores que transformaram definitivamente a linguagem do cinema nacional.
Ao longo de quase 70 anos de carreira, construiu uma filmografia marcada pelo compromisso político, pela experimentação estética e pela constante aproximação com a literatura. Adaptou obras de Gabriel García Márquez, Chico Buarque e Antonio Callado, escreveu peças, poemas e letras de músicas interpretadas por grandes nomes da MPB, consolidando uma produção artística que ultrapassa as fronteiras do cinema.
Segundo o curador da mostra, Aristeu Araújo, a retrospectiva representa uma oportunidade rara para compreender a dimensão da obra do diretor.
“É uma oportunidade única para o público acompanhar praticamente toda a trajetória de Ruy Guerra e perceber como sua obra dialoga com diferentes momentos da história do Brasil e do mundo. Ele recebeu com entusiasmo o projeto e está muito animado em reencontrar o público em Curitiba.”
A realização da retrospectiva também exigiu um extenso trabalho de pesquisa e preservação do patrimônio audiovisual brasileiro. Muitas obras de Ruy Guerra sobreviveram apenas em materiais deteriorados ou com cópias de difícil acesso, tornando a organização da mostra um verdadeiro trabalho de arqueologia cinematográfica.
“Grande parte da história do cinema brasileiro enfrenta sérios desafios de preservação. Reunir esta retrospectiva significou localizar materiais espalhados em diferentes acervos, avaliar inúmeras versões e buscar sempre a melhor cópia disponível para cada filme. Tivemos um trabalho cuidadoso de garimpo para oferecer ao público exibições com a melhor qualidade possível”, destaca Aristeu Araújo.
Entre os destaques da programação está justamente Ternos Caçadores, produção francesa realizada em 1969 que permaneceu durante décadas praticamente inacessível ao público brasileiro e que agora retorna às telas em versão restaurada em 4K. Outro momento especial será a exibição de A Fúria, lançado recentemente e ainda pouco visto pelo público, encerrando uma trilogia iniciada há mais de sessenta anos.
Além dos longas de ficção, a mostra exibe os documentários Tempo Ruy (2021), dirigido por Adilson Mendes, e O Homem que Matou John Wayne (2015), de Bruno Laet e Diogo Oliveira, que ampliam o olhar sobre o pensamento e o processo criativo do cineasta.
Mesmo aos 95 anos, Ruy Guerra continua desenvolvendo novos projetos e mantém o humor característico ao falar sobre o futuro.
“Decidi que vou viver até os 117 anos. Até os 100 ainda quero fazer cinema. Depois disso pretendo voltar ao meu primeiro amor, que sempre foi a literatura.”
A retrospectiva reafirma a importância de um artista cuja obra permanece atual ao discutir desigualdade, violência, poder, liberdade e justiça social, temas que atravessam diferentes períodos da história brasileira e continuam provocando reflexão nas novas gerações.
Curadoria
Aristeu Araújo é cineasta, com passagens pelo teatro e pela literatura. Graduado em Cinema pela UFF e em Jornalismo pela UFRN, já fez curadoria de dezenas de mostras cinematográficas, dirigiu doze curtas e montou cerca de 40 filmes, entre longas e curtas. Atua no cinema principalmente como montador, assinando as edições dos longas “Mães do Derick”, de Cássio Kelm (Prêmio de Melhor Montagem no 14º For Rainbow), e “A Mesma Parte de Um Homem”, de Ana Johann (finalista no Prêmio Abcine de Melhor Montagem de Ficção). No momento trabalha na montagem de “1989”, dirigido por Juliana Sanson, e está finalizando seu primeiro longa, o filme “A Ponte”.
Aristeu Araújo, cineasta, montador e curador da Mostra Retrospectiva Ruy Guerra, assina a seleção de filmes
e a pesquisa que reuniu grande parte da obra do diretor em uma programação inédita na CAIXA Cultural Curitiba.
Serviço
Mostra Retrospectiva Ruy Guerra
Quando: 12 a 23 de agosto de 2026
Onde: CAIXA Cultural Curitiba (Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro)
Capacidade máxima: 123 lugares + 02 espaços para cadeirantes
Ingresso: Gratuito
Retirada de ingressos 60 minutos antes de cada sessão, na bilheteria do teatro.
Verifique a classificação indicativa de cada filme.
Master class com Ruy Guerra
Quando: 14 de agosto
Horário: 19h30
Onde: CAIXA Cultural Curitiba (Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro)
Tema: A Trilogia dos Fuzis (Os Fuzis, A Queda e A Fúria)
Ingresso: Gratuito
Classificação: 14 anos
*Este projeto foi viabilizado com patrocínio da CAIXA.
Mais informações:
CAIXA Cultural Curitiba
www.caixacultural.gov.br
Telefone: 4501 8222



