ANO IV

24/06/2026

HojePR

caron

A Cadillac que não era do meu pai

12/03/2026
caddilac amarelo

Na nossa Curitiba dos anos 1950/1960 eu morava na Rua Ângelo Sampaio no Batel, entre a Alameda D. Pedro II e Av. Batel, numa casa espaçosa e com um terreno muito grande. Meu pai era advogado e entre seus clientes estava o Banco Nacional de Minas Gerais, com suas agências em Curitiba. No final dos anos 50, houve um desfalque no Banco e coube ao meu pai ir atrás dos bens dos autores do desfalque que moravam em São Paulo. Ele conseguiu confiscar alguns bens, entre eles um fascinante e reluzente Cadillac Conversível ano 1951 na cor verde água. Como tinha todo o trâmite judicial sempre demorado, o Cadillac acabou indo para na nossa casa, pois nos fundos dela tinha uma espécie de barracão que a família chamava de “garajona”, pois cabiam uns 4 carros.

Naquele tempo a indústria de carros nacional estava começando, com poucos modelos e nenhum luxo. Na nossa família tínhamos uma Perua Dodge 1951 e um Vanguard 1952. Uma Cadillac Conversível ano 1951 era o supra sumo do luxo. A capota de lona era elétrica e abria e fechava girando botões no painel. Os vidros eram todos elétricos, o câmbio automático com a alavanca na coluna de direção, o motor um V-8 de 5,7 L, os bancos eram inteiriços na frente e atrás acomodando 6 adultos com muito conforto. O banco dianteiro tinha regulagem elétrica, para frente e para trás, mas não reclinava. O bocal do tanque de gasolina era um espetáculo à parte: nenhum frentista de posto de gasolina conseguia acha-lo, pois ele ficava localizado dentro da lanterna traseira esquerda, que tinha o formato de uma espécie de “rabo de peixe”, por isso as Cadillacs deste ano e de alguns outros também eram chamadas por este nome. Para ter acesso ao bocal do tanque, tinha que apertar um “olho de gato” redondo que ficava exatamente abaixo da lanterna, quando então ela destravava e abria impulsionada por uma mola. Este era um espetáculo à parte nos postos de gasolina. Todo mundo parava para ver.

Como eu sempre fui apaixonado por carros e nesta época eu tinha uns 7/8 anos de idade, meu espaço preferido em casa passou a ser a garajona para admirar o Cadillac. Logo que o carro chegou na nossa casa, meu pai ainda o manteve funcionando dando algumas voltinhas na quadra durante os finais de semana, claro que com a minha companhia. Mas com o passar do tempo ele foi deixando de funcionar o carro. Eu acabei descobrindo como abri-lo sem as chaves e na companhia de amigos que moravam perto de casa e também de ninha irmã mais nova, simulávamos passeios e viagens a bordo da Cadillac. O Rio de Janeiro era o nosso destino preferido nos sonhos. E é claro que sempre eu é que estava ao volante.

Os anos foram passando e lá por 1966 resolvidos os problemas judiciais , apareceu um caminhão guincho e levou embora o Cadillac que não era do meu pai. Nossa tristeza foi total. Nestas alturas ela estava suja e sem funcionar há muitos anos.

Depois de adulto questionei meu pai porque ele não comprou o Cadillac do banco, por valor simbólico. Ele me disse que ninguém dava bola pra carro velho naquela época e ele tinha razão. A cultura do “Antigomobilismo” no Brasil só começou nos anos 60 no eixo Rio-São Paulo, com alguns poucos milionários que começaram a preservar os carros de suas famílias. A partir do início dos anos 2.000 é que ela se intensificou e virou febre nacional e mundial. Hoje em dia um Cadillac destes bem preservado deve estar beirando Um Milhão de Reais.

E assim chega ao fim esta história do Cadillac que não era do meu pai. (Bem que eu queria que fosse).

Seguem algumas fotos de Cadillacs retiradas da Internet. Infelizmente não tenho nenhuma foto da “nossa” Cadillac.

Leia outras colunas do Caron aqui.

 

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.