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‘Bomba’ disfarçada de tratamento: mulheres usam anabolizante sem saber, e médicos lucram com isso

02/06/2026

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A gestrinona virou assunto frequente nas redes sociais. Não faltam vídeos exaltando as “maravilhas” desse hormônio no tratamento da endometriose e para fins estéticos. Ou ainda posts de mulheres com corpos esculturais que dizem não tomar anabolizante, apesar de usar a gestrinona. Há, inclusive, uma discussão na internet: o hormônio é ou não “bomba”? Os especialistas são categóricos na resposta: a gestrinona é um anabolizante.

A explicação passa pela estrutura química da substância e por seus efeitos no corpo. Ao contrário de hormônios que o organismo produz naturalmente (como estrogênio e progesterona), a gestrinona é desenvolvida em laboratório e tem ação androgênica (semelhante à testosterona), ou seja, promove mudanças associadas às características sexuais masculinas, além de possuir efeito antiestrogênio e antiprogesterona, dois hormônios femininos.

Efeitos colaterais

Os mesmos posts trazem centenas de comentários de mulheres que utilizaram o hormônio sintético e relatam efeitos colaterais como:

  • queda de cabelo;
  • aumento de pelos pelo corpo;
  • aumento da oleosidade da pele e acne;
  • piora do perfil lipídico (colesterol, triglicérides) e aumento do risco cardiovascular;
  • engrossamento da voz.

Esses são apenas os efeitos adversos comprovados. Com o aumento dos casos nos consultórios, médicos passaram a suspeitar de outras reações, como problemas nas mamas (diminuição dos seios, alteração de sensibilidade e possível relação com câncer de mama), ainda sem comprovação científica.

“Alguns efeitos colaterais do hiperandrogenismo podem ser irreversíveis se não forem tratados precocemente com a interrupção do uso e o tratamento desses sintomas”, afirma Mariana Granado, ginecologista do Hospital Municipal M’Boi Mirim, em São Paulo.

Mesmo assim, muitas mulheres decidem usar a gestrinona devido às promessas atrativas: maior facilidade para ganho de massa magra, aumento da libido e melhora da disposição, além de alívio dos sintomas da menopausa, sendo frequentemente apresentada como uma fórmula “antienvelhecimento”.

Em certa medida, alguns desses efeitos podem acontecer, afirma o ginecologista Sergio Podgaec, mas isso é só parte da história. Os benefícios estéticos (daí o apelido “chip da beleza”) vêm acompanhados de efeitos adversos e riscos à saúde, ressalta o vice-presidente do Einstein Hospital Israelita e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). “Essa ação androgênica pode funcionar como se fosse uma droga, a pessoa fica “viciada” nessa ação. Mas tudo tem um preço. E com certeza não vale a pena correr esse risco com a própria saúde”, diz o médico.

O ginecologista diz já ter atendido diversas pacientes vivendo as consequências de usar gestrinona sem saber que se trata de um anabolizante, já que o hormônio é menos conhecido do que a testosterona, por exemplo.

Esse foi o caso de Karina Porto. Em entrevista ao Estadão em 2024, ela contou que recebeu do médico a indicação de uma “reposição hormonal” diferente dos métodos convencionais (considerados seguros) para evitar possíveis sintomas da menopausa. Sem saber que se tratava de “bomba”, ela teve diversos efeitos colaterais, incluindo hemorragia e falência dos rins. Além da gestrinona, o chip implantado em seu corpo continha testosterona, estradiol e metformina.

Sem regulação e altamente lucrativos

Os implantes de gestrinona não são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, segundo especialistas, são prescritos de maneira indiscriminada por alguns médicos com motivações “altamente comerciais”.

Dentre as formas de apresentação do hormônio estão as cápsulas (via oral); os óvulos e strips vaginais; os cremes ou géis transdérmicos (aplicação na pele) e os implantes, opção que tem ganhado maior espaço. Chamados de pellets ou chips, eles custam em torno de R$ 300 a R$ 400, mas médicos têm cobrado cerca de R$ 5 mil para colocá-los, conta o endocrinologista Clayton Macedo, do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “A margem de lucro é gigantesca”, diz.

Como não existem dispositivos de gestrinona aprovados, quem usa o hormônio recorre a farmácias de manipulação. Isso é possível porque há uma brecha na regulamentação da Anvisa para produtos manipulados, que, em teoria, devem ser produzidos de forma individualizada e contemplar casos excepcionais.

“A farmácia de manipulação virou uma indústria farmacêutica: produz milhões de implantes iguais, prescritos para todo mundo”, diz Podgaec. Ele e Macedo mencionam ainda o fato de boa parte dos médicos receber comissão das farmácias de manipulação, prática proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

“Os médicos utilizam da sua autoridade para prescrever, mas, do ponto de vista científico, eles não deveriam. Há uma prática equivocada, tanto deles quanto das farmácias que manipulam, em aceitar formulações que não têm racionalidade e aprovação”, declarou Dirceu Barbano, ex-presidente da Anvisa, em entrevista ao Estadão em 2024.

Mistura perigosa

Os implantes não são apenas uma via de administração de medicamentos, como muitos profissionais que prescrevem os “chips da beleza” alegam. Por serem absorvíveis, nem sempre é possível retirá-los em caso de complicação. E, por serem manipulados, não há controle preciso da dose nem do padrão de liberação do hormônio — que pode variar significativamente de um dia para o outro, expondo o organismo a flutuações imprevisíveis.

“Com a gestrinona manipulada, o controle (do que está escrito no rótulo) é quase nenhum. E isso também dificulta os estudos porque, como cada paciente usou uma dose diferente, os efeitos são muito variáveis porque são dose-dependentes”, explica Mariana.

Para ampliar a atratividade estética (e o valor agregado), outras substâncias — desde outros hormônios até metformina (remédio usado para diabetes) e vitaminas — passaram a ser manipuladas nos mesmos implantes. Essa mistura torna os pellets ainda mais perigosos para a saúde da mulher.

“Quando se viu, estavam colocando todo tipo de anabolizante nos chips, principalmente com a justificativa de aumentar massa magra e diminuir massa gorda. Mas não há indicação médica para benefício estético”, conta o endocrinologista Alexandre Hohl, diretor de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia Metabologia (Sbem) e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A propaganda da gestrinona é proibida pela Anvisa, que diz não existirem evidências técnicas e científicas que deem suporte ao uso da gestrinona implantável para fins de emagrecimento, ganho de massa muscular, reposição hormonal, tratamento de sintomas de tensão pré-menstrual, regular períodos menstruais e aumento da libido.

O único implante hormonal aprovado pela agência é o Implanon, anticoncepcional reversível com duração de até três anos que libera uma forma sintética da progesterona (etonogestrel). Ele está disponível no SUS e é coberto pelos planos de saúde.

A gestrinona é indicada para endometriose?

Na década de 1990, comprimidos de gestrinona eram usados para o alívio de cólicas em pacientes com endometriose, doença em que o tecido que reveste o útero cresce fora da cavidade uterina, causando fortes dores abdominais.

O hormônio melhorava os sintomas da doença, mas as pacientes reclamavam dos efeitos colaterais androgênicos. Com o surgimento de tratamentos igualmente eficazes e sem esses efeitos adversos, os comprimidos de gestrinona deixaram de ser recomendados e a fabricação foi descontinuada. Os registros na Anvisa das duas marcas de pílulas de gestrinona foram cancelados a pedido dos próprios fabricantes em 2012 e 2014.

Para oferecer um medicamento em uma nova via de administração — nesse caso, transformar uma substância aprovada como comprimido em implante subdérmico —, são necessários novos estudos clínicos, o que nunca foi feito para a gestrinona. Por isso, implantes, géis, cápsulas e outras apresentações só existem na forma manipulada.

“Há alguns anos, inventaram que essa substância poderia ser colocada num implante por farmácias de manipulação e começaram a injetar em mulheres, mesmo sem nenhum estudo no mundo sobre uso da gestrinona em forma de implante”, afirma Podgaec.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e o CFM são contra ao uso de implantes hormonais manipulados. O CFM proibiu a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos em 2023. A Febrasgo reforça que não há comprovação de segurança, eficácia e controle de qualidade desses produtos.

“A mulher brasileira não precisa ser exposta a tratamentos sem comprovação de segurança e eficácia quando existem alternativas aprovadas, estudadas e regulamentadas”, diz Maria Celeste Osório Wender, presidente da entidade de ginecologia.

(Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

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