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A seleção brasileira atual vive o jejum de 24 anos sem a conquista da Copa do Mundo. O Brasil comandado por Carlo Ancelotti possui algumas similaridades com a geração de 1994, assim como a de 2002, principalmente no que se refere à desconfiança de parte da torcida.
Mesmo com percalços, os dois times conquistaram o mundial, fato que pode acontecer no torneio deste ano e que faria com que o Brasil não repita o período entre 1930 e 1958, o maior até então registrado sem levar o maior troféu do futebol no planeta para casa.
O Estadão, que esteve no lançamento do livro “Bastidores de um vestiário (Ed. Revaiah)” e que conta algumas memórias do penta, conversou com ex-jogador Edmílson Moraes, autor da obra e campeão mundial em 2002, para entender como o longo período sem título pode servir como combustível e um ponto de mudança.
O hoje empresário e coordenador do projeto Legends, da CBF, não gosta de fazer comparações entre as gerações de jogadores, e acredita que a atual seleção brasileira vai se fortalecer durante a Copa do Canadá, Estados Unidos e México. “Ancelotti e sua comissão técnica não tiveram muito tempo para trabalhar e estão buscando estar mais integrado e conhecendo mais o ambiente do grupo, da seleção, do Brasil”.
Edmílson avalia que o Brasil não é um dos favoritos a vencer a Copa do Mundo, mas que esse fator pode ser utilizado de forma benéfica para a seleção e que ele torce pela reconquista do torneio.
“Todas as vezes em que chegamos como favoritos no torneio isso não deu certo. Em 2002, tínhamos a derrota para a França em 1998 muito viva e conseguimos reverter a expectativa de que não ganharíamos ou não superaríamos aquele momento de catástrofe. Alguns jogadores que estarão nesta Copa pelo Brasil já jogaram em outras edições e devem aproveitar o momento para se dar ao máximo. É a última vez que alguns terão a oportunidade de disputar um mundial como atletas”.
Um deles é o atacante Neymar, cuja convocação, mesmo sem disputar nenhum jogo sobre o comando do técnico italiano, deve ser fruto de conversas que os dois tiveram e que a decisão de Ancelotti não foi tomada em cima da hora. “Acredito que Neymar esteja consciente de que é sua última Copa e que ele precisa ajudar o restante do grupo com a experiência que possui com a disputa de três mundiais”, reforça Edmílson, que diz também que a responsabilidade, na seleção, deve ser compartilhada entre atletas mais veteranos, como Casemiro e Danilo, com mais de 30 anos, e os mais jovens, como Endrick, de 19 anos.
Liderança no futebol e nos negócios
Quem também esteve no lançamento do livro, que traz ensinamentos de como se desenvolver um bom líder no campo e nos negócios, além de valorizar as pessoas que atuam nos bastidores, foram o ex-meio-campista Paulo Sérgio Silvestre e o preparador físico Moraci Sant’Anna. Ambos fizeram parte do grupo que conquistou a Copa do Mundo de 1994, que 32 anos depois volta a ser disputada nos EUA e com o mesmo cenário de temperaturas acima de 30 graus e umidade alta, o que torna o jogo mais físico e de resistência.
Paulo Sérgio, que é amigo de Edmílson desde os anos 1990, lembra que eles chegaram a se enfrentar pela Liga dos Campeões, na época em que eles defendiam o Bayern de Munique e o Lyon, respectivamente. O ex-jogador diz que possui expectativas altas para o torneio que vai começar. “Vou torcer pela nossa seleção e para que ganhemos o hexa. Sei que vivemos momentos difíceis, de falta de resultados, de um time que vem deixando a desejar. O Brasil chegar ao mundial com muitas críticas, como foi em 1994. Mas mostramos, com muito trabalho, treinamento e dedicação, que podemos mudar e inverter as expectativas”.
Ele acredita que Neymar, hoje com 34 anos, possa ajudar a unir os jogadores em torno do objetivo da conquista, mesmo que esteja ou não jogando. “Em 1994, nosso time sofreu com a lesão do Ricardo Rocha logo na estreia, contra a Rússia. E mesmo assim ele pôde nos ajudar no vestiário, nas conversas do dia a dia, no posicionamento dos atletas”.
Segundo Edmilson, o acúmulo de experiências, incluindo as ruins, é valioso para se encarar momentos de desafios e de pressão. “Quando fui jogar no Zaragoza, em 2010, tive que me habituar à situação de estar em um time que costuma lutar contra a zona de rebaixamento e não títulos, como me acostumei na época em que joguei no São Paulo, Lyon e no Barcelona. Mas se tem uma coisa que aprendi, seja como atleta ou como empresário, é não desistir nunca das coisas que você acha que vão acontecer. Só cheguei aonde estou, sendo campeão do mundo, tendo meus negócios e criando minha família porque trabalhei muito e tive e tenho fé em conseguir alcançar o que quero. Escrever o livro é uma das coisas que tinha vontade de fazer e fui atrás”.
Nova geração em busca do hexa
Quem também vive a expectativa de uma campanha vitoriosa da seleção brasileira é Cíntia Moreira Ramos, mãe do atacante Endrick. Ela, que planeja assistir a alguns jogos do Brasil e diz que vai torcer e orar pelo filho, acredita que os altos e baixos passados recentemente por ele, com tempo de banco em alguns clubes como o Real Madrid e do início no Lyon, pode ajudar a fortalecê-lo no desafio de fazer parte do grupo de 26 jogadores que está nos Estados Unidos. “Para mim, não foi uma surpresa a convocação dele e chegamos a isso juntos, com muitos momentos de choro, alegrias, conversas”.
Cíntia, que sempre mantém contato com o filho pelo telefone, diz que está bem, feliz por estar vivendo este momento e confiante no que podem fazer durante a Copa.



