ANO IV

12/06/2026

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Cleópatra Poisons

12/06/2026
cleópatra

Curitiba já viu de tudo: debates intermináveis sobre pastel de feira, reuniões de condomínio mais longas que sessões parlamentares e motoristas pedindo desculpas por terem recebido a preferência.

Mas nada se comparou à chegada de Roberval Ropertino Riberti, o célebre Doutor 3R — farmacêutico, bioquímico e especialista em serpentes venenosas formado pelo Instituto Butantan.

Instalado na Rua XV, ele inaugurou um empreendimento inusitado: Cleópatra Poisons, cujo slogan era: “A picada certa para quem aprecia surpresas.”

A inauguração virou acontecimento social. Jornalistas, curiosos e políticos lotaram o local. Na vitrine, pequenas caixas de veludo chamavam a atenção das senhoras elegantes, que imaginavam encontrar joias ou chocolates finos. O Doutor 3R esclarecia com naturalidade: — São serpentes, minha senhora.

Cada embalagem trazia modelos especiais, como a “Surpresa Eleitoral Premium”, a “Linha Executiva para Assembleias Condominiais” e até a “Versão Econômica para Cunhados”.

O sucesso foi imediato. Clientes encomendavam cobras para adversários políticos, sócios problemáticos e parentes inconvenientes.

O catálogo científico do doutor incluía espécies curiosas: a Promessus Eleitoralis, que surgia apenas em anos de eleição; a Mudancus de Ladus, especialista em trocar de lado rapidamente; a Boatus Venenatum, propagadora profissional de boatos; e a temida Oratorius Infindável, cuja picada fazia a vítima discursar por horas sem dizer nada.

Foi justamente essa última que atacou um deputado, que apareceu desesperado na clínica: — Doutor, comecei uma entrevista às nove da manhã e ainda estou respondendo à primeira pergunta!

Após soro, café e coxinhas, o paciente sobreviveu.

Outro político perdeu sua serpente durante uma convenção partidária. O Doutor 3R tranquilizou o homem: — Fique calmo. Ela deve ter ido embora por excesso de concorrência.

Com o tempo, a Cleópatra Poisons tornou-se ponto de encontro da classe política. As próprias cobras passaram a se sentir injustiçadas. Duas jararacas comentavam: — Passamos séculos sendo chamadas de traiçoeiras… e agora estamos parecendo criaturas honestas perto de certos clientes.

Daí nasceu a fictícia Associação de Defesa da Imagem dos Ofídios, cujo lema era: “Nem toda serpente merece ser comparada a um político.”

O auge do negócio veio numa campanha eleitoral particularmente agitada.

O estoque esgotou-se rapidamente, restando apenas uma cobra idosa chamada Genoveva.

Um candidato milionário tentou comprá-la por dólares, euros e diamantes. O doutor recusou: — Ela é honesta. Não sobreviveria cinco minutos numa campanha eleitoral.

Ao fim das eleições, um jornalista perguntou ao Doutor 3R qual havia sido a serpente mais perigosa que estudara. Ele respondeu: — Nenhuma. As cobras só atacam quando ameaçadas. Alguns humanos, porém, picam até depois de eleitos.

Assim, a Cleópatra Poisons entrou para o folclore curitibano: um lugar onde as serpentes mantinham a elegância, os soros continuavam eficazes e a política nacional seguia fornecendo material inesgotável para o humor brasileiro.

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