A Decar, oficina de eletrônica embarcada para automóveis, é uma das pioneiras nesta atividade no Brasil. A entrevista é com seu dono, Rodrigo Azevedo, conhecido como Deco, que é o precursor nesta atividade no Brasil. Confira:
Caron: Deco, você foi um dos precursores ao abrir uma oficina em Curitiba para trabalhar com a eletrônica embarcada dos carros modernos. Mas tua história começa ainda antes. Conta para nós como tudo começou, desde que você ainda fazia o curso de eletrônica no CEFET.
Deco: Na verdade, minha trajetória no ramo de manutenção de veículos começou ainda antes de ingressar na escola técnica. A paixão pela profissão, acredito eu, começou na infância. Aos 8 anos de idade já frequentava as oficinas em que meu pai trabalhava e havia preferência em participar no dia-a-dia da oficina a ficar em casa com outras atividades.
Caron: Pelo que eu me lembro das nossas conversas, você começou a trabalhar com os caminhões, que tiveram eletrônica ainda antes dos carros. Foi isso mesmo?
Deco: Sim, foi isso mesmo. No passado, a maior parte dos serviços eram efetuados em caminhões porque na época embarcavam mais componentes eletrônicos do que os automóveis nacionais. Então, entrando no CEFET – PR, iniciei os meus estudos voltados à eletrônica e o trabalho aumentou consideravelmente quando a oficina passou a tornar viável aos proprietários dos veículos o conserto dos dispositivos eletrônicos embarcados.
Caron: Com o passar dos anos, vi tua oficina crescer muito em Curitiba. Inclusive com supercarros como Ferrari vindo de São Paulo para que você arrumasse módulos e outros eletrônicos. Como aconteceu esta fama toda?
Deco: Passado certo tempo, entendi que a formação seria o ponto chave para o desenvolvimento do meu papel como profissional da área. Além de inúmeras capacitações e treinamentos, principalmente na Alemanha, com participação em mostras e feiras do setor, fiz cursos de informática e de idiomas como alemão e inglês. Isso tudo contribuiu para que pudesse resolver problemas “cabeludos” para os clientes. Minha principal divulgação foram as indicações. Ainda hoje ouço de novos clientes a frase: “Quem me indicou você foi…”
Caron: Sei que você trabalha muito e tua oficina vive lotada. Como você faz para formar mão-de-obra para que mais pessoas possam te auxiliar?
Deco: Realmente temos muito trabalho e pouquíssima mão-de-obra qualificada. É um grande desafio a ser encarado devido ao desenvolvimento acelerado da tecnologia nas últimas décadas. Na Decar o colaborador tem a oportunidade de aprofundar seu conhecimento teórico e refiná-lo com a prática diária, e tudo sendo acompanhado por mim de forma intensiva. Além disso somos membros da Associação Mecânicos Premium do Brasil (AMPB) e, sempre que possível, o colaborador é enviado para treinamentos e palestras fora da oficina tanto aqui em Curitiba quanto em outros estados, exemplo disso é a Bosch, em São Paulo.
Caron: No correr da minha vida (e já vivi muitos anos) presenciei a evolução estrondosa dos carros. Como sou apaixonado pelo assunto desde criança e depois, a partir dos meus 18 anos, tendo os meus próprios carros, começando pelo primeiro e inesquecível Corcel Coupé 1971 (com zero de eletrônica) e passando por mais de 50 carros até hoje, vi a simplicidade dos carros puramente mecânicos até a sofisticação dos importados que viraram verdadeiros computadores ambulantes. De freios puramente hidráulicos evoluindo para freios a disco, servo-freio e ABS (só como exemplo), esses carros modernos têm componentes que conversam entre si. Quando dá uma pane, acende o painel inteiro (tipo “pinheirinho de Natal”), deixando seus donos apavorados. Como lidar com tudo isso?
Deco: Na Decar temos equipamentos de ponta e estamos continuamente nos especializando para acompanhar as tendências do mercado. Mas nada disso é relevante sem a transparência na comunicação. O cliente vem à oficina e expõe suas queixas, que são devidamente registradas, e, em seguida, é atendido por mim ou por um colaborador apto a atendê-lo. Nesse momento são colhidas mais informações e detalhes que julgamos importantes para entender o problema. Após o diagnóstico, o cliente recebe a explicação sobre as falhas percebidas e o que causa esse sintoma no painel de instrumentos. Agora, sabendo o que realmente deve ser feito, o cliente possui mais segurança em realizar o serviço. Procuramos ao máximo manter o cliente informado sobre a evolução no serviço do seu veículo, porém há serviços que demandam mais tempo do que desejamos – seja por falta de peça no mercado, seja por acessos com as montadoras – e é aqui que a boa comunicação com o cliente faz toda a diferença.
Caron: Por que os custos desses componentes são tão altos? Pela quantidade em que eles são fabricados, não deveriam ser muito baratos?
Deco: Grande parte dos componentes e dispositivos eletrônicos são de origem estrangeira, mesmo se tratando de carros nacionais. O processo de importação, frete, impostos e demais taxas contribuem para elevar seu custo – aqui falamos de veículos com até 10 anos de fabricação. Conforme a tecnologia avança, novas implementações surgem nos sistemas automotivos fazendo com que os veículos com data de fabricação mais antiga tenham disponíveis no mercado peças e componentes com preço mais atrativo.
Caron: Deco, fique à vontade para complementar o que você quiser nesse bate-papo entre amigos. Admiro muito teu trabalho e posso afirmar que você é um dos melhores profissionais da área de eletrônica embarcada do Brasil. Sou teu admirador.
Deco: Agradeço imensamente pela oportunidade de compartilhar um pouco dessa jornada e gostaria de agradecer aos meus pais pelo fato de sempre me incentivarem ao estudo e ao trabalho. Especialmente por não tolherem minha curiosidade quando, por volta dos 9 anos, mesmo dentro da humildade em que vivíamos, desmontava relógios despertadores para fazer robôs ou queimava algum aparelho da oficina buscando desvendar seus “mistérios eletrônicos”.
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