A maneira pela qual a Segunda Guerra Mundial é retratada nos filmes foi objeto de mudanças significativas no período que corresponde à Guerra Fria (1945-1991). As variáveis mais importantes no exame das mudanças na representação cinematográfica do segundo grande conflito mundial dizem respeito ao embate desencadeado pela confrontação ideológica.
O mundo do segundo pós-guerra assistiu ao surgimento de uma ordem internacional amplamente dominada pelas duas superpotências mundiais, a capitalista (EUA) e a comunista (URSS), perdendo quase toda significação a influência econômica e diplomática dos antigos poderes coloniais europeus. Até o colapso final do mundo comunista no início da década de 1990, o período que se abriu com o final da Segunda Guerra Mundial foi marcado pela permanente confrontação dessas duas superpotências, as quais se tornaram líderes de seus respectivos blocos de países: de um lado uma aliança militar de países capitalistas, a OTAN fundada em 1949, contra outra do bloco socialista, o Pacto de Varsóvia de 1955 simultaneamente à existência de uma união econômica na Europa Ocidental (Mercado Comum Europeu, 1952) e outra na Oriental (COMECON, 1953).
A memória do segundo grande conflito mundial, seus combates, massacres e misérias foi decisivamente moldada tanto pela progressiva instauração da Guerra Fria, quanto pelo seu súbito desaparecimento em 1991. De saída a propaganda de ambos os blocos expressa no cinema fez uso abundante de denúncias sobre a ação de ex-integrantes do governo nazista nos cargos públicos das novas Alemanhas (oriental e ocidental). Acusar seus adversários ideológicos de favorecer o renascimento do nazismo era um argumento particularmente útil para a URSS (que parece ter sido mais radical na “desnazificação” da sua zona de ocupação na Alemanha) na guerra ideológica que travava nas suas representações cinematográficas contra o capitalismo ocidental.
A imagem da URSS, por sua vez, foi abalada pela insistência dos Aliados Ocidentais em lembrar em seus filmes documentários e educacionais tanto o ataque russo à Finlândia, quanto o Pacto Nazi-Soviético de 1939 que o tornou possível. Certamente os russos conseguiram evitar sentar-se no banco dos réus, no Tribunal Internacional de Crimes de Guerra instaurado pelos Aliados apenas para julgar a elite sobrevivente do III Reich na cidade alemã de Nuremberg em 1946. Poderiam ter sido acusados, entre outras coisas, por conta do ataque à Finlândia e o célebre Massacre de Katyn, onde foram executados milhares de militares poloneses, capturados pelos russos quando invadiram a Polônia. Tal invasão ocorreu duas semanas após o ataque alemão em setembro de 1939, e visava garantir à URSS a parte daquele país que lhe cabia nos termos do Pacto Ribentrop-Molotov, assinado em agosto daquele ano. O massacre rendeu um dos mais importantes filmes denúncia realizados na Polônia ao fim do regime comunista.
A lembrança da aliança com Hitler continuou servindo durante muito tempo para associar a imagem do regime soviético ao nazista. Essa associação ganhou corpo maior ainda com a divulgação de relatos de sobreviventes dos campos de trabalhos forçados (Gulags) criados pelo Stalinismo para encarcerar e/ou eliminar seus opositores – supostos ou reais – imediatamente explorada pela propaganda ocidental em filmes ficcionais e documentários. Por seu turno, os russos jamais deixaram de criticar a política de “apaziguamento” seguida pelos Aliados na conjuntura imediatamente anterior à guerra e que, no seu modo de entender, camuflava a intenção de jogar a Alemanha Nazista apenas contra si. Insistiam em diversos filmes de ficção e em documentários sobre a guerra que os propósitos militaristas, expansionistas e monopolistas do nazismo teriam sido bem aceitos pelas elites ocidentais pré-1939, desde que estes fossem funcionais para a destruição da URSS.
Outro campo de intensa luta ideológica e propagandística expressa no cinema entre as superpotências se deu na avaliação da proporção da contribuição de cada um para a derrota da Alemanha. Na tentativa de demonstrar que seu respectivo papel na luta contra o nazismo foi o mais destacado, cada lado tratou de dar relevo à sua própria contribuição na construção da memória do conflito através do audiovisual. Os soviéticos se escoravam nas evidências de que a destruição de 75% das forças armadas alemãs havia ocorrido na frente russa, expressando tais realizações tanto em produções cinematográficas quanto televisivas. Os Aliados ocidentais, por sua vez, divulgavam em formato audiovisual a versão de que o desembarque na Normandia (1944) é que havia decidido a guerra e promovido o início da libertação da Europa. A respeito do “Dia-D” foram realizados alguns dos maiores e mais caros filmes e séries de Hollywood. A sugestão implícita em tais filmes é que os países ocupados pelo Exército Vermelho não haviam sido “libertados”, mas apenas e tão somente tiveram o exercício da sua dominação transferido da Alemanha Nazista (1945) para o Pacto de Varsóvia (1955). Os episódios da Revolta Húngara de 1956, do levantamento do Muro de Berlim em 1961 e da Primavera de Praga em 1968, retratados em filmes documentários e ficcionais em todo ocidente capitalista, ajudavam a confirmar essa interpretação.
Britânicos e norte-americanos lembravam insistentemente em seus filmes sobre a guerra a bem-sucedida campanha antissubmarino e, embora com menos entusiasmo, a guerra aérea. A primeira é recorrentemente apresentada como um triunfo humano e tecnológico sobre os cruéis ataques dos submarinos alemães contra a navegação mercante dos Aliados. Já a última lembrança, embora revestida dos atrativos da divulgação da manifesta superioridade das máquinas e (no final da guerra) dos pilotos aliados, era constrangida pela memória das centenas de milhares de vítimas civis nos bombardeios à Alemanha. Não surpreende o interesse que desperta na Alemanha, ainda hoje, o estudo e a preservação da memória dos ataques aéreos terroristas anglo-americanos sobre aquele país, geralmente glorificados nos filmes mais populares nos demais países da OTAN.
Essa sucessão de acusações perdeu suas fontes de motivação com o colapso do bloco socialista no início dos anos 1990. A partir daí a memória da contribuição dos Aliados Ocidentais à destruição do nazismo expressa através do cinema e da TV pôde crescer quase que indefinidamente, e praticamente sem contestação. Representativo do fenômeno da total indiferença pela participação da URSS no conflito no que se refere à memória construída pelos Aliados ocidentais, principalmente através de seus filmes, foram as pomposas e extensas comemorações do cinquentenário do desembarque na Normandia (1994), reunindo chefes de estado de países membros da OTAN, mas que não incluiu nenhum representante dos russos. Esse gesto de desconsideração deve ter soado ainda mais rude para os ex-combatentes russos sobreviventes (e seus descendentes) das tremendas batalhas relacionadas à destruição das tropas alemãs do grupo de exércitos centro (junho, 1944), tão importantes para aliviar a pressão dos nazistas sobre os recém-desembarcados anglo-americanos. Assim, desde o início do século XXI pode-se afirmar que a memória da contribuição ocidental – em especial dos EUA – à vitória na luta contra o nazifascismo expressa nos seus filmes de guerra ofuscou decididamente as lembranças afetas à participação dos soviéticos.
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