Ruy Castro é um dos mais importantes, senão o mais importante, dos biógrafos brasileiros. Seu mais recente livro “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, contudo, exigia habilidades bem diferentes. O resultado é decepcionante.
Uma primeira dificuldade em se tratando de avaliar o mais recente livro de Ruy Castro é entender exatamente a que se refere, ou seja, qual o seu objeto. O próprio autor em entrevista recente descreve o conteúdo do livro como sendo: “tudo que aconteceu na cidade por causa da guerra”, ou ainda, “quase uma história da vida privada no Rio durante o conflito”, e adicionalmente, “como a Segunda Guerra Mundial impactou a vida no Rio de Janeiro”. Na realidade se constitui numa mistureba de generalidades, curiosidades, sensacionalismo e alegações superadas pelo avanço da pesquisa histórica nos últimos dez anos.
É possível afirmar que o livro pretendia se referir a mútua interação entre a então capital federal no Rio de Janeiro e a Segunda Guerra Mundial, e isso nos dois sentidos: 1) como a guerra afetou a cidade; 2) como a cidade condicionou a participação do Brasil na Guerra. Nenhuma destas coisas está presente no livro. Colocado nesses termos, o livro teria que ser uma espécie de história urbana do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, uma história da geopolítica brasileira possível na Segunda Guerra Mundial a partir da descrição dos limites e das possibilidades colocadas pelos recursos disponíveis – ou não – nesse mesmo Rio de Janeiro. Mas nada disso está presente no livro.
Ambos sentidos se referem a processos que os historiadores descrevem como sendo de longa duração como são Urbanização, Industrialização, Metropolização, História Institucional e condicionantes geopolíticos. O Rio de Janeiro era a capital federal desde a Proclamação da República e, à época da Segunda Guerra Mundial, continuava sendo o mais importante centro político, econômico, militar e diplomático do país.
Para o livro funcionar seria então fundamental analisar como que os recursos e possibilidades da cidade influenciaram nossa participação na Segunda Guerra Mundial, e vice-versa. O autor teria que ter descrito e analisado tanto a história urbana quanto a mudança geopolítica, além da institucionalidade das organizações militares, políticas e diplomáticas naquele contexto urbano. Contudo, o autor não revela inclinação a fazer nenhuma dessas coisas. Afinal, tratar da história urbana do Rio de Janeiro com relação ao contexto da Segunda Guerra Mundial exigiria descrever, por exemplo, como os diferentes espaços da cidade foram utilizados para organizar e viabilizar a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Isso implicaria numa reflexão sobre quais lugares foram mobilizados e como foram empregados para garantir a participação brasileira na Guerra. Em primeiro lugar seria indispensável tecer considerações sobre o complexo da Vila militar no subúrbio do Rio de Janeiro: descrever as organizações que já existiam ali previamente a guerra e quais foram criadas nessa mesma instalação para garantir a participação do Brasil naquele grande conflito.
Seria indispensável falar então dos centros de treinamento que foram criados na Vila militar, em especial aqueles destinados a formar quadros técnicos para a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e qual impacto exerceram sobre a vida urbana de seu entorno. Mas o autor não toca no assunto. Seria importante também mencionar o Campo do Gericinó, que até então era o único local de treinamento disponível para o Exército Brasileiro na cidade. Mas nada é dito sobre o Campo do Gericinó, onde foi treinada a força Expedicionária brasileira. Seria fundamental se fazer um descritivo e uma reflexão das atividades desenvolvidas ali, bem como informar como foi feito o transporte dos efetivos entre o Gericinó e a cidade.
Sempre atento a questões pitorescas, o autor poderia mencionar que o alto comando da FEB não foi para o Campo do Gericinó, mas apenas seus oficiais subalternos. O adido militar americano àquela época notava que os altos oficiais da FEB preferiam ficar no conforto ao Rio de Janeiro, evitando as agruras do distante e pouco confortável campo de treinamento do Gericinó.
Além da Vila militar e do Campo do Gericinó, outro importantíssimo espaço urbano do Rio de Janeiro diretamente ligado ao esforço de guerra foi o Morro do Capistrano. Tratava-se de um local ermo e desabitado no qual foram apressadamente construídas instalações bastante precárias e pouco higiênicas para abrigar os efetivos em treinamento da FEB. No caso, foram locados ali os militares do 11º Regimento de Infantaria (RI), vindos da cidade mineira de São João del-Rei, o famoso “Onze”. Instalações um pouco mais confortáveis foram destinadas a outro regimento convocado para a FEB, o 6º. RI, ainda assim bastante exprimido nos alojamentos cedidos pelo 1º RI, o único dos três regimentos oriundo do Rio de Janeiro, também sediado na Vila militar em Deodoro.
Além de praticamente nada falar sobre os espaços urbanos do Rio de Janeiro que foram mobilizados e grandemente impactados pela mobilização do Brasil para o treinamento da FEB, o autor também nada diz sobre o imenso crescimento e desenvolvimento das várias fábricas dedicadas ao complexo industrial militar brasileiro sediado na capital federal. Por exemplo, o autor nada fala sobre a Fábrica do Realengo que fazia cartuchos para armas portáteis do Exército Brasileiro. Ignora a Fábrica de Bonsucesso que fazia máscaras contra gases. Também não menciona a Fábrica do Andaraí que também fazia munição. Nem tampouco o Arsenal de guerra do Rio de Janeiro, que já desde muito tempo também se empenhava na produção bélica, inclusive de peças para artilharia e morteiros para a infantaria.
Também o autor não se refere a Fábrica de Estrela, a Companhia Nitroquímica e várias outras empresas que abasteciam o Exército Brasileiro, então em franco crescimento. O leitor também jamais saberá que existiu uma fábrica de aviões na Ilha do Governador, dedicada a montar aeronaves de origem alemã.
Não é descrito o imenso impacto que teve a questão do recrutamento da mão-de-obra para trabalhar nessas fábricas, sua qualificação e a indução da urbanização em torno de todas elas. A guerra apressou a incorporação de imigrantes nordestinos, populações negras e rurais à sociedade de classes brasileira, nacionalizando a mão de obra fabril. Mas nenhuma dessas tendências de mais longa duração aparece no livro. Também mal se percebe o efeito do recrutamento militar sobre a estrutura demográfica local, sendo difícil até se perceber que nada menos que a quarta parte da FEB veio da cidade e do Estado do Rio de Janeiro.
Além de não mencionar os espaços urbanos dedicados à mobilização e treinamento da FEB e das fábricas de material bélico então em franco crescimento no Rio de Janeiro, o autor também não se refere a lugares que se remetem a tendências de mais longo prazo e que antecedem bastante a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Por exemplo, a que diz respeito à defesa costeira, um elemento de grande importância para a cidade que inclusive levou a sua própria criação em meados do século XVI.
O Rio de Janeiro é famoso por dispor de diferentes fortalezas que guarnecem os acessos à Baía de Guanabara e que foram intensamente ampliadas, modernizadas e guarnecidas por ocasião da Segunda Guerra Mundial. O autor nada fala das transformações dessas importantes infraestruturas defensivas situadas dentro do próprio quadro urbano do Rio de Janeiro. Nada nos é dito sobre o histórico Forte de Copacabana, onde serviam os filhinhos de papai da zona sul que eram engajados no exército por conta do serviço militar obrigatório. Nada é dito sobre a Fortaleza de Santa Cruz que foi modernizada com aparelhagem de deteção antiaérea e que também provia a defesa contra embarcações hostis que tentassem adentrar a Baía de Guanabara.
O autor até tece algumas considerações relativas aos hábitos mundanos com relação à Barra da Tijuca, mas não menciona que ali foi instalado um campo de treinamento para a prática de tiro real com artilharia antiaérea adquirida na Alemanha, os famosos canhões de 88mm. Enfim, nada é dito sobre a maneira pela qual o espaço urbano foi mobilizado, readequado e reformatado para atender às grandes e prementes demandas da Segunda Guerra Mundial. Onde então está a prometida História da Segunda Guerra Mundial no Rio?
O autor é incapaz de explicar como a guerra impactou a cidade, exceto pelos exemplos mais comuns e genéricos como são, por exemplo, as questões do blecaute, do racionamento, da mobilização para obtenção de sucata e outras campanhas focadas para a sustentação do esforço de guerra e da mobilização da população civil. Mas tais atividades ocorreram no Brasil todo. Não se nota no livro qual teria sido a especificidade da mobilização urbana no caso do Rio de Janeiro.
Incapaz de dar conta das tendências de mais médio e longo prazo que permeiam o contexto, o autor sistematicamente resvala para aquilo que sabe fazer melhor que são biografias. O livro está cheio de micro biografias de personalidades relevantes e irrelevantes, importantes e desimportantes, conectadas ou alheias ao tema mais amplo do livro. Este é certamente o ponto forte do autor. Contudo, a soma de muitas biografias jamais poderá substituir considerações sobre as vitais e decisivas tendências de médio e longo prazo.
Esse último aspecto é importante porque diz respeito ao próprio processo formativo do autor. Ele é jornalista, formado para noticiar fatos e eventos singulares. O conhecimento que tem do contexto do Rio de Janeiro deriva da grande leitura de jornais que fazia desde criança. Ou seja, um caso de desaparelhamento intelectual para perceber e descrever transformações históricas mais amplas.
Outro aspecto muito fraco do livro diz respeito à sua absurda desatualização bibliográfica. O autor cita trabalhos bastante antigos e já muito defasados, ao mesmo tempo que insiste na originalidade de suas “descobertas”. Ele cita diversos autores já há muito superados, ao mesmo tempo que ignora os avanços e descobertas da historiografia recente. Aqui realmente se mostra a pior fragilidade do autor, que é a incapacidade de se manter atualizado na produção científica e acadêmica do tema.
As universidades do Brasil e do estrangeiro produziram bastante literatura sobre o Brasil na Segunda Guerra Mundial em tempos recentes e o desconhecimento do autor dessa historiografia é crítico. Os exemplos abundam. Ele, por exemplo, ignora totalmente o importantíssimo papel desempenhado pela Divisão de Cinema do Office of the Coordinator of Inter American Affairs (OCIAA), a principal agência da Política da Boa Vizinhança então praticada pelos EUA na América Latina. Para ele a disseminação da ideologia oficial foi feita de forma impressa, textual, formal, não levando em consideração a audiência de centenas de milhares de brasileiros – inclusive e principalmente no Rio de Janeiro – impactadas pela exibição pública e gratuita de filmes de propaganda americana.
No todo, o conhecimento do autor sobre a Política da Boa Vizinhança, bem como sobre a espionagem alemã, a aliança militar Brasil-EUA, a história militar, as transformações urbanas e sociais é superficial, datado e ultrapassado. É lamentável, mas seguimos sem dispor de uma boa História do Rio de Janeiro à época da Segunda Guerra Mundial.
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