A presença do Presidente da República em Moscou no recente desfile comemorativo dos 80 anos da Vitória russa na Segunda Guerra Mundial provocou diversas polêmicas históricas. Cabe examinar aqui duas das mais importantes: a responsabilidade daquele país no apoio ao regime nazista e o grau de importância da participação da antiga União das Repúblicas Socialistas (URSS) na derrota das potências do Eixo.
Em diversas manifestações sobre o desfile militar em comemoração dos 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial apareceu a acusação de que a antiga URSS teria colaborado com o regime nazista, ao firmar com este em 1939 um pacto de não-agressão e dividir entre si diversos países do leste europeu em suas zonas de ocupação. A afirmação é verdadeira, mas está sendo usada de forma descontextualizada.
Tal iniciativa foi tomada pela liderança soviética somente depois de anos de colaboração com o nazismo por parte das principais potências ocidentais, França e Grã-Bretanha, na forma da Política do Apaziguamento. Sob tal política as duas maiores potências militares vencedoras da Primeira Guerra Mundial e que impuseram à derrotada Alemanha o Tratado de Versalhes permitiram ao regime nazista ignorar todas as restrições previstas no documento. O objetivo era não confrontar – na prática, apoiar – os nazistas.
Em 1935 a Alemanha reintroduziu o serviço militar obrigatório, criou uma força aérea e começou a construir flotilhas de submarinos e divisões de tanques; em 1936 remilitarizou e fortificou a região de fronteira com a França; todas estas iniciativas eram proibidas pelo Tratado de Versalhes e não contaram com mais do que uma oposição puramente formal da França e da Grã-Bretanha. As propostas soviéticas de criação de uma frente antifascista e de manutenção da paz foram ignoradas pelos britânicos e franceses.
Em 1937 o governo de Adolf Hitler interveio na Guerra Civil Espanhola ajudando a vitória dos militares golpistas de extrema-direita sob a liderança do General Francisco Franco. Os britânicos e estadunidenses apoiaram veladamente o General Franco. A ajuda que a França pretendeu dar à República espanhola contra os golpistas logo foi encerrada. Em 1938 ocorreu a maior das colaborações que as lideranças franco-britânicas poderiam ter feito para Hitler, na forma do Acordo de Munique.
Sob este acordo foram entregues aos alemães extensas áreas da fronteira da Tchecoslováquia, incluindo as províncias tcheco-eslovacas dos Sudetos. Tal acordo foi firmado apenas pelas lideranças da França, Grã-Bretanha, Alemanha e Itália. Nem os tcheco-eslovacos nem os soviéticos com quem aquele país também mantinha um tratado de defesa mútua, foram convidados para a conferência de Munique.
A Tchecoslováquia até então era uma potência militar de peso médio. Além de extensas e atualizadas fortificações na fronteira da Alemanha, o país produzia e exportava tanques de guerra e metralhadoras. Teria sido perfeitamente possível àquele país em 1938 resistir à uma invasão alemã, desde que pudesse contar com o auxílio da França, Grã-Bretanha e, também, da URSS.
Os apelos dos tcheco-eslovacos em prol da efetivação da aliança militar vigente com os franceses para resistir a uma invasão nazista foram desconsiderados. Desta forma, tendo entregado uma larga faixa de fronteira na qual havia construído extensas fortificações, e abandonada pelas potências ocidentais, a Tchecoslováquia ficou indefesa, sendo finalmente invadida e ocupada inteiramente pela Alemanha nazista em 15 de março de 1939. As “garantias” franco-britânicas da independência tcheco-eslovaca não tiveram nenhum efeito.
O que se constata é uma permanente opção de franceses e britânicos desde 1935, no sentido colaborar com o projeto expansionista alemão, ao invés de bloqueá-lo antes que provocasse uma nova guerra mundial. A partir daí a Conferência de Munique passou à história como sinônimo de traição, a “Traição de Munique”: traição ao povo da Tchecoslováquia que confiou seu destino aos franco-britânicos; traição aos soviéticos que até então ainda acreditavam poder contar com as potências ocidentais para deter Hitler.
A partir daí ficou claro que a próxima vítima do imperialismo nazista seria a Polônia. Uma vez mais franceses, britânicos e, desta vez até os poloneses, recusaram a oferta soviética de formar uma aliança antifascista e oferecer garantias militares à defesa da Polônia. Embora a Política do Apaziguamento fosse uma iniciativa política fracassada e desmoralizada ela seguia sendo executada mesmo em 1939.
Foi nestas circunstâncias que a liderança soviética finalmente decidiu chegar a um acordo com seu arqui-inimigo ideológico, o regime nazista. Cerca de cinco meses depois da anexação da Tchecoslováquia pelos nazistas foi firmado o Pacto de não-agressão nazi-soviético, ou o pacto Ribbentrop-Molotov que é como veio a ser conhecido. Sob tal documento alemães e russos se comprometiam a não iniciar hostilidades um contra o outro.
Um protocolo adicional secreto deste mesmo documento dividiu a Europa Oriental entre áreas de influência das duas potências que, afinal, se converteriam em zonas de ocupação: a Polônia seria dividida entre nazistas e soviéticos; a Lituânia, Letônia, Estônia, Finlândia e Romênia ficariam na zona de ocupação russa.
O exame da historiografia disponível não sustenta a hipótese de que os soviéticos teriam antes disso apoiado o nazismo. Quem de fato apoiou e promoveu durante anos a expansão nazista foram as potências ocidentais. O pacto Ribbentrop-Molotov de 1939 foi uma tardia reação soviética à Política de Apaziguamento para com Hitler, a qual era mantida por franco-britânicos desde 1935, bem como a sistemática recusa destes em formarem uma frente antifascista com os russos.
No que se refere ao grau de importância da participação da antiga URSS na derrota das potências do Eixo cabe destacar seu caráter decisivo. Das 783 divisões de diversos tipos (infantaria, blindada, paraquedista etc.) que a Alemanha e os países que com ela se aliaram foram capazes de mobilizar, nada menos de 607 (77,5%) foram destruídas pelos soviéticos. Os demais países participantes da coalizão que venceu a guerra (os Aliados ocidentais) foram responsáveis pela destruição das outras 176 divisões (22,5%).
Esses fatos contrastam com a percepção que a maioria das pessoas tem daquele conflito. Por exemplo, para muitos membros da audiência dos filmes rodados em Hollywood desde o fim da Segunda Guerra Mundial, foram os Estados Unidos da América que mais contribuíram para a derrota do nazismo. Nestes filmes é comum a representação de que o desembarque anglo-americano na Normandia teria decidido a guerra e promovido o início da libertação da Europa do nazismo. No limite, teriam sido os norte-americanos a matar o próprio Adolf Hitler. No século XXI pode-se afirmar que a memória da contribuição ocidental – em especial dos EUA – à vitória na luta contra o nazi-fascismo ofuscou as lembranças afetas à decisiva participação dos soviéticos.
No que diz respeito à produção de armas, veículos e munições não pode haver dúvida sobre a importância central dos EUA. Sendo a maior potência industrial do planeta, somente os Estados Unidos poderiam ter alcançado a capacidade de fabricar um navio por dia e um avião a cada cinco minutos, como de fato o fizeram durante quase toda a guerra, abastecendo suas forças e as dos países aliados.
A URSS recebeu alimentos, matérias-primas, combustíveis, munições, fábricas inteiras, tanques, armas, barcos e aviões dos Aliados. As estimativas sobre a participação desses fornecimentos na composição do total dos efetivos soviéticos variam entre 10 e 15%. De fato, o maior beneficiário da ajuda militar estadunidense foram os britânicos que ficaram com 60% dos fornecimentos, em contraste com os 25% destinados aos russos.
Embora o volume de produção industrial dos EUA fosse superior ao de qualquer outra nação, os demais países aliados também deram contribuições expressivas. No crítico ano de 1942, os Aliados produziram 101.519 aviões, dos quais 47.836 norte-americanos (47,12%), 25.436 soviéticos (25,05%), 23.672 (23,31%) britânicos e 4.575 (4,5%) fornecidos pelos países da Comunidade Britânica. A Alemanha nazista, em contrapartida, produziu apenas 15.409 aeronaves naquele ano. Via de regra, dali por diante, em se tratando das principais armas empregadas naquele conflito (tanques, canhões autopropulsados, artilharia etc.), a produção alemã seria equivalente apenas à metade do que produziam os soviéticos.
Também era na frente russa que a Alemanha nazista mantinha a grande maioria dos seus efetivos todo o tempo. Em 1943, havia pouco mais de 4 milhões de militares alemães e 283 mil soldados de países aliados da Alemanha combatendo 5,5 milhões de soviéticos. Na mesma época, havia outros 3 milhões de soldados alemães em tropas de ocupação na Europa, onde havia diferentes graus de resistência armada ao domínio nazista. A outra frente de combate aberta contra a Alemanha nazista foi a invasão anglo-americana da Itália. A península italiana apresentava características geográficas e climáticas que muito dificultavam o avanço aliado. Ali, os alemães foram capazes de oferecer uma resistência extremamente eficaz ao avanço inimigo, destinando à defesa da região àquela época apenas 412 mil soldados.
A tão aguardada abertura de uma autêntica segunda frente de luta contra o nazismo foi o desembarque aliado na Normandia, em 6 de junho de 1944. Mas, mesmo com os Aliados tendo desembarcado forças consideráveis na França ocupada pelos nazistas, o front principal de luta continuava a ser o russo. Na França, os Aliados enfrentavam cerca de 58 divisões alemãs de diversos tipos, enquanto os russos se confrontavam com 179 divisões alemãs e outras 49 de países aliados dela.
A derrota da Alemanha nazista foi resultado dos esforços de milhões de pessoas em diferentes países. No final da guerra, a Alemanha se confrontava com uma guerra em três frentes (russa, ocidental e italiana), havia sido abandonada por todos os países que com ela se aliaram, vivia sob ataques aéreos pesados e constantes contra os quais era incapaz de oferecer defesa eficaz e se obrigava a destinar recursos cada vez maiores a sufocar a resistência à ocupação por toda Europa. Contudo, entre os países que tomaram parte da coalizão que destruiu o nazismo, deve-se destacar a decisiva contribuição soviética. Em sua maior parte, a vitória foi mesmo resultado direto da ação dos civis e militares da antiga URSS.
Não faltam motivos para criticar a presença do Presidente da República em Moscou no recente desfile comemorativo dos 80 anos da Vitória russa na Segunda Guerra Mundial. Mas tais críticas não podem ser baseadas em falsificações históricas como são a responsabilidade russa no apoio ao regime nazista ou na desconsideração ou minimização da importância da participação da antiga União das Repúblicas Socialistas (URSS) na derrota das potências do Eixo.
Dennison de Oliveira é Professor Sênior do Mestrado Profissional em Ensino de História da UFPR e autor de “Para Entender a Segunda Guerra Mundial” (Juruá, 2020) disponível em https://www.jurua.com.br/shop_item.asp?id=28341
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