Há dez anos era lançado o projeto da História Hipertextual, um formato que disponibiliza a íntegra de todas as fontes históricas citadas de forma pública e gratuita. Cabe fazer um balanço da iniciativa.
A disciplina da História praticada de forma científica é inteiramente dependente da existência de fontes históricas, daí o conhecido ditado segundo o qual “sem documentos não há História”. Trata-se de uma imposição desafiante.
Os pesquisadores são recorrentemente constrangidos pelo caráter parcial, incompleto ou politicamente comprometido das fontes que conseguem encontrar. Sempre haverá eventos, instituições ou personagens históricos sobre os quais pouco ou nada se sabe, tanto face as lacunas das fontes quanto devido aos comprometimentos institucionais que condicionaram a produção dos documentos efetivamente disponíveis. Esses condicionantes pesam sobre o trabalho de pesquisa do historiador profissional que tem que se limitar a descrever e problematizar apenas o que encontrar nos registros históricos e o que possa extrapolar a partir da análise de outras fontes com as quais confronte seus achados.
Tais limitações de pesquisa se manifestam também no momento de expor seus resultados, sendo intrínsecas ao estilo redacional adotado pelos historiadores profissionais. A escrita da História dos acadêmicos é fundamentalmente reflexiva, na medida em que a todo tempo interrompe a narrativa para questionar a si mesma. O texto do historiador profissional é, geralmente, vocacionado para chamar a atenção do leitor para o caráter problemático, incompleto, lacunar e politicamente comprometido de suas fontes. Outra dificuldade é que o texto de História é sempre apenas transitoriamente verdadeiro, sendo permanentemente sujeito a ser superado pela descoberta de novas fontes.
Por isso é geralmente difícil a leitura do texto de História, em especial para o público de não-iniciados no estilo acadêmico. Mas, ao mesmo tempo, essa é justamente a maior virtude desse estilo de escrita. Na medida em que comenta a si mesmo, o texto acadêmico oferece ao leitor várias oportunidades: participar das etapas de investigação e reflexão entendendo os limites e possibilidades da pesquisa; perceber quais são os consensos ou controvérsias existentes sobre diferentes temas históricos; tomar conhecimento de quais questões ainda carecem de pesquisas adicionais ou fontes diferentes para serem elucidadas, e assim sucessivamente.
Visto sob esse ângulo, o texto acadêmico apresenta vantagens que não podem ser encontradas em nenhum outro estilo redacional. Contudo tais virtudes seguem, ainda hoje em dia, sendo subaproveitadas ou subutilizadas. É recorrente a dificuldade, mesmo para historiadores profissionais de longo tempo de serviço, em perceber na sua inteireza de que forma determinado autor tratou suas fontes, a razão pela qual trechos destas foram incluídos ou desconsiderados, a maneira como compara as suas descobertas com as dos autores que o precederam no tratamento do tema, dentre outros desafios.
O que está em questão é a prática da reprodutibilidade científica na área de História: de que forma os leitores dos textos históricos podem reproduzir o conjunto dos procedimentos que possibilitam ao historiador chegar às conclusões que chegou? Como oferecer ao leitor a capacidade de refazer os caminhos metodológicos que permitiram produzir conhecimento histórico de caráter realmente científico?
O problema central passa a ser então disponibilizar aos leitores a íntegra de todas as fontes históricas citadas de forma pública e gratuita. Vivemos uma conjuntura histórica em que as disponibilidades tecnológicas permitem ampliar de forma substancial a capacidade do texto acadêmico de História comentar e refletir sobre si mesmo. Os historiadores têm plena condição de produzir textos que sejam mais reflexivos, mais problematizadores, mais reveladores aos seus leitores da forma pela qual escolheram, criticaram e interpretaram suas fontes: o recurso proposto há dez anos foi no sentido da adoção da História Hipertextual.
O esforço de converter um texto acadêmico de História em Hipertexto, isto é, o texto que remete a outros textos, é bastante simples e não oferece qualquer dificuldade técnica. Tudo que é requerido é que as fontes documentais citadas no texto sejam abertas ao público através da digitalização e disponibilização na internet. As razões pelas quais isso raramente ou nunca acontecem não são de ordem técnica, mas política.
Para conseguir publicar os pesquisadores se obrigam a realizar trabalhos que sejam originais, sendo o plágio e o autoplágio estritamente proibidos. A questão é que a necessidade de se produzir trabalhos originais implica, tanto quanto possível, em garantir a si mesmo, em detrimento dos demais, o acesso às fontes históricas. Desta forma, pode-se explorar acervos reproduzidos sem recear que as fontes em seu poder venham a ser usadas também pelos demais pesquisadores nas publicações deles, o que anularia a pretendida originalidade.
Além dessas razões, impostas por um contexto institucional em que a apenas a competição e a rivalidade são estimuladas, pesam também razões de ordem pessoal. Todos os pesquisadores sabem o quanto de tempo, dinheiro e energia humana foram empenhados em obter cópias das fontes históricas. No pior cenário se obrigam a terceirizar essa atividade, pagando o correspondente custo em dinheiro e, necessariamente, limitando enormemente a quantidade de cópias de documentos que gostariam de fazer. Não faz sentido, pois, compartilhar com os demais algo que tanto custou obter, ainda mais em se tratando de concorrentes.
Uma outra razão para que os historiadores se neguem a compartilhar as cópias de fontes em seu poder é justamente da tentativa de evitar – ao invés de promover – o debate sobre o real significado dos documentos que examinaram. Ao impor aos demais o ônus de duplicar os esforços já realizados na consulta e reprodução das fontes os historiadores colocam, na prática, um obstáculo à discussão e ao debate científico, ao invés de contribuir para promovê-lo.
As implicações, no que se refere ao avanço do processo do conhecimento histórico, são graves, já que o referido obstáculo é geralmente intransponível. Afinal, poucos dispõem de financiamento para realizar pesquisas. Por outro lado, a recompensa por esse esforço, obstrucionista e profundamente anticientífico, é alta: implica não apenas em ficar imune a eventuais críticas, mas eventualmente se converter em autêntico “dono” daquele saber histórico que deveria ser de conhecimento público. O poder que é exercido por esses “donos” do saber histórico não é pequeno. Uma das suas piores manifestações é a exigência de coautoria, no caso, fraudulenta, nas publicações de autores para os quais meramente forneceu cópias das fontes históricas em seu poder.
Para superar essa situação propus há dez anos que fosse considerado indispensável, a cada vez que fosse citado qualquer documento ou fonte histórica, se disponibilizar aos leitores o acesso – instantâneo e gratuito – a essa mesma fonte. Também apontei para a vantagem adicional deste procedimento no sentido de aumentar as chances de não se deixar eventuais erros na interpretação das fontes sem contestação, que é sempre o pior dos erros. Porém, tal proposta segue, uma década depois, largamente ignorada pelo conjunto dos historiadores.
O que se constata é que o fracasso da disseminação do formato Hipertextual entre os historiadores, decorrido uma década da sua proposição, é praticamente total. Pior ainda, indivíduos inescrupulosos e aéticos têm lançado mão das fontes divulgadas em formato Hipertextual como se fosse resultado de pesquisa própria. Tal atitude fraudulenta não caracteriza apenas apropriação indevida do conhecimento produzido por outrem, mas autêntico obstáculo à divulgação da causa da História Hipertextual, já que o roubo da propriedade intelectual implica na ocultação da real origem daquelas fontes. Nesse caso se configura uma situação paradoxal e absolutamente não prevista originalmente pelo projeto da História Hipertextual, que é a de roubo e apropriação pessoal de resultados de pesquisa que deveriam ser compartilhados entre todos.
Tudo isso torna duvidosa a validade da manutenção do projeto da História Hipertextual. Nesse caso, a disciplina da História, tal qual é praticada em nosso país, seguirá sem dispor de qualquer alternativa para viabilizar o principal instrumento de validação científica dos seus resultados de pesquisa, que é a reprodutibilidade. Continuaremos sem oferecer a possibilidade de reproduzir o conjunto dos procedimentos que possibilitam ao historiador chegar às suas conclusões e possibilitar a todos refazer os caminhos metodológicos que permitiram produzir conhecimento histórico de caráter efetivamente científico. Desta forma a relevância social e política da Disciplina da História seguirá sendo como sempre foi: ínfima ou inexistente.
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Dennison de Oliveira é Professor Sênior no Mestrado Profissional em Ensino de História da UFPR e mantém desde 24/11/2015 a página “História Hipertextual” disponível em https://www.facebook.com/historiahipertextual/



