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23/07/2026

HojePR

Suicídio e filosofia

25/12/2025
saúde

Armando é um paciente meu de 90 anos, exemplo de alegria de viver. Nascido na Espanha, veio ao Brasil ainda criança. É meu paciente há 20 anos e dentre as diversa comorbidades que o acometem, a mais limitante é uma doença pulmonar crônica, seqüela dos anos de fumante, necessitando hoje de oxigênio contínuo . Viúvo há 10 anos, desde então não fuma mais.

O que mais me chama atenção nele são seus hábitos sociais regulares, independente de suas dificuldades.

Encontra com amigos diariamente em um bar próximo de sua casa, onde jogam conversa fora.

Uma vez por semana, freqüenta um baile da terceira idade, onde após reforçar o oxigênio, consegue dançar umas duas musicas. Diz ter duas “garotas” de 70 anos muito interessadas nele, mas não quer compromisso sério, brinca.

Reúne filhos e netos no almoço aos domingos em sua casa. Vez por outra ele mesmo faz uma ‘paella’ para manter a tradiçao

Luta com unhas e dentes pela vida. Vem regularmente às consultas e declara “- Doutor, essa vida é boa demais para eu abandoná-la. Quando eu morrer vou sentir saudades de mim mesmo”, completa.

Vocês devem estar se perguntando do porquê deste relato, é que me lembrei da notícia da morte do chef Anthony Bourdain, 61 anos, por suicídio, em um quarto de hotel, ha 7 anos atrás

Apresentador famoso, conhecido mundialmente, apresentava um programa muito bom sobre gastronomia pelo mundo. Boa pinta, levava um vida de dar inveja a muitos. Demonstrava bom humor e alegria. Viciado em heroína, vinha em crise no seu relacionamento amoroso.

Sem entrar no viés da droga, pois compromete em muito as funções cerebrais, gostaria de ater -me na questão filosófica do sentido e valor da vida , e como pode alguém atentar contra ela?

Olho Armando e fico imaginando toda sua dificuldade diária em viver, em função do desgaste de seus 90 anos, somados à todas as comorbidades que enfrenta e que o limitam. Limitam? Tentam, mas não conseguem, ele simplesmente não as aceita e as vence todos os dias com determinação e vontade .

Já vi muitas tragédias nesta vida. Pessoas receberem implacavelmente diagnósticos de cânceres malignos; acidentes trágicos dos mais diversos, perdas de filhos ainda em tenra idade , e, mesmo assim, essas pessoas, apesar de toda dor, mantiveram-se vivas, na esperança de dias melhores.

Mas comparemos apenas Armando e o chef Bourdain. O primeiro, apesar de todas as dificuldades , continua cultuando a alegria em viver . O segundo tinha uma situação tão confortável, com 30 anos a menos que o primeiro e com tantas benesses, mesmo assim um dia declarou ” não conheço ninguém com mais vontade de morrer do que eu mesmo”.

Buscando em nossos filósofos e pensadores antigos ,podemos beber da fonte de Arthur Schopenhauer, que tinha como uma de suas características principais, uma manifestação exemplar de pessimismo filosófico. Tinha como uma de suas máximas a idéia de que o sofrimento é positivo, pois se faz sentir. O que chamamos de felicidade é negativo, no sentido de que não a percebemos. Ainda na sua concepção, viver é sofrer. Duas pérolas chancelam suas idéias: “Uma vida feliz é impossível. O máximo que se pode ter é uma vida heroica”. A outra,” hoje está ruim e cada dia vai piorar até o pior acontecer”.

Mesmo diante de todo o seu realismo pessimista, não cometeu suicídio e morreu aos 72 anos.

Para onde caminhamos? Que vazio existencial é esse que não permite que algumas pessoas acreditem no amanhã?

No mundo todo se observa um aumento no número de suicídios , impressionantemente nos jovens. No Brasil criou-se o setembro amarelo para buscar a conscientizaçao do valor da vida. Algo alarmante que merece atitudes imediatas através da educação escolar com campanhas sequenciais.

Infelizmente , com o progresso e toda a tecnologia que o acompanhou ,houve um grande distanciamento do contato familiar contínuo. Não se fazem mais as refeições juntos. Cada um com uma TV no quarto, ou ligados em seus celulares, durante os encontros.

É certo que vida atual,muito corrida,nos rouba grande parte de nosso tempo. Ainda assim, se valorizassemos o pouco tempo que temos e privilegiassemos nossos filhos com bons diálogos e exemplos, talvez começassemos uma mudança importante em seus conceitos, preenchendo um pouco mais o vazio que possa estar lhes afligindo.

Para contrapor Schopenhauer, Nietzsche e outros filósofos pessimistas, temos Tales de Mileto, Aristóteles e Epicuro, sendo este ultimo fundador da escola da felicidade, que postulavam conceitos sobre o equilíbrio e a temperança que dão origem à felicidade.

Feliz ou triste, otimista ou pessimista, doente ou saudável, jovem ou idoso. Não importa, a vida é uma experiência maravilhosa que deve ser vivida em sua plenitude. Todos os momentos contam. Todos fazem parte de nossa história. A vida é um livro sendo escrito por nós todos os dias, e que seu último capítulo seja por obra do universo, e não por um desejo nosso de abreviar seu final.

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