Minha fixação na Suécia vem de longe, 1958 para ser exato. A Copa do Mundo foi realizada lá e acompanhada pelos brasileiros pelo rádio, jornais e revistas. A seleção venceu os suecos na final, mas a educação e o respeito demonstrados por eles foram exemplares. Secaram o campo para que a bola rolasse, aplaudiram a goleada que tomaram e o Rei Gustavo Adolfo cumprimentou uma a um os nossos craques. Achei aquela gente um primor.
Depois vieram os filmes de Ingmar Bergman. Desde o primeiro que assisti, O Silêncio, fiquei fã do diretor. Ao longo da vida, assisti todos os seus longas, mais de 50, além de alguns filmes dirigidos por outros diretores com roteiro dele. Tânia Buchmann estudou a obra do cineasta e publicou o livro Os Olhos de Bergman, resultado de seu trabalho de pós-graduação na Embap. Servi de assistente da autora.
Nelson Rodrigues de vez em quando usava uma figura de retórica interessante: “Se um sueco pousasse hoje no Brasil…” e assim mostrava sua perplexidade com alguma situação esdrúxula em que somos imbatíveis. Melhor ainda, tinha entre suas referências o jornalista Hans Henningsen, por ele apelidado de Marinheiro Sueco, embora fosse nascido nas Canárias, filho de pai alemão e mãe espanhola. Como contou Ruy Castro, para Nelson, com tal nome e quase dois metros de altura, “só podia ser um marinheiro sueco, foragido de uma peça de Strindberg”.
Em 1980 fui à Suécia para apresentar à matriz da Volvo a campanha de lançamento dos caminhões da companhia no Brasil. Foi difícil verter para o inglês o título de um anúncio que falava em “esses brasis”. Mas eles entenderam e fui saudado com o “skoll”, equivalente ao brasileiro “saúde” a cada cálice de acquavita, a cachaça local.
É um povo em tudo distinto do brasileiro. Eis um exemplo: na época fiquei amigo de um sueco chamado Lars Ennerfelt, então gerente de comunicação da Volvo brasileira. Depois de ir embora para a Suécia, Lars voltou a viver no Brasil, mas então já se chamava Jean Pierre. Pode isso, Cláudia Vallin? Cláudia é jornalista, brasileira, casada com o sueco Ulf e autora de um livro referencial sobre a Suécia: Um país sem excelências e mordomias, em que esmiuça o rigor dos suecos pela austeridade.
Destilados alcoólicos têm as vendas restringidas, encontrados apenas em lojas licenciadas, as “liquors”, e custam um fígado. O que não impede a população de encher a cara, mas sem dirigir automóveis: a tolerância é zero, dá cadeia. Visitantes são instados a comprar bebidas em freeshops para presentear os amigos e economizar seus dólares.
Tem também a rainha Sílvia, filha de brasileira, que fala português e já veio nos visitar muitas vezes. Além disso, seu sobrenome é Sommerlath, enquanto o avô materno dos meus filhos era Somerlate. Por pouco não consigo um passaporte real, como se vê.
Para encerrar, minha amiga Isabela França é a Cônsul da Suécia no Paraná, pistolão de que nem precisei lançar mão. Hoje conquistei minha cidadania sueca. Acordei me sentindo um Thor, um Andersson. Escolhi ser Erland Buchsson a partir de agora.
O problema é que logo ao abrir os olhos me dei conta: é 1º de abril.
Excelente. Da Suécia só conheci Malmö, ainda assim, só por dois dias, mas gostaria de voltar lá. Mesmo sem uma sonhada cidadania.