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16/07/2024

frente fria sergio viralobos

Manoel José de Souza Neto

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Conheci o produtor cultural Manoel de Souza Neto quando lançou, em 2004, o livro ”A (des) construção da música da cultura paranaense”, um catatau de mais de 700 páginas, feito num período de 15 anos, em que ele percorreu os eventos musicais de Curitiba, reunindo material de grupos, bandas, duplas, pesquisadores e músicos que encontrava pela frente. A peregrinação rendeu o maior acervo sobre a música paranaense já reunido, composto tanto por discos, fanzines, publicações como por histórias peculiares do cenário musical da cidade e do Estado. O mais interessante é que Manoel estendeu sua pesquisa até os dias atuais, inclusive falando do movimento punk, a que pertenci. Pela primeira vez, que eu soubesse, um livro “sério” contava a história do Beijo AA Força e outras bandas da época.

No livro, a pesquisa do produtor serviu de base para organizar 80 artigos de 39 autores que traçam um panorama da música popular e erudita do Paraná. É a primeira obra lançada no sentido de desvendar os aspectos dessa área da cultura paranaense. Foi dividida em cinco longos capítulos: ”Histórias e Memórias”; ”Diversidade Musical”; ”Preservação e Memória”; ”Educação Musical” e ”Questões Políticas, Econômicas e Sociais”.

Anos depois, eu estava almoçando com a Monica Berger num restaurante do Centro, quando Manoel sentou-se à nossa mesa e ficou discorrendo por horas sobre seu assunto obsessivo: a música paranaense. Tinham me alertado que ele era polêmico e prolíxo, mas fiquei com uma boa impressão: tenho uma queda por personagens tipo Don Quixote. Nesse dia, ele me contou que era de uma geração anterior à nossa e que éramos seus ídolos de adolescência. Com uns 14 anos de idade virou punk e passou a frequentar a casa do Thadeu Wojciechowski e o Bar do Lino. Começou na música organizando festas para playboys, mas logo enveredou pela produção de bandas autorais undergrounds que resultaram em álbuns célebres desta cena, que estava no seu auge nos anos 90, quando Curitiba era chamada de a Seattle brasileira.

Pelo lado acadêmico, Manoel possui graduação em Ciência Política pelo Centro Universitário Internacional de Curitiba (2014). Pesquisador, escritor e agitador cultural, é editor do Observatório da Cultura e Diretor da Fonoteca da Música Paranaense. Foi por seis mandatos Membro da Câmera/Colegiado Setorial de Música e Conselho Nacional de Políticas Culturais/MINC (2005/2017). Tem atuado com os seguintes temas: políticas culturais, direito autoral, mídia, economia da cultura, estudos regionais de música paranaense, sociologia da música; além de temas mais voltados a Ciência Política como governança e boas práticas na administração pública, controle social, transparência, participação e democracia. Atualmente, tem pesquisado de estudos culturais a socioeconômicos (com experiência no IPARDES), e temas da Ciência Política.

Também publicou algumas denúncias sobre a política cultural local, que repercutiram em veículos como Le Monde Diplomatique – Brasil, Folha de Londrina, Metrópoles e Veja, para lê-las clique aqui, aqui e aqui.

Em 4 de fevereiro de 2020, Manoel concedeu uma entrevista ao jornal Folha do Batel em que falou mais longamente sobre suas atividades culturais:

Manoel, nos conte um pouco sobre suas pesquisas, projetos e no que mais anda envolvido.

Meu projeto de vida tem sido as pesquisas culturais. Tenho pesquisado história da música paranaense, políticas culturais e sociologia da música, o que leva a participações em atividades variadas, desde congressos, artigos, pesquisas, conselhos de cultura e consultorias. No momento tenho a missão complicada de montar um museu de música paranaense, de forma independente do poder público.

Como surgiu e qual o objetivo do MUSIN ( museu do som independente) ?

O Musin surgiu através da pesquisa e documentação sobre a música paranaense, iniciada por mim em meados de 90, se consolidando com o lançamento do livro A desconstrução da Música na Cultura Paranaense (2004), resultando em mais de 200 citações em artigos e monografias. Atualmente estamos recebendo grupos de estudantes e concluindo projetos estruturantes que irão permitir o avanço das pesquisas em musica paranaense em um sentido amplo, como a analise da bibliografia geral, catalogação das obras musicais, indexação de documentos entre outros. O museu cresceu muito, na atualidade tem mais de 200 mil documentos, mas não tem recebido apoio algum do poder público, ainda que exista obrigação legal do Estado. Por este motivo, na atualidade estamos buscando parcerias para ampliação do espaço e das atividades.

Quais pesquisas vocês tem realizado na atualidade no Museu?

Estamos realizando diversos mapeamentos culturais, e estudos do campo histórico, teórico, sociológico, político e econômico, sendo a maioria relacionados à música local, mas apesar de serem mais de 70 linhas de pesquisas elas se enquadram basicamente em três eixos. O primeiro, é o acervo da música paranaense, tem materiais como fanzines, jornais, fotos, discos, CDs, cassetes, cartazes e flyers de shows e festas que vão da MPB, rock, música eletrônica. Só de gravações de músicas de paranaenses são 30 mil músicas, enquanto cartazes e flyers de shows de bandas e material dos DJs e de pistas de dança locais são dezenas de milhares.

E quais são as outras linhas de pesquisas que vocês tem feito?

O segundo eixo de estudos é o da economia política da música, que revelam as contradições entre capital trabalho, cenas independentes e multinacionais no acirrado mercado da música, comparando o caso brasileiro com o mercado global. Se trata de uma analise materialista histórica e dialética das relações desse mercado bilionário que vem passando por enormes transformações graças as mudanças tecnológica como a internet, streaming e plataformas de vídeo, que provocam mudanças nas relações e formas sociais do consumo e prática da música. Já o terceiro eixo de pesquisas, reúne mais de 300 mil arquivos coletados ao longo de 10 anos, e é mais atual, pois se tratam de estudos sobre comunicação política e guerra híbrida, que afetam os fenômenos sociais e políticos de nosso tempo. Acredito que este tema, é bem popular e está na boca do povo, por ser relacionado aos estudos de facebook, whats, redes de fakenews, uso de bots, algorítimos e de como isso interfere na opinião pública, comunicação política, mídia e democracia.

Você acredita que a cidade de Curitiba está atrasada ou adiantada nas questões culturais e do mercado do entretenimento? Explique

Curitiba apesar de ser reconhecida como capital cultural, tem sido alvo de uma contradição. Se de um lado existem criadores em todos os estilos musicais, não tem apoio da mídia. No fundo, o curitibano médio, vai a clubes e bares para ouvir música feita pelos outros. Sem este apoio, a cidade passa por uma crise de identidade permanente, resultando em prejuízos variados que vão desde a ordem simbólica até mesmo econômicos, considerando que o Estado paga somente ao ECAD mais de 60 milhões de reais ano, dinheiro que vai embora. O agravante nessa situação é que associações de bares como ABRABAR tem relatado dificuldades diante do poder público, dos espaços conseguirem alvarás para realização de atividades musicais. A Feturismo vai na mesma linha de pensamento, em seminários recentes expôs a necessidade de alinhar atividade turística com a cultura local. A OMB – Ordem dos Músicos do Brasil vai mais longe, tem inclusive protocolado ofícios, e pedidos na Câmara de Vereadores, para que a música nas ruas de Curitiba seja liberada. Existe grande resistência da prefeitura e dos órgãos públicos, de fiscalização, PM e urbanismo, que vem multando músicos que tocam um simples violão na rua XV de Novembro. É fundamental que se apoie a cultura local para o desenvolvimento da região.

Você citou o caso do ECAD. Como funciona essa arrecadação? Para o Paraná é vantajoso?

A nova lei surgiu em 2013, após a CPI do ECAD, investigação a qual pude dar minha pequena contribuição. Desde então se criou fiscalização sobre o ECAD feita na DDI do antigo MINC. Mas essas ações não me parecem muito efetivas. Ficou um pouco mais fácil determinar os autores e a quem é devido o pagamento. Ainda que tenha avançado, a Associação Brasileira de TV a Cabo e a ABRABAR, bem como setor de hotelaria venceram ações contra o ECAD nos últimos anos, isso devido à falta de critérios claros de arrecadação e distribuição. Essas questões visam garantir que a música executada, seja arrecadada e o dinheiro retorne ao autor integralmente. O que ocorre é que é feita essa definição dos pagamentos por amostragem e não pelo total. Por exemplo, a música do Paraná é prejudicada. No comércio, bares entre outros, é arrecadado mais de 60 milhões só em nosso Estado ao ano, e algo entorno de pouco mais de 1 milhão retornam aos nosso autores. Então o Paraná paga enormes taxas e esse dinheiro vai dar retorno em outro lugar do mundo, e será gasto no comércio, lá de Los Angeles, NY ou Londres. Está na hora do Paraná solucionar isso, o comércio ao tocar a música de autores locais nas caixas de som, as emissoras de rádio locais, e todos (da ACP, ABERT até a prefeitura) exigindo ao ECAD a justa distribuição da nossa parte.

No momento, Manoel José de Souza Neto está empreendendo outra luta mais importante para ele: um local de destinação definitivo para a Fonoteca da Música Paranaense, atual nome do Musin – Museu do Som Independente. O enorme acervo estava acumulado numa sala do edifício Tijucas, mas foi transferido para uma storage, até que se encontre um lugar apropriado para sua manutenção.

Agora está sendo criada uma associação sem fins lucrativos, composta por admiradores dos esforços de Manoel para manter este precioso acervo. A sua doação definitiva está condicionada às procurações e a criação da associação, onde Manoel ficará no Conselho e que será presidida por Marielle Loyola, produtora cultural e vocalista de bandas emblemáticas como Escola de Escândalos, Arte no Escuro e Volkana. Após esta parte burocrática, mas necessária, haverá o início das negociações com instituições de ensino, até chegar a uma que possa receber gratuitamente o material e proporcionar o acesso para realização de pesquisas, projetos, reportagens e outras ações para seus associados. O potencial nesta área é enorme e pode gerar centenas de projetos culturais relevantes para nossa cidade. Desejamos sorte a Manoel Neto e à ONG da Fonoteca da Música Paranaense nesta nova fase de sua vida de lutas inglórias (ou seriam gloriosas?).

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