Hoje está muito claro para todo mundo que Moda é Cultura. Gosto de destacar aqui o trabalho de estilistas revolucionários e um dos maiores de todos os tempos é a japonesa Rei Kawakubo, que finalmente abre a primeira loja da sua marca Comme Des Garçons no Brasil. Mais informações sobre o evento ao final desta matéria.
Rei Kawakubo nasceu em 11 de outubro de 1942 em Tóquio. Seu pai era administrador na Universidade Keio, uma instituição fundada pelo educador e reformador Meiji Fukuzawa Yukichi , um defensor da cultura ocidental e dos direitos das mulheres. Em 1960, ela matriculou-se na universidade de seu pai e se formou em ‘história da estética’, uma especialização que incluía o estudo da arte asiática e ocidental. Após a formatura em 1964, Kawakubo trabalhou no departamento de publicidade da empresa têxtil Asahi Kasei e passou a atuar como estilista freelancer em 1967.
Em 1969, ela fundou sua própria empresa, Comme des Garçons, em Tóquio, e abriu sua primeira boutique lá em 1975. Começando com roupas femininas, Kawakubo adicionou uma linha masculina em 1978. Após o fim de sua primeira década com a Comme de Garçons, ela começou a expressar sua insatisfação com a direção inicial de algumas de suas ideias de design, afirmando: “Há três anos, fiquei insatisfeita com o que estava fazendo. Senti que deveria estar fazendo algo mais direcional, mais poderoso. Na moda, tivemos que nos afastar da influência do que havia sido feito nas décadas de 1920 ou 1930. Tínhamos que nos afastar do folclore. Decidi começar do zero, do nada, fazer coisas que não haviam sido feitas antes, coisas com uma imagem forte.”
Durante a década de 1980, suas roupas eram principalmente em preto, cinza escuro ou branco, claramente inspiradas nas roupas de rua, como as do movimento punk. A ênfase em roupas pretas levou a imprensa japonesa a descrever Kawakubo e seus seguidores como ‘Os Corvos’. Os materiais eram frequentemente drapeados ao redor do corpo e apresentavam bordas desfiadas e inacabadas, juntamente com buracos e um formato geral assimétrico. A Comme des Garçons rapidamente se tornou sinônimo de experimentação radical. Em um mercado global dominado por elegância tradicional e silhuetas previsíveis, Kawakubo apresentou roupas de cortes assimétricos, tecidos inusitados, cores sóbrias e um estilo que, para muitos, flertava com a antimoda.
Finalmente, Rei levou suas coleções para Paris, onde causou verdadeira comoção. Sua estreia na Paris Fashion Week, em 1981, marcou um ponto de inflexão: críticos ocidentais descreveram suas criações como “pós-atômicas”, “rasgadas”, “desconstruídas”, “hiroshima chique”. Embora, inicialmente, tenha sido alvo de espanto e até rejeição, logo ficou claro que ali estava uma revolução estética. Kawakubo provocava a indústria ao criar roupas que questionavam a própria função do vestuário e da aparência.
Um de seus maiores legados é a valorização da imperfeição. Influenciada pelo conceito japonês de wabi-sabi, que vê beleza na impermanência, imperfeição e assimetria, a designer desafiou os padrões convencionais de proporção e acabamento. Suas peças, muitas vezes, pareciam inacabadas ou desconstruídas, com costuras expostas, cortes abruptos e sobreposições improváveis. Esse olhar inovador pavimentou o caminho para uma geração de estilistas interessados em questionar normas. Para Kawakubo, moda nunca foi sobre agradar, mas sobre instigar, criar impacto visual e intelectual. Como declarou certa vez: “Eu não sinto que preciso de aceitação. Não sou contra nada; apenas quero criar algo novo”.
Seus desfiles são verdadeiros happenings artísticos. Cada coleção é apresentada como um manifesto: trilhas sonoras experimentais, iluminação dramática, modelos andróginos e cenários minimalistas. A designer não apenas exibe roupas, mas cria narrativas visuais e sensoriais, explorando temas como identidade, gênero, alienação e renovação. Em uma das coleções mais emblemáticas, “Body Meets Dress, Dress Meets Body” (1997), Kawakubo desafiou a silhueta humana, incorporando enchimentos e volumes inesperados no abdômen, quadris e ombros das modelos. O resultado foi uma reflexão sobre o corpo, a artificialidade e os limites da percepção.
Kawakubo gosta de ter contribuições em todos os aspectos de seu negócio, em vez de se concentrar apenas em roupas e acessórios. Ela está muito envolvida em design gráfico, publicidade e interiores de lojas, acreditando que todas essas coisas são parte de uma visão e estão inextricavelmente ligadas. Sua loja em Aoyama , Tóquio, é conhecida por sua fachada de vidro inclinada decorada com pontos azuis. Ela foi projetada em colaboração entre Rei e o designer de interiores Takao Kawasaki. Kawakubo publicou sua própria revista semestral, ‘Six’ (que significa ‘sexto sentido’), no início dos anos 1990. Ela apresentava muito pouco texto e consistia principalmente de fotografias e imagens que ela considerava inspiradoras. Em 1993, ela lançou a linha Comme des Garçons Parfums com Adrian Joffe. Rei sempre apoiou o uso de referências LGBTQIA+ e temas culturais nas fotografias utilizadas em suas campanhas publicitárias e de marketing, promovendo suas roupas e acessórios.
Desde 2003, ela tem sido referenciada e citada por outros grandes estilistas por sua originalidade e contribuição à moda e ao design, marcada por um programa de TV de entrevistas sobre seu trabalho transmitido pela NHK (Japan Broadcasting Company). Durante as entrevistas, Alexander McQueen declarou: “Quando Kawakubo cria uma coleção, parece meio absurdo, não apenas para o público em geral. Mas quando você assiste alguém se desafiando como ela faz a cada temporada, isso faz você entender que está na Moda por causa de pessoas como ela”. Já Jean-Paul Gaultier declarou: “Acredito que Kawakubo é uma mulher com extrema coragem. É uma pessoa com força excepcional. Além disso, ela tem um espírito poético. Quando vejo suas criações, sinto o espírito de uma jovem. Uma jovem que ainda tem inocência e é um pouco romântica. No entanto, ela também tem um aspecto de uma mulher lutadora, que não teme nada enquanto avança.” Durante a mesma transmissão de entrevistas no Japão, Donna Karan acrescentou: “Rei Kawakubo é uma designer muito interessante para mim como mulher e designer feminina. Como pessoa, ela é muito quieta e um tanto retraída, mas suas roupas fazem uma declaração enorme.”
Originalmente criada por Rei em 2004 na Dover Street de Londres, a loja de departamentos Dover Street Market abriu em vários locais, como Tóquio, Pequim, Cingapura, Nova York e Los Angeles. Uma loja multimarcas, a Dover Street Market dá ênfase particular ao marketing visual e aos talentos emergentes; a DSM, por exemplo, foi a primeira revendedora internacional do designer russo Gosha Rubchinskiy e agora cuida de seu marketing, produção e operações. Num artigo para a Business of Fashion em abril de 2017, Tim Blanks relatou que a receita gerada pela CDG e pelas suas afiliadas era “mais de 280 milhões de dólares por ano”.
Agora chegou a vez de aportar no Brasil, como conta o release escrito pela Index Communications Strategies, sua assessoria de imprensa local:
COMME DES GARÇONS ABRE PRIMEIRA LOJA NA AMÉRICA LATINA, EM SÃO PAULO
Parece que o Brasil já chamava a Comme des Garçons há muitos anos. A energia criativa destemida e o incentivo genuíno à expressão individual neste país magnífico sempre atraíram a marca. Era apenas uma questão de tempo.
Por isso, temos o enorme prazer de anunciar a abertura da nossa primeira loja na América Latina, no dia 13 de junho de 2025, no Shopping Iguatemi São Paulo. Localizada no piso superior, a boutique de 160 m² incorpora a direção criativa distinta de Rei Kawakubo, fundadora e diretora criativa da marca. Assim como todas as lojas da Comme des Garçons, a unidade de São Paulo foi concebida e projetada internamente, seguindo a filosofia da marca de desenvolver uma identidade arquitetônica única para cada local.
Kawakubo é conhecida por ser reclusa e tímida em relação à mídia, preferindo que suas criações inovadoras falem por si só, e apenas ocasionalmente participa de seus desfiles de moda. Na festa de inauguração de sua boutique brasileira, foi representada por seu marido Adrian Joffe. Um artigo na revista Vogue, em abril de 2017, resumiu este relacionamento: “Joffe, sul-africano de nascimento e dez anos mais novo que Kawakubo, ingressou na empresa em 1987. Ele e Kawakubo se casaram em 1992, na Prefeitura de Paris . É uma parceria com ritmos próprios — enquanto Joffe mora em Paris, sua esposa mora em Tóquio, no bairro nobre de Aoyama, a uma curta distância da principal loja da Comme Des Garçons.”
Apesar da natureza vanguardista e, muitas vezes, incompreendida de seu trabalho, Kawakubo recebeu inúmeros prêmios internacionais. Foi homenageada pelo Council of Fashion Designers of America (CFDA), recebeu distinções do governo francês e, em 2017, foi tema de uma grande exposição no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque: “Rei Kawakubo/Comme des Garçons: Art of the In-Between”, uma das poucas dedicadas em vida a um estilista. Uma extraordinária exposição dela será aberta este ano na Austrália, associada ao trabalho de Vivienne Westwood (outra grande criadora de moda já homenageada nesta coluna). Será uma celebração de duas desbravadoras do lugar comum.
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