ANO IV

23/06/2026

HojePR

gennaro

As garças francesas de Curitiba

09/01/2026
garças

Ninguém sabe ao certo quando chegaram. Não houve desembarque oficial, carimbo no passaporte ou coletiva de imprensa. Apenas apareceram. Três garças brancas, altivas, silenciosas e manifestamente estrangeiras, passaram a frequentar, com elegância blasé, o trajeto aquático que liga o lago do Passeio Público ao lago do Parque Barigui. Vieram da França, dizem. Provença? Camargue? Paris seria improvável — garças detestam multidões e selfies —, mas nunca se sabe. Francesas são assim: chegam sem avisar e agem como se sempre tivessem estado ali.

Logo na primeira manhã, os patos locais perceberam que algo estava fora do eixo. As recém-chegadas não grasnavam, não se agitavam, não disputavam migalhas de pão amanhecido jogadas por crianças empolgadas. Ficavam imóveis, paradas numa só perna, como esculturas minimalistas importadas diretamente de um museu de arte contemporânea. Observavam tudo com um olhar enviesado, típico de quem acha o urbanismo local curioso, mas ligeiramente exagerado.

No Passeio Público, causaram certo desconforto. Os pavões — criaturas vaidosas por natureza — tentaram impor respeito abrindo suas caudas em leques barrocos. As garças apenas piscaram lentamente, como quem diz “très intéressant”, e continuaram imóveis. O pavão recolheu-se, humilhado, convencido de que estava fora de moda.

As garças francesas não fazem esforço para se integrar. Não aprenderam a reclamar do clima — o que, em Curitiba, é quase um dever cívico — nem comentam sobre as quatro estações do mesmo dia. Preferem o silêncio. Caminham com passos longos e econômicos, como se cada movimento tivesse sido ensaiado por um coreógrafo existencialista. Quando levantam voo, fazem-no com parcimônia, sem alarde, sem aquela afobação tropical tão comum às aves nativas. Voam como quem diz: “não estamos com pressa, o mundo que se organize”.

No trajeto até o Barigui, tornaram-se assunto entre ciclistas, corredores e senhores aposentados que alimentam capivaras como quem distribui bênçãos. “Você viu? São francesas”, cochicham alguns, com a convicção de quem leu isso em lugar nenhum. Outros garantem que ouviram uma delas suspirar em francês ao observar um quiosque de pastel. Evidência suficiente.

No lago do Barigui, instalaram-se com autoridade simbólica. As capivaras, sempre diplomáticas, aceitaram a presença estrangeira com indiferença amistosa. Uma delas, mais velha e experiente, teria comentado: “Essas aí não dão trabalho. Não pedem comida, não tiram foto, não fazem barulho. São melhores que muito curitibano.” Concordância geral.

As garças francesas olham para Curitiba como quem aprecia um experimento urbano interessante, porém um pouco ansioso. Observam os humanos correndo sem motivo aparente, falando ao celular com expressões preocupadas, tentando controlar o incontrolável. Elas sabem — como só aves migratórias e filósofos sabem — que nada disso adianta muito. A água continua sendo água. O peixe continua sendo peixe. E o tempo, ah, o tempo passa independentemente do plano diretor.

Às vezes, parecem rir. Um riso discreto, interno, quase imperceptível. Especialmente quando chove e faz sol ao mesmo tempo, quando alguém abre o guarda-chuva por reflexo e fecha dois minutos depois, confuso. Aí uma delas inclina levemente a cabeça, como quem reconhece uma piada sofisticada.

Reza a lenda que as três não são apenas francesas, mas intelectuais. Uma seria poeta simbolista, outra crítica de arte, a terceira especialista em gastronomia aquática. Daí o desdém educado com que recusam restos de pão: “non, merci”. Preferem peixe fresco, capturado com técnica e paciência, sem desperdício, sem pressa. Alta cozinha lacustre.

Com o tempo, tornaram-se parte da paisagem, como tudo que em Curitiba começa estranho e acaba normal. Já há quem marque encontros “perto das garças francesas”, como se elas fossem um ponto cardeal não-oficial. Elas aceitam o papel com dignidade, sem jamais pedir placa explicativa ou reconhecimento público.

E assim seguem, indo e vindo entre o Passeio Público e o Barigui, indiferentes às fronteiras administrativas, às disputas humanas e às modas passageiras. Três garças brancas, francesas por nascimento e curitibanas por adoção involuntária, ensinando diariamente — sem palestras, sem posts motivacionais — que elegância é saber estar, observar e, sobretudo, não se apressar.

Talvez um dia partam, sem aviso, como chegaram. Ou talvez fiquem para sempre, até que alguém jure que sempre estiveram ali e que essa história de França não passa de exagero. As garças, claro, não confirmarão nem negarão. Apenas piscarão lentamente, numa perna só, enquanto o mundo corre em volta.

Leia outras colunas do Gennaro aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.