Naquela manhã de sol meio torto, em que o calor não chegava a ser castigo, mas já dava vontade de tirar a camisa e andar descalço, Betinho, Daíco, Bijujú e Tonico decidiram que o assunto mais sério do dia seria o jogo de bolinha de gude. Coisa grave. Coisa de homem pequeno.
O campo de batalha era um pedaço de chão batido atrás da casa da Dona Zuleide, território oficialmente proibido, mas tradicionalmente ocupado por gerações de meninos que juravam não pisar no canteiro de rosas (e pisavam). A terra era vermelha, fofa, perfeita para desenhar círculos, sujar joelhos e marcar a memória.
Betinho, o mais organizado do grupo — e por isso mesmo alvo de permanente desconfiança — foi quem desenhou a rodinha no chão com um graveto achado ali mesmo. Fez questão de medir “no olho”, girando o braço com solenidade, e garantiu:
— Tá perfeito. Redondinho.
Daíco, que nunca concordava com nada, retrucou:
— Redondo coisa nenhuma. Tá mais pra batata.
Bijujú, o menorzinho, mas dono da maior coleção de bolinhas do bairro, não entrou na discussão. Estava ocupado escolhendo qual ia usar: azul, verde, rajada ou a temida bola de leite, branca, pesada e respeitada como gente grande. Escolheu a bola de leite, soprou a poeirinha nela e anunciou com orgulho:
— Essa aqui é matadeira.
Tonico, o mais velho e autoproclamado juiz universal, coçou o joelho ralado — troféu de guerras passadas — e decretou:
— Vale perdeu. Nada de choro depois.
As bolinhas foram colocadas dentro da rodinha. Cada uma parecia saber que algumas dali não voltariam para casa. O primeiro a jogar foi Betinho. Mirou com cuidado exagerado, língua para fora, um olho fechado, outro desconfiado. Disparou. Errou feio.
— Ihhh! — gritou Daíco. — Matou foi formiga invisível!
A vez passou. Daíco se agachou, ajeitou o dedão com confiança, limpou a bolinha na bermuda e… toc. A bolinha dele bateu em outra e tirou duas da roda.
— Duas! — comemorou, já recolhendo o prêmio. — Sou perigoso!
Bijujú engoliu seco. Era a vez dele. Apertou a bola de leite como se fosse uma arma secreta. Mirou, respirou fundo e disparou com tanta força que a bolinha saiu da rodinha, atravessou o terreno e quase entrou no quintal da Dona Zuleide.
Silêncio.
— Essa não vale — disse Betinho, rápido.
— Vale sim! — gritou Bijujú.
— Vale nada! — insistiu Daíco.
— Calma! — Tonico levantou a mão. — Foi fora da rodinha… mas foi bonito.
Depois de longa discussão, decidiram que não valia, mas que tinha sido “quase épico”, o que já era alguma coisa.
Tonico jogou por último. Não falou nada. Só mirou, deu um peteleco seco e pléc. Três bolinhas saíram da rodinha.
— Aí é trapaça — murmurou Daíco.
— É técnica — respondeu Tonico, sério.
O jogo seguiu assim: risadas, acusações de roubo, ameaças de nunca mais jogar, promessas de revanche e joelhos cada vez mais sujos. No final, ninguém lembrava exatamente quem ganhou. Mas todos tinham perdido alguma bolinha e ganhado uma história pra contar.
Quando o sol começou a esquentar de verdade e alguém gritou:
— Hora de entrar! O almoço tá na mesa!
Betinho guardou o graveto, Daíco contou as bolinhas umas três vezes, Bijujú abraçou a bola de leite sobrevivente e Tonico decretou:
— Amanhã tem mais.
E teve. Porque naquele tempo, perder bolinha doía menos do que perder a tarde brincando.
— Precisam lavar bem as mãos e tirar a poeira dos pés, molecada! — avisou Dona Zuleide. — Ninguém vai comer se não tiver bem limpinho!
No almoço, na casa da Tia Zuleide, o arroz com feijão, a salada de tomate e os quiabos vinham reforçados por deliciosos bifes acebolados e ovos fritos. A mesa virou palco de gargalhadas, disputas por quem comia mais e histórias exageradas do jogo recém-terminado.
Depois, dentes escovados às pressas, idas estratégicas aos banheiros contíguos e lá se foi a molecada jogar bola de capotão no campinho mais próximo. A tarde estava nublada, sol entre nuvens, dessas que parecem não decidir se vão virar chuva ou só refrescar o mundo.
Dona Zuleide ligou o rádio para ouvir mais um capítulo da radionovela “Albertinho Limonta”, enquanto lavava panelas, pratos e talheres. Ainda havia roupa pra lavar. Lavava, quaráva, estendia no varal. As roupas secariam limpas, cheirosas, impecáveis.
Quanta falta nos fazem as Donas Zuleides.
Pra essa quantidade de roupa suja — e de saudade — no Brasil de hoje.
E as bolinhas de gude?
Bem… hoje as bolas são outras.
Ora, bolas!
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