ANO IV

23/06/2026

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Boca de Ouro

23/01/2026
boca de ouro

Juvenal tinha cinquenta anos e um tipo de elegância que não se aprendia em alfaiataria. Era mulato, de pele bem tratada, postura ereta e passos medidos, como quem anda sabendo exatamente onde pisa — e onde não deve deixar rastro. Cartorário da cidadezinha, conhecia mais vidas do que o padre e mais segredos do que o cemitério.

Usava sempre terno de linho, claro nos dias quentes, escuro quando queria ser levado a sério. A gravata era inseparável, mesmo nos domingos preguiçosos. Viúvo, sem filhos, morava sozinho numa casa silenciosa demais para um homem tão comentado. Diziam que dormia pouco. Outros garantiam que nunca dormia sozinho — apenas não repetia companhia.

O sorriso era seu brasão. Quatro dentes folheados a ouro reluziam quando ele sorria daquele jeito enviesado, meio irônico, meio cúmplice. Não era um sorriso franco. Era um convite. Ou um aviso.

Juvenal jogava futebol com destreza de quem pensa dois lances à frente. Mas era à noite, nos botecos de mesa manca e chão encardido, que ele se tornava realmente perigoso. O cavaquinho repousava no colo como extensão do corpo. Quando dedilhava um samba antigo, a conversa diminuía, os copos paravam no ar e os olhares femininos, casados ou não, perdiam o rumo.

Ele não cantava alto. Preferia deixar que a música se insinuasse. Olhava por cima do instrumento, atento a quem desviava os olhos primeiro. Juvenal seduzia sem tocar. Falava pouco, escutava muito. E anotava tudo — ainda que só na memória.

Na cidade pequena, isso nunca passa despercebido.

Começaram os cochichos. Primeiro, discretos. Depois, maliciosos. O nome de Juvenal passou a circular junto ao de esposas respeitáveis, mulheres de políticos locais, senhoras que durante o dia discursavam moral e, à noite, tropeçavam em promessas. Comentava-se, com um misto de inveja e temor, que também se envolvera com a mulher do juiz. Mais tarde, com a do promotor. Ninguém confirmava. Mas ninguém negava.

O problema de Juvenal era acreditar que charme resolve tudo.

Havia zonas na cidade onde a lei não vinha dos códigos. Vinham do cargo, do sobrenome, da arma fria no coldre. A jurisprudência local não gostava de ironia nem de homens que sabiam demais.

A amante do delegado surgiu como um sussurro. Não frequentava os botecos. Não ria alto. Tinha olhos atentos, quase sempre varrendo o entorno, como quem espera ser seguida. Os encontros eram rápidos, fora de hora, fora de lugar. Juvenal parecia diferente com ela. Menos seguro. Menos sorridente. Talvez mais verdadeiro.

Ou mais imprudente.

Naquela noite, algo estava fora do compasso. Juvenal tocou pouco. O samba morreu antes do refrão. Deixou o cavaquinho encostado na cadeira — coisa que nunca fazia —, pagou a conta sem discutir troco e saiu sem sorrir. O dono do bar ainda comentou:

— Hoje ele tá estranho.

A rua estava quase vazia. O vento levantava poeira fina. Um poste piscava.

Em algum lugar, uma janela se fechou rápido demais.

O encontro aconteceu. Onde exatamente, ninguém soube dizer. Houve quem jurasse ter ouvido vozes baixas. Houve quem dissesse ter visto uma sombra parada tempo demais na esquina. O fato é que, naquela madrugada, Juvenal deixou de ser visto.

Pela manhã, o cartório não abriu. O delegado apareceu sério demais. O juiz faltou ao café. O promotor saiu cedo da cidade.

E Dona Zuleide, do boteco, jurou que o cavaquinho, abandonado, estava fora de tom, como se alguém tivesse passado a mão pelas cordas durante a noite.

Nunca encontraram o corpo. Nunca houve inquérito. Nunca se falou oficialmente em crime. Juvenal virou um vazio elegante, um silêncio bem-vestido.

Sua casa foi fechada. Móveis utensílios e roupas desapareceram. Seus instrumentos musicais de bom sambista nunca mais foram vistos ou ouvidos.

Às vezes, nos fins de tarde, quando o sol bate torto nas mesas do bar, alguém jura ouvir um cavaquinho puxando um samba autêntico , antigo, desses que falam de amores perigosos e destinos que cobram caro. Os mais velhos apenas abaixam a voz.

Respiram fundo. O mulato foi embora. Ou foram embora com ele.

Porque na cidade branca, todo mundo aprendeu tarde demais: Juvenal sabia jogar em muitos campos.

Mas entrou em um onde nem o ouro dos dentes brilhava o suficiente para iluminar a saída.

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