Desfilar no Sambódromo de São Paulo, no Carnaval de fevereiro de 2003, foi uma dessas experiências que não cabem inteiras na memória — transbordam. Ainda hoje, quando fecho os olhos, vejo cores em movimento, ouço o couro dos surdos vibrando no peito e sinto o cheiro doce da fantasia misturado ao asfalto quente da avenida.
O tema era Preto Velho do Cafundó, e havia nele algo de ancestral, solene e ao mesmo tempo festivo, como se o passado tivesse decidido desfilar conosco, de braços dados.
Eu e Virginia Moraes, junto a outros integrantes da produção ocupávamos o carro alegórico central, um verdadeiro altar ambulante. Referindo-se a Igreja em Sorocaba.Ali, entre esculturas, símbolos e tecidos que ondulavam como fumaça de cachimbo, estava também Itamar Assumpção.
Itamar não desfilava — ele pairava. Sentado em uma poltrona especial. Um câncer consumia -lhe as energias. Sua presença tinha densidade própria, como se a música dele, já entranhada na cultura brasileira, tivesse ganhado corpo naquela noite. Havia nele um silêncio eloquente, um sorriso contido, um olhar que parecia observar tudo de fora e de dentro ao mesmo tempo.
A arrumação dos carros alegóricos era um espetáculo à parte. Antes do desfile, o sambódromo parecia um enorme estaleiro onírico: esculturas sendo ajustadas, luzes testadas, adereços reaprumados à última hora, carnavalescos suando nervosismo e esperança. Cada carro contava um capítulo do enredo, com riqueza de detalhes e respeito ao tema. O Preto Velho surgia ali não como caricatura, mas como entidade simbólica — sabedoria, resistência, memória e ironia fina diante do mundo.
O frenesi dos passistas era contagiante. Homens e mulheres em fantasias exuberantes, bordadas com paciência quase monástica, dançavam como se o corpo fosse extensão direta do surdo e do tamborim. Havia penas, contas, espelhos, palhas, dourados e tons terrosos que dialogavam com o tema. As cores não competiam — conversavam. Tudo vibrava em conjunto, numa coreografia espontânea que só o Carnaval consegue produzir.
O samba-enredo, que viria a ser consagrado como o vencedor do Carnaval Paulista de 2003, ecoava forte e afinado. Era cantado com convicção, como se cada componente soubesse que estava participando de algo maior do que uma disputa. Não era apenas um desfile: era um rito urbano, coletivo, elétrico. A Império da Casa Verde desfilava com confiança, empurrada pela força do canto e pela harmonia da bateria.
Muito se comentava sobre o mecenas da escola de samba Império da Casa Verde, o italiano Chico Ronda, figura singular, misto de empresário, apaixonado pelo samba e personagem de ópera bufa. Seu apoio permitia ousadia estética, acabamento refinado e, sobretudo, liberdade criativa. Era curioso ver como um estrangeiro compreendia tão bem a alma de uma escola de samba paulistana — talvez porque o Carnaval, no fundo, fale uma língua universal.
Lembro-me da sensação exata ao entrar na avenida: o tempo se dilata. O sambódromo inteiro parece respirar junto. O público some e reaparece como um mar de vozes, flashes e braços erguidos. Do alto do carro, eu via tudo em fragmentos — alas passando, bandeiras tremulando, rostos emocionados. E ali, ao meu lado, Itamar, cúmplice silencioso daquele instante irrepetível.
Depois, tudo passa rápido demais. Joelhos e pé doendo , sobretudo por fingir sambar sobre a carroceria de um carro alegórico.
O desfile termina, a dispersão chega, as fantasias se desmontam, mas algo fica. Fica o eco do samba, fica o brilho cansado nos olhos, fica a certeza de ter vivido um momento histórico. E fica a saudade.
Itamar seria ator no filme Longa Metragem“ Cafundó”. Não foi.
Ao final do desfile nos abraçamos em despedida. Até breve Itamar. ! Ele respondeu-me:_ ….acho que não viverei até as gravações meu amigo…. estou me despedindo de todos neste carnaval.
Partiu dessa em junho de 2003. Mas, de certo modo, continua atuando — na memória, na música, na avenida que nunca esquece quem passou por ela com verdade.
O Carnaval de 2003 não acabou. Ele Itamar Assumpção ,segue desfilando, todas as vezes que me lembro. Nos deixou um grande legado musical. Respeitado em todo o Planeta.
Eu que nunca fui passista de Escola de Samba nem serei por falta de aptidão… porém , vivo equilibrando-me na corda bamba pra fazer meus filminhos e aquarelinhas.
O João de Camargo foi um Tropeiro que viveu entre Viamão RS , os campos gerais do Pr e Sorocaba SP. Transformou-se no Papa Negro de Sorocaba.
Foi tema de teses e livros de Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso entre outros Acadêmicos pelo mundo.
Cafundó o filme, 33 prêmios entre nacionais e internacionais. Alavancou a carreira dos Atores Lázaro Ramos e Leona Cavalli. Foi gravado aqui no Paraná, em Ponta Grossa ,Vila Velha, Lapa e Paranaguá. E tb na Praça da Sé em São Paulo.
Dirigido por Clóvis Bueno e Paulo Betti. Produção da Prole de Adão e da Laz Audiovisual PR.
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