O desembargador Cleonildo Cristobaleno cansou das atividades jurisprudenciais e resolveu pedir sua aposentadoria precoce.
— Mas o que você vai fazer da vida agora?! Tá maluco? Pirou de vez?! — esbravejou sua esposa, Dona Lindaura Carmem Oliveira e Silva (Lilica para as amigas).
— Ah, sei lá! — respondeu-lhe. — Tô cansado de tanta ritualística, processos, embargos de declaração, exceção de incompetência, data vênia, embargos de instrumento, partilhas, sentenças, mandados, busca e apreensão, habeas corpus, contratos, responsabilidade civil… blá-blá-blá…
— Vai fazer o quê da vida, ô Zé Reclamão? — perguntou a esposa. — Que marido xarope que Deus me deu! Bem que minha mãe me avisou… Esse Cleonildo será um marido xarope… um fardo!
Em suas memórias, lembrava-se… sim… mamãe tinha razão — pensava Dona Lilica.
— Vou ser motorista de caminhão, puxar carreto, como meu pai fazia! Quero encher a carroceria de sacas de milho e fazer entregas nas granjas de aves. Quero levar os porcos do Sudoeste para o abatedouro do frigorífico. Quero encher o caminhão de soja e descarregar no Porto de Paranaguá. Sentir o cheiro azedo dos grãos de soja fermentando no chão. Ver os ratos correndo livremente sobre o píer enquanto os navios são carregados. Quero andar pelas estradas com a ventarola do caminhão, sentindo o vento bater no meu rosto enquanto ouço, no rádio, músicas sertanejas. Quero trocar pneu, sujar as mãos de graxa, apertar parafuso! Quero sentir o cheiro do diesel queimando no escapamento. Quero ser livre na estrada! Quero buzinar na contramão! Uhúuuuu! Vai ser muito legal! — gritava o Dr. Cleonildo.
Lilica ouvia incrédula o desembargador. Sentou-se, boquiaberta, numa poltrona do quarto do casal, enquanto o Dr. Cleonildo desfazia o nó da gravata e desafivelava o cinto da calça. Tirou a camisa, as calças, arrancou os sapatos, as meias… despiu-se e foi para o banho!
— Pro tribunal não volto mais! Chutei o balde! — alegre, cantarolava, gritava e berrava sob a água do chuveiro.
Dona Lilica desatou no choro, soluçando:
— E eu, o que farei da minha vida?? Você toma essa decisão e não pensa em mim… Cleonildinho… e eu, meu amor?? O que vou dizer para as minhas amigas de Tranca lá no Clube Graciosa? E na academia, o que vou explicar sobre você? Vão dizer que você enlouqueceu… meu Nildinho! E quem irá comigo para Miami? E nossos amigos em Balneário Camboriú? Você vai me trocar por um caminhão? Uma jamanta?
— Querida, eu arrastei uma jamanta para ficar com você, lembra? Então agora vou te trocar por um caminhão e dirigir pelas estradas, lembrando do meu pai caminhoneiro. Minha aposentadoria fica toda pra você. Eu me viro com o que ganhar com o caminhão! Aliás, vou comprar um de segunda mão! Não temos filhos, apenas esses três cachorros mini schnauzers. Você fica com toda a minha aposentadoria. Daqui a três meses eu volto! Vou tirar férias de tudo e dirigir meu caminhão.
Cecê (desembargador Cleonildo, Cecê para os amigos) saiu do tribunal, pegou a aposentadoria e disse que seria motorista de caminhão.
— Acho que enlouqueceu. Foi embora! — sentenciou um de seus ex-pares.
— Se a moda pega, estaremos fritos! Desmoralizados! — sentenciou outro. — Precisamos instituir um código de conduta entre nós!
Liberto das lides anteriores, o agora proprietário de caminhão e motorista profissional Cleonildo Cristobaleno começou a fazer carretos e fretes a partir de seus contatos e amizades empresariais anteriores.
Pleno de energia, habilitou-se na central de fretes e passou a levar cargas da Tríplice Fronteira para o Rio de Janeiro. Em seguida, para o Porto de Itajaí e também para São Francisco do Sul, em SC.
Em poucos meses, seus ganhos decuplicaram. Tornou-se proprietário de novos caminhões e jamantas. Constituiu uma frota organizada para atender uma clientela elitizada.
Soube que Dona Lilica, durante suas ausências, havia assumido um relacionamento com um de seus musculosos personal trainers da academia que frequentava. Então, civilizadamente e de acordo com os bons costumes, resolveram divorciar-se. Nem mesmo um dos cachorrinhos do casal ficou com Cleonildo Cristobaleno.
Em contrapartida, em um de seus fretes internacionais para transporte de cargas estratégicas, partindo de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, conheceu sua atual companheira: uma bela e escultural loira, a ucraniana refugiada Gina Seminova, então na Argentina. Ambos foram passar a lua de mel na caliente Pedro Juan Caballero, na fronteira Brasil–Paraguai.
Apesar da diferença de idade, o casal permanece junto e prosperando em interações empresariais. Gina é designer de joias e representante de joalherias de grife de Antuérpia e Amsterdã. As pedras preciosas brasileiras lhe são fornecidas por aquisições feitas em Minas Gerais e no Sul da Amazônia, onde bons garimpos já abastecem os caminhões da CC Transportes.
Cleonildo não sente nenhuma saudade de seus tempos jurisprudenciais. As estradas lhe são maravilhosas, os pedágios leves, e o custo de manutenção dos veículos é uma ninharia perto do que fatura. Nem mesmo a burocracia ou os funcionários contratados lhe dão dor de cabeça. O balanço é ultra positivo.
Já comprou alguns sedãs importados e circula pelas praias mais VIPs do país, cabelos ao vento e pele bronzeada, ao lado de sua jovem loira ucraniana.
A nova vida começou com um caminhão. Hoje já são dezenas, centenas de veículos rodando em sua frota, gerenciada por um executivo especialmente contratado, em associação com redes de postos de combustíveis — parceria promissora e feliz.
O casal pensa agora em comprar um jatinho e morar em Miami. Ou Saint Louis, já que trocou o sertanejo pelo elegante full jazz. Em suas viagens internacionais conheceram as Ilhas Cayman e Seychelles. Talvez se mudem para o Catar, Doha ou Bahrein.
Em suma… chutou o balde e se deu bem!
Veja outras colunas do Gennaro aqui.



