
Dona CorinnaTagliaferro Mattu.. Viúva de um calabrês. Em Santa Felicidade. Mais conhecida como Dona Cotta ou Cotinha. Suas manhãs eram madrugueiras. Após o banho matinal e o café reforçado, ouviria as notícias e as músicas sertanejas em seu rádio vitrola, sintonizado com a rádio AM local, sua preferida. Depois vestiria-se de preto e se dirigiria à Igreja.
Religiosa e fervorosa após a perda do marido. Não casara. Não tiveram filhos. Ainda tinha corpo bem modelado sob aqueles tecidos negros. Cabelos levemente grisalhos e perfil de Madona italiana. Apesar de seus 70 anos.
Ao amanhecer, assim que subia as escadarias em passos lépidos, abriria, com seu conjunto de chaves, a grande porta do templo antes do raiar do sol. Ao adentrar, os ruídos de seus passos podiam ser ouvidos, quando os saltos de seus sapatos batiam no contrapiso e se juntavam ao ecos no interior do recinto. Sua respiração ofegante e contida poderia ser ouvida, envolta aos latidos de alguns cães vindos da Avenida Manoel Ribas. E o estrilar sonoro, matinal, dos sabiás laranjeiras saltitantes das arvores próximas.
Sob a nave central e próxima à sacristia, abriria com as chaves que lhe foram exclusivamente confiadas, os armários eclesiásticos. Estes de madeiras nobres finamente entalhados, por devotos marceneiros. Destes armários transladaria os objetos, ícones e vestimentas ritualísticas e religiosas para os párocos realizarem as missas do dia.
No templo, os incipientes raios de luzes do sol, através dos vitrais coloridos, projetavam miríades de cores refletidas nas paredes e pisos para o olhar solitário e privilegiado de Dona Cotinha. Quase todos os dias as manhãs de Dona Cotinha eram consagradas aos serviços eclesiásticos. Suas tardes eram consagradas a preparar e enrolar exemplares da culinária italiana sobre a sua mesa caseira. Gnochi, raviolli, spaghetti todos, feitos com boa farinha, olho e muita técnica artesanal.
Eram servidos, na “Colônia”, entre deliciosos molhos e acompanhamentos vegetais em pratos festivos em datas e efemérides religiosas e matrimoniais. Não apenas para os privilegiados locais mas também para os que vinham “ de fora”.
Dona Cotinha também cantava no Coral da Comunidade. Seu ato fora dos cânones conservadores era jogar tranca com as amigas. Vez em quando fumar um charuto do falecido ex-marido e no máximo uma partida de truco.
Em sua vida privada um rigor e assepsia impecável. Jamais retribuíra a um aceno e ou elogio de cunho amoroso ou sexual. Dona Cotinha era a referência de viúva religiosa e celibatária. Apesar de sua disposição e corpo ainda sedutores.
Dona Cotinha em confiança e por suas habilidade administrativas, naquela manhã foi encarregada, por seu grupo religioso, de levar para o consertar alguns eletrodomésticos e eletrônicos avariados até a Lojinha do Chaveiro e de Reparos Eletrônicos.
Com certa dificuldade pelo volume de equipamentos avariados e auxiliada por um moto boy Dona Cotinha chegou ali na Avenida Manoel Ribas. Defronte a famosa Padaria. E ao lado de famosa Loja de Chocolates.
Dona Cotinha e o Jovem Motoboy colocaram com cuidado sob a mesa do atendente todos os eletrodomésticos a serem recuperados por técnicos na loja de reparos eletro- eletrônicos.
Disse -lhe o atendente da Loja:
– Olá Dona Cotinha! Tudo bem com a Senhora!? Fique tranquila, vamos olhar e reparar todos com carinho. A Senhora merece! Volte aqui daqui a sete dias na próxima semana.
-Deus lhe acompanhe e guarde – respondeu-lhe.
Uma semana após, religiosamente no mesmo horário, Dona Cotinha regressou à loja de reparos para pagar e receber de volta os aparelhos consertados.
Estava acompanhada de duas outras paroquianas e um diácono tesoureiro.
O atendente:
– Aqui estão os ventiladores. Os liquidificadores. A batedeira de bolo. O aspirador de pó. O ferro de passar roupas. O air frayer. Os controles de portões. Os controles da Tvs. Tudo testado e funcionando…. mas…mas… ( com a voz trêmula….) Dona Cotinha, esses dois vibradores e aparelhos sexuais nós não consertamos.
E os colocou também sobre a mesa de entregas.
Dona Cotinha levou as mãos a boca e aos olhos perplexa e ruborizada. As irmãs paroquianas também perplexas a fulminaram com olhares de reprovação antes de exclamarem em uníssono.
– Benzadeus ! Cruz Credo! Bem que nós desconfiávamos! Sua lambisgóia velhaca!
O diácono tesoureiro sentenciou, com o dedo em riste e olhar fulminando Dona Cotinha!
– Eu pago tudo agora! Menos essa pouca vergonha de vibradores. Isso é coisa de excomungada! Cruz Credo! Vá de retro Satanás!
Pagou os eletrodomésticos reparados e os levou em sacolas. O Diácono e as duas paroquianas saíram do local, aos berros praguejando e amaldiçoando Dona Cotinha. Esta, pálida balbuciava:
– Não fui eu! Deve ser coisa do motoboy… tudo isto por causa de dois vibradores apenas… Meu Deus….
Abandonada ali, solitária e sem defesa, trêmula, sentou-se em um banquinho e bebeu um copo dágua que lhe ofereceram para acalmar-se. Agora como seria a Inquisição sobre mim, pensava aflita. Que farei?? Enquanto se recuperava das emoções, viu adentrar ao recinto da Loja de reparos, outra cliente, uma senhora alta, bem vestida, com um jaleco branco, loira idosa.
Mirando a mesa do atendimento e entregas, perguntou ansiosa ao atendente:
– Nossa! Que lindos vibradores! Estão à venda!? Quanto custam? Posso levar?!!
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