
Os radares do Sindacta II teriam registrado movimentos intermitentes e descontínuos de luzes coloridas e voadoras sobre o lago da Hidrelétrica de Itaipu. As hidrelétricas de Foz do Areia, Salto Santiago e Parigot de Souza também teriam registros de ocorrências de sobrevoos não explicados sobre as áreas de barragem e lagos.
Seriam estes os motivos para os frequentes apagões e blackouts nas residências, escolas e hospitais do Paraná? — perguntara-se um operador de plantão.
Melhor investigar. Por essa razão, ligou o alerta geral!
A Base Aérea de Canoas teria sido acionada, e seus velhos caças Mirage teriam decolado rumo aos céus do Paraná. Na Base Aérea de Anápolis, os novos caças Gripen teriam sido ativados, rumando especialmente ao Sul, para a região metropolitana de Curitiba.
A secreta Força Delta dos EUA no Paraguai também teria entrado em alerta, e seus caças F-22 foram posicionados para decolagem rumo ao Leste.
— Que diabos são essas luzes? Esses objetos voadores não identificados? — perguntava-se o major responsável pelo plantão do Sindacta II naquela noite, de olho na TV, torcendo por seu time em um clássico de futebol na bem-iluminada Arena da Baixada.
— Puta que pariu! Logo agora que o centroavante do Athletico ia bater o pênalti… acabou a luz! Apagou tudo! Porraaaa! — exclamou na sala de operações, diante dos visores dos computadores e radares.
Curitiba estava sob o breu da noite. Apenas as luzes dos automóveis nas vias de trânsito. Isto é, apenas no chão. Pois, desde o alto, algumas luzes coloridas giravam em trajetórias desordenadas e velocíssimas.
Algo inesperado se desenvolvia nas órbitas estelares. Desde o Cinturão da Nebulosa de Órion, as estrelas brilhantes que formam a figura do Caçador — desde a Antiguidade humana nominadas Alnitak, Alnilam e Mintaka — enviavam naves espaciais em direção à Terra, mais precisamente às coordenadas 25º25’40″S e 49º16’23″W.
Isso intrigou os operadores do sistema de controle do tráfego aéreo, pois são as coordenadas geodésicas de Curitiba. Entretanto, os caças e os sistemas de defesa antiaéreos terráqueos ainda são insuficientes para se contraporem às altas e inalcançáveis tecnologias dos alienígenas — em um hipotético confronto.
Mesmo porque esses já estão entre nós, com alguns seres chamados “reptilianos” infiltrados na plebe humana.
Suspeita-se que alguns líderes mundiais — e até líderes políticos locais paranaenses — sejam parte dessa comunidade alienígena. Basta vermos, na elite, sua linhagem de nepotes políticos e administrativos: alguns que não envelhecem e estão sempre jovens nas campanhas, apesar de octogenários — e outros até centenários.
Pois bem. Naquela fatídica noite, nosso repórter fotográfico e aquarelista — que covardemente foi à Catedral rezar, com medo do fim dos tempos (que, como veremos a seguir, não ocorreu) — encontrava-se milagrosamente instalado em uma das abóbadas da Catedral de Curitiba. De lá, conseguiu registrar uma dessas naves quando sobrevoava a cidade, sufocando-nos com áudios e advertências ameaçadoras.
O que sabemos, de registros extraoficiais, é que uma dessas aeronaves deslocou um pequeno módulo para aterrar ali, no Centro Histórico. E um conhecido professor e ufólogo da cidade foi nomeado pelas autoridades municipais para negociar com os alienígenas.
Dentre as exigências dos visitantes oriundos de um planeta muito evoluído da constelação de Órion, estava a coleta de espécimes da nossa fauna urbana — para gerar alimentos em seu planeta. Precisariam, segundo eles, de uma grande quantidade de Mus musculus e Rattus norvegicus, itens fundamentais na base alimentar de sua civilização.
Eles também exigiram coisas para nós pra lá de absurdas. Então, após muitas horas de ameaças e vai e vem de negociações… quando bateu aquela fome — aquela fominha geral — lhes foram apresentados quitutes da cozinha mineira: feijoada com carne de porco, tutuzinho à mineira, goiabada cascão com queijo fresco de Minas e muitos potes de doce de leite.
Inserimos no pacote negocial também a pinga de Morretes e as balas de banana de Antonina. Adoraram todas as iguarias! A tensão diminuiu e o clima apaziguou. Levaram até um pôster com a foto do Ziraldo e alguns de seus livros.
Fui chamado a colaborar e os atendi. Tremia mais que palanque em banhado, mas me reergui e os tranquilizei ainda mais, presenteando-os com dois LPs de Milton Nascimento — um de Lô Borges, outro de Beto Guedes — e a discografia completa do meu amigo Arrigo Barnabé.
Presenteei-os também com a trilha do filme Oriundi, que adoraram, e com a de Clara Crocodilo.
E, por fim, antes de sua partida, disseram-nos que, em seus mapas, sobre as coordenadas de Curitiba havia algo muito similar à sua constelação de Órion. Seus registros evocavam a região do Boqueirão.
Por comunicações telepáticas e quânticas com algumas de nossas evoluídas autoridades da URBS e do IPPUC, souberam da necessidade de nossa capital ter um sistema de transporte urbano superavançado. Assim, estariam nos doando um interestelar sistema de transporte aos usuários que quisessem usufruir do insuperável BUS TO ÓRION — ou BUS TAKE TO ÓRION — a ser instalado no Buquei-Órion, ou seja, no Boqueirão.
Conseguimos entender que será implementado desde o Boqueirão, né?!
Com uma enorme quantidade de comida e especiarias mineiras, adentraram em suas espaçonaves e escafederam-se pelos céus siderais. Ficamos atônitos e felizes!
Sobre os caças brasileiros e os do Tio Sam, nada mais soubemos.
Quanto aos apagões de eletricidade… bem… esses, nós sabemos…
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