À primeira vista, eram apenas dois jacus comuns, desses que pousam nos muros do quintal, bicam uma fruta esquecida e olham para o nada com aquela expressão de quem não entendeu bem o século XXI.
Um casal discreto, penas austeras, andar solene. O erro estava justamente aí: nada mais suspeito do que um jacu que observa demais e canta de menos.
O que poucos sabem — e menos ainda desconfiam — é que aquele casal de jacus que visita nossos quintais não está ali à toa. Eles são, na verdade, agentes altamente treinados de serviços secretos internacionais. Espiões de alto escalão. Pena que ninguém leva a sério um jacu.
Enquanto você rega as plantas ou discute política no churrasco, eles escutam tudo. Microfones naturais embutidos no bico, tecnologia bio-orgânica de última geração, desenvolvida sabe-se lá por quem. Um pigarro aqui, um comentário atravessado ali, uma fofoca de vizinho — tudo devidamente catalogado e enviado para centrais de inteligência espalhadas pelo globo.
O chilrear aparentemente desinteressado é, na verdade, código criptografado.
Os jacus são mais eficientes que o Google, mais eficientes que o WhatsApp, Telegram, Signal etc. São assíduos frequentadores dos jardins de jornalistas, advogados, juízes, desembargadores e dos palácios governamentais.
Mas não pense que vivem apenas de espionagem suburbana. Fora do expediente, o casal de jacus frequenta o verdadeiro jet set internacional.
Nada de galho seco e alpiste vencido. Em Washington, são vistos em recepções discretíssimas, pousados sobre lustres de embaixadas, degustando canapés e ouvindo segredos de Estado entre uma taça e outra de champanhe raríssimo — daqueles que nem aparecem na carta.
Em Londres, circulam com naturalidade entre clubes privados, onde ninguém repara em dois jacus bem-vestidos, desde que saibam jogar pôquer. E como jogam! Blefam com o olhar vazio típico da espécie, confundindo lordes, generais e magnatas.
Em Tel Aviv, preferem mesas mais tensas, cheias de estratégia e silêncio, onde uma simples bicada na mesa pode significar tudo.
Roma os recebe com massas impecáveis e joias discretas, adquiridas sem nota fiscal, claro.
Paris é território afetivo: lá, o casal se permite um romantismo calculado, passeando às margens do Sena, comentando baixinho sobre moda, espionagem e a decadência moral do Ocidente.
Em Miami, relaxam. Camisas abertas, óculos escuros e champanhe servido em baldes indecorosamente grandes.
Curitiba e Balneário Camboriú entram no roteiro com igual importância estratégica. Afinal, é preciso manter a base local. Em Curitiba, observam tudo em silêncio filosófico, entre parques, quintais e cafés. Já em Balneário, misturam-se aos endinheirados, jogam tranca até o amanhecer e avaliam, com rigor técnico, quem fala demais depois da terceira garrafa.
São consumidores exigentes: só comem do bom e do melhor, apreciam joias de procedência duvidosa e champanhes tão raros que nem o garçom sabe pronunciar.
A tranca, jogam como mestres antigos; o pôquer, como se cada carta fosse um documento confidencial.
Quando voltam ao quintal, reassumem o papel de jacus comuns. Bicada na goiaba, bicada na jaboticaba, voo curto, olhar distante. Você passa, acena, acha graça. Mal sabe que acabou de ser observado, analisado e arquivado.
No fundo, o maior triunfo do casal de jacus não é a espionagem internacional nem as festas luxuosas. É a camuflagem perfeita: ninguém suspeita de um jacu. E, justamente por isso, eles sabem de tudo.
E muito cuidado ao citar — ou xingar — este ou aquele casal seu desafeto:
— Ah, esses são uns jacus!
Pode lhe custar muito caro.
Melhor tratar bem seus conhecidos e amigos jacus.
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