Naquela casa de esquina, onde o portão rangia como se contasse segredos ao vento, havia um mistério maior do que o sumiço das tampas de panela: o desaparecimento — e reaparecimento — das meias. Moravam ali cinco criaturas humanas e uma criatura encantada.
O pai, profissional liberal aposentado de si mesmo (porque oficialmente ainda trabalhava), era um senhor de passos lentos e ideias rápidas. Gostava de dizer que já tinha visto de tudo na vida — crises econômicas, mudanças de moeda, moda de calça boca-de-sino — mas jamais compreendera o fenômeno das meias. Jurava que colocava o par completo na gaveta, dobrado com método quase científico. Ainda assim, pela manhã, lá estava ele, segurando uma meia solitária, furada bem no dedão, como se o dedo tivesse decidido pedir independência.
A mãe, executiva dedicada de uma multinacional, vivia em reuniões virtuais, planilhas infinitas e cafés requentados. Sua rotina era tão cronometrada que ela sabia exatamente quantos minutos levava para procurar uma meia antes de declarar:
— Não é possível! Eu acabei de guardar isso!
Os três filhos adolescentes completavam o quadro do caos têxtil.
O rapaz, alto e distraído, praticava esportes com a intensidade de quem acredita que o mundo pode ser salvo com um bom chute a gol. Suas meias voltavam da quadra em estado de guerra. Às vezes sumiam na mochila. Outras vezes, apareciam na beira da piscina, abandonadas como náufragas cansadas.
A filha do meio, dramática e filosófica, perdia meias como quem perde ilusões amorosas: frequentemente e com certo ar de poesia. Encontrava uma dentro do tênis, outra no fundo da gaveta, uma terceira misteriosamente misturada às toalhas.
Já a caçula, prática e veloz, tinha o talento especial de tirar as meias em qualquer canto da casa — sofá, escada, varanda — criando um rastro que poderia ser seguido como migalhas de pão.
E então havia a Fada.
A Fada Costureira do Bem não tinha asas cintilantes nem varinha mágica com estrela na ponta. Usava um avental discreto e carregava uma agulha tão fina quanto um fio de luar. Visitava a casa todas as noites, quando o silêncio já havia vencido as notificações do celular e os suspiros da televisão.
Entrava pela fresta da janela da lavanderia, pousava delicadamente sobre a pilha de roupas e suspirava — não de cansaço, mas de compreensão.
— Ah, as meias humanas… — murmurava.
Com paciência ancestral, recolhia as furadas, as órfãs de par, as esquecidas na borda da piscina (que misteriosamente apareciam dobradas sobre a máquina de lavar). Sentava-se sobre a tábua de passar e começava seu trabalho.
Ponto invisível.
Remendo discreto.
Costura firme, porém suave.
O buraco no dedão do pai desaparecia como dívida quitada. A meia social da mãe recuperava a dignidade corporativa. As meias esportivas do rapaz ganhavam reforço estratégico no calcanhar. As das moças voltavam à vida, alinhadas, macias e silenciosamente reconciliadas com seus pares.
A Fada nunca julgava. Sabia que cada furo carregava uma história: um dia longo demais, uma corrida apressada, uma dança improvisada na sala, uma preocupação que fez alguém arrastar os pés sem perceber.
Ao terminar, organizava tudo com precisão quase maternal. Deixava os pares completos, dobrados com carinho. Nunca era vista. Nunca era agradecida — ao menos não diretamente.
Pela manhã, o espetáculo se repetia.
— Ué! — dizia o pai, examinando a meia intacta. — Tenho certeza de que estava furada.
— Estranho… — comentava a mãe, já atrasada, mas satisfeita. — Deve ter sido impressão minha.
— Eu juro que perdi essa meia! — afirmava o rapaz.
— Isso é sobrenatural — declarava a filha do meio, com convicção poética.
A caçula apenas dava de ombros e saía correndo.
E assim a vida seguia, entre reuniões, boletins, jogos, preocupações e risadas. Ninguém percebia que, mais do que costurar tecido, a Fada alinhavava pequenas harmonias. Em cada ponto invisível, havia um gesto de cuidado. Em cada remendo, uma delicada lembrança de que alguém — ou alguma coisa — zelava por eles.
Certa noite, enquanto trabalhava na meia mais castigada da semana (pertencente ao rapaz, vítima de um campeonato improvisado na chuva), a Fada fez uma pausa. Observou a casa em silêncio: o pai adormecido com um livro no peito, a mãe preparando mentalmente a reunião do dia seguinte, as filhas rindo baixinho no quarto, o rapaz sonhando com gols heroicos. Sorriu.
Porque sabia que, embora perdessem meias, raramente perdiam o essencial.
E continuou seu trabalho. Ponto após ponto, noite após noite, a Fada Costureira do Bem mantinha aquela família de pé — literalmente. Pois, convenhamos, não há estabilidade emocional possível quando o dedão insiste em escapar pelo buraco da meia.
E se algum dia você encontrar sua meia misteriosamente remendada, sem lembrar quando a consertou, não se assuste.
Pode ser apenas a Fada, trabalhando em silêncio. Em paz. E com excelente acabamento.
Porém se vc não tem Fada procure agulhas, linhas um dedal, talvez óculos para ver melhor e vá costurar suas próprias meias. Não as deixe furadas por aí.
Aja ! Sem meias furadas nas palavras e ações.
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