Venderia todo o café produzido nas colônias cafeeiras do interior brasileiro, de alta qualidade. Sim, toda a colheita beneficiada — a “Escolha”, assim a chamavam os caipiras roceiros e agricultores. O melhor café era assim denominado.
As centenas de sacas de café eu as embarcaria nos vagões bem protegidos dos trens da Maria Fumaça, na Estrada de Ferro Sorocabana, desde o Distrito de Laranja Doce, SP, no sudoeste, com destino ao leste, rumo aos armazéns gerais do Porto de Santos. Deste porto brasileiro, em navios cargueiros, o agora meu café seguiria para o Porto de Trieste, na Itália.
Essas sacas de café “tipo exportação” eu as venderia por dez vezes mais do que pagáramos aos carcamanos agricultores que o produziram no Brasil. Eu tinha que gargalhar quando lhes pagava, em réis, a sua safra — e receberia em liras ou dólares no continente europeu. Às vezes, em libras esterlinas mesmo, já que a inglesa Dinastia de Windsor era amiga da italiana Dinastia de Savoia, apesar das nossas disputas colonialistas na África.
As garrafas de champagne francesa que eu beberia nos hotéis e cassinos europeus borbulhavam quase suando dentro das taças de cristal da Bohemia, que eu levaria extasiado aos lábios para o deleite de meus paladares.
Lembrava-me, sem culpa, de ter visto o suor escorrendo pelas frontes e faces dos agricultores sob o inclemente sol dos trópicos, lavrando e capinando os cafezais com as enxadas afiadas em suas mãos calejadas.
Deus quis assim! Muitos pobres e trabalhadores ignorantes, e outros como eu, intermediando as vendas de seus produtos — e, claro, letrado e esperto, eu sabia como lucrar ainda mais quando, após a travessia do Oceano Atlântico, aportássemos em Trieste.
Naquela primavera de 1936, o Reino da Itália estava esfuziante, laborioso e com uma política econômica que nem o Papa Pio XI conseguiria contestar. Com os camisas-negras no poder, fazíamos o melhor.
Eu sabia que Luigi Domenico Meneghetti, em São Paulo, era um ladrão de galinhas comparado a mim. Embora folclórico e bem-sucedido, esse imigrante italiano não era nada perto do que eu amealhara com os agricultores produtores de café e suas safras, que eu venderia em Trieste. Ainda paguei todos os impostos ao Reino de Savoia.
Adentrei o Reino dos Savoia como um súdito leal e honesto. Recebi uma grande soma em liras. Paguei também o dízimo para nossos irmãos de Napoli. Com o dinheiro que me sobrou, fui fazer o que gostava: dirigir aqueles bólidos barulhentos. Os novos carros de corrida eram o meu prazer. Comprei um Alfa Romeo 8C 2900 cc. Junto vieram mecânicos, suprimentos e toda a infraestrutura para correr nas pistas italianas. Tive que pagar um extra ao Touring Club d’Italia para obter minha “Patente de Autista Professionale”.
Inscrevi-me no Mille Miglia de Itália em 1936.
Cheguei a Brescia, “La Leonessa d’Italia”, em 25 de março de 1936, uma quarta-feira. Hospedei-me no Hotel Igea, Viale Stazione nº 15. Minha equipe e o Alfa chegaram depois de uma semana, e começamos os preparativos para a corrida nas garagens próximas. A Mille Miglia de 1936 iniciou-se com a largada em 26 de abril, um domingo, com a presença do Duce e toda a cúpula do poder italiano.
Por causa deles, e dos quesitos de segurança, tive que sair do hotel.
Fui para outro, de menor conforto; entretanto, levei minhas champagnes francesas e caviar russo e, sobretudo, minhas amigas do teatro de revista e do cinema italiano. Assia Noris, que fizera Dariola e atuaria em La Signora di Montecarlo, esteve conosco vários dias em Brescia e no Lago de Garda. Velejamos e nos deliciamos com as maravilhas da região.
Ela era muito curiosa e me perguntava sobre os cafezais do interior, o povo do Brasil, seu samba no Rio e na Bahia. Já tinha ouvido e gostado de um disco em 45 rpm com a voz de Carmen Miranda — “No Tabuleiro da Baiana” — e até “O Ébrio”, com Vicente Celestino. Antes de mim, tivera um namoro com um vice-cônsul brasileiro em Roma, que a seduzira também com nossos afrodisíacos tupiniquins. Já que Getúlio flertava com Benito…
No domingo fatídico da corrida, eu estava muito nervoso. No meio daqueles pilotos profissionais poderiam descobrir que eu era mais um blefe endinheirado ali, sorrateiramente, entre eles. Mas fingi ser parte dessa elite e, desde o grid, larguei na décima quarta posição, graças à minha equipe de profissionais contratada e ao Alfa Romeo 8C 2900 que eu comprara. Conseguimos chegar a Roma; porém, voltar a Brescia foi muito difícil.
No trajeto de retorno, quando paramos para uma troca de pneus, meu navegador, Massimo Splendore, abandonou nosso Alfa e saiu correndo para nunca mais nos vermos. Fiquei perplexo! Soube dias depois que fora subornado por um concorrente.
Na segunda-feira, 27 de abril, acabou meu sonho de chegar entre os primeiros na Mille Miglia de 1936.
A corrida terminou assim: vencida pelos pilotos Antonio Brivio e Carlo Ongaro, em seu Alfa 8C 2900; em segundo lugar, Giuseppe Farina e Stefano Meazza, com outro Alfa; em terceiro, Carlo Stefani e Carlo Pintauda, também em um Alfa.
Resolvi voltar ao Brasil, comprar café beneficiado dos ingênuos imigrantes produtores e revender as milhares de sacas na Europa. Superfaturadas, eu viveria décadas de luxúria e prazeres. Teria criado um banco com a acumulação desse capital cafeeiro.”
Claro que o acima é uma ficção!
Mas o belo e tecnicamente impecável traçado do Autódromo Internacional do Paraná, em Pinhais, criado pelo talentoso e visionário arquiteto Lolô Cornelsen, foi uma realidade que viabilizou grandes momentos do automobilismo paranaense e brasileiro.
Vivas ao Lolô Cornelsen e às suas obras. Que saibamos preservá-las!!!
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