Numa pacata vila da China Imperial, encostada num grande rio barrento e paciente, onde a maior emoção da semana era a chegada da caravana do sal e a pescaria coletiva de carpas gordas, desembarcou o Circo do Dragão Errante, prometendo maravilhas dignas do próprio Imperador.
E cumpriu — só não exatamente como estava escrito no pergaminho afixado na praça.
Logo no primeiro dia, um vento atrevido, desses que não pedem autorização nem ao Céu nem à Terra, resolveu se exibir mais do que o ilusionista. Fuuuuu! No meio do espetáculo, decidiu participar sem convite e arrancou o grande pano de seda do circo com a empolgação de quem puxa toalha de banquete em casamento arranjado.
A seda subiu, rodopiou e saiu flutuando pela vila, atravessando telhados curvos, assustando patos imperiais, pombos confucianos e provocando gargalhadas nas crianças, que juraram ter visto “o maior dragão voador do Império”. O público ficou olhando para o céu, convencido de que aquilo fazia parte de algum número celestial aprovado pelo Ministério dos Rituais.
Na jaula, o domador de leões — animal exótico trazido de terras tão distantes que ninguém sabia pronunciar o nome — percebeu que o bicho não tinha lido o roteiro. O domador chamava-se Mestre Liu Toping, famoso pelo topete engomado com óleo de camélia e pela pose de herói das óperas de Pequim, embora seus joelhos tremessem como bambu em tempestade.
Até aquele momento, Liu Toping estalava o chicote com elegância, como quem rege uma orquestra invisível de gongs. O problema foi que, com o vento, o chicote estalou… e o leão resolveu estalar também os dentes.
Mestre Liu suou frio, quente e morno ao mesmo tempo. Tentou manter a pose:
— Zuo xia! — ordenou, com voz firme por fora e alma em liquidação por dentro.
O leão levantou-se, espreguiçou-se lentamente e chegou tão perto que o domador pôde contar os dentes, os bigodes e até os pensamentos do animal. Nesse instante, Liu Toping pensou na infância, na mãe, no arroz esquecido no fogo e no seguro de vida que jamais contratara com o escriba do vilarejo. A plateia prendeu a respiração.
O leão, então, bocejou com desdém, virou-se e sentou-se, claramente mais interessado no vento do que no homem. Mestre Liu, digno representante da coragem imperial, desmaiou em público — algo raríssimo, mas plenamente compreensível.
Lá em cima, os acrobatas erraram o tempo do salto e aterrissaram direto na rede de segurança, que agradeceu por finalmente ser lembrada. A contorcionista Mei Flor-de-Lótus, tentando se dobrar em forma de nó auspicioso, travou as articulações e ficou imóvel, parecendo uma escultura moderna que ninguém entendia, mas todos aplaudiam por respeito ancestral.
Enquanto isso, os palhaços entraram em ação. Bao Pipao tropeçou na própria túnica; Guo Faru, logo atrás, tentou acalmar o público com um megafone de bambu que só emitia apitos semelhantes ao de um pato asmático. A plateia, entre sustos e gargalhadas, já não sabia se ria, meditava ou fazia reverência.
Foi então que os palhaços perceberam que o caos estava solto e decidiram combatê-lo com sua única arma: a confusão profissional.
— Respeitável público! — gritou Bao Pipao. — Tudo isso é cuidadosamente ensaiado!
— Ensaiado coisa nenhuma! — respondeu Guo Faru, após tropeçar no próprio pé. — Eu faltei nesse ensaio!
Tentaram distrair o público com sorrisos exagerados, mas Pipao escorregou numa bola colorida usada num antigo número com focas do sul, que ninguém lembrava de ter visto ali. Faru tentou explicar a situação ao megafone, mas o aparelho só fazia quá-quá-quá, aumentando ainda mais as gargalhadas.
— Fiquem tranquilos! — gritava Pipao, correndo em círculos.
— Se alguém encontrar a grande seda do circo, favor devolver! — completava Faru, com toda a seriedade possível para um palhaço de calças largas.
Foi então que a banda imperial — sábia como uma avó taoísta e animada como feira de Ano-Novo — entrou como salvação coletiva. Os tambores rufaram, o suona chorou alegre, os címbalos tilintaram e uma melodia festiva explodiu no ar.
O público, antes apavorado, começou a bater palmas, depois a dançar, depois a esquecer completamente que estava sem teto, com um leão solto e um domador em estado decorativo no picadeiro. Em poucos instantes, o medo virou festa, a arquibancada virou salão de dança e até o leão começou a balançar o rabo no ritmo descontraído da multidão.
No final, ninguém se feriu, ninguém reclamou da seda voadora; os acrobatas deram autógrafos com pincel e tinta, Mei Flor-de-Lótus destravou com um giro milagroso e os palhaços foram carregados nos ombros como heróis populares.
A apresentação terminou sem teto, mas com todos de coração leve. Desde aquela vila às margens do grande rio, ficou provado que, quando a música começa, até o desastre aprende a dançar.
No ano seguinte, o Circo do Dragão Errante retornou com outro domador — ninguém jamais soube o paradeiro de Mestre Liu Toping —, os mesmos animais, os mesmos palhaços e a mesma banda, para alegria geral de viajantes e moradores.
E todos passaram a entoar o feliz refrão local: pé no barro… chá quente… vento do rio… e vida que segue.
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