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A arte de rir de si mesmo

26/12/2025
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Invejo o humorista David Chapelle. Não por enfileirar piadas em especiais da Netflix a respeito de gays, deficientes e trans – estes últimos o seu principal filão, mas pela liberdade que ele tem em dizê-las. A primeira emenda da Constituição dos EUA garante que o humorista não seja vítima de, sei lá, ações judiciais de um homem que pede para ser chamado de mulher. O caso, de fato, sequer prosperaria no judiciário americano.

A punição a Chapelle é informal. Vem através do cancelamento, uma pena para quem desafia a polícia do pensamento nas redes sociais. Para o humorista, no entanto, a expiação não dura mais do que cinco ou seis semanas. Essa gente gosta de bater, mas gosta mais de apanhar. Sabe que se Chapelle brandir o chicotinho em seu lombo, lhes dará 15 segundos de fama. É isso mesmo, 15 segundos.

Nos EUA, Chapelle poderia repetir a piada daquele humorista brasileiro que afirmou que comeria a cantora sertaneja grávida e sua filha, ainda na barriga, sem medo de que o céu lhe caísse sobre a cabeça.

O humor funciona assim: você diz coisas em que não acredita para fazer a piada e o público ri pelos motivos certos ou errados. Aqueles que censuram e botam a boca no trombone, provavelmente se veem retratados.

Ok. Isso é duríssimo para quem sofre com preconceitos blá blá blá, mas não deixa de ser uma anedota, ainda que escandalosa. Reclamam os bichas, gagos, cegos, surdos, anões, pernetas, portugas, negros, amarelos, paranistas, aleijados – note que eu usei apenas termos proibidos –, mas isso não quer dizer que o comediante, ou qualquer um, deva ser levado ao tribunal, debaixo de vara, por causa de uma piada que alguém não gostou.

Não é injúria, não é infâmia, não é calúnia. É piada. Quem se sentir ofendido, pode muito bem trocar de canal.

Blockbusters

Shows de comediantes como os de Chapelle e o de Ricky Gervais – o inglês de quem sou especialmente fã (ele é criador do “The Office”) são blockbusters na Netflix. Gravados em teatros que comportam 20 mil pessoas, os ingressos custam caro, 80 dólares (R$ 440) em média, e são disputados a tapa.

Campeão do decatlo nas olimpíadas de 1976, o norte-americano Bruce Jenner tornou pública sua identidade como mulher em 2015, aos 68 anos. Ele se casou três vezes, inclusive com uma das Kardashian, teve 6 filhos e mudou o nome para Caitlyn Jenner.

Em que lugar do mundo isso não é uma piada? Só para efeito de comparação: a internet explodiu em risadas com a história do Tio Paulo, no mesmo dia em que o velhinho, já morto, foi levado a uma agência bancária para assinar um empréstimo pré-aprovado.

Bruce agora é Caitlyn Jenner, tem 76 anos, e está mais para Rogéria do que para Caitlyn. Por que isso não é engraçado? Contratado para apresentar o “Globo de Ouro” em 2016, Gervais era temido pela nata de Hollywood por causa de seu humor indiscreto.

Naquele ano, ele se apresentou mais contido. “Serei bonzinho “, ele disse. “Eu mudei, obviamente. (Pausa) Mas não tanto quanto Bruce Jenner, que agora é Caitlyn”, emendou. Jenner estava presente na premiação.

Novo alvo: deficientes

Chapelle fez diferente. Atacado pelos trans, ele abriu seu último show exibido pela Netflix (“Dreamer”, 2023), anunciando que a comunidade não seria mais alvo de suas piadas.

Ora em diante, ele se concentraria nos deficientes. Em seguida, pôs abaixo o teatro contando piadas sobre o ex-congressista Madison Cawthorn, que é paraplégico, cadeirante e, ficamos sabendo depois, estava na plateia.

Cawthorn não precisava de 15 segundos de fama, mas os ganhou mesmo assim. E pelo melhor motivo do mundo: a capacidade de rir de si mesmo. Os judeus sabem disso há milhares de anos.

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