Me perguntam se Neymar deve ser convocado para a Copa de 2026. Sem dúvida. Se o meia ficar fora da lista de convocados do italiano Carlo Ancelotti, não teremos a quem imolar. Ou saudar, porque entre o céu e o inferno basta um tropeço
De volta ao Santos, Neymar acaba de se recuperar da terceira lesão no ano. Fez apenas 24 jogos, marcou seis gols e deu três assistências. Nas 15 partidas em que esteve em campo no Brasileirão, recebeu sete cartões amarelos e um vermelho. A maioria por reclamação. E daí?
Neymar pai diz que o filho se tornou uma marca. Isso mesmo: uma marca. Neymar Jr. xingou torcedores brasileiros depois da conquista do ouro olímpico no futebol masculino em 2016, foi acusado de fraude fiscal na Espanha e virou piada internacional por seu estilo ‘cai cai’ na Copa de 2018. No início de carreira, protagonizou um bate-boca com o treinador Dorival Júnior, que o teria impedido de bater um pênalti a favor do Santos. A atitude fez com que René Simões, o técnico do time adversário, temesse pelo futuro do futebol brasileiro. “Estamos criando um monstro”, disse. Nada, no entanto, que riscasse o verniz do craque.
Fora das quatro linhas
Notório playboy de vida atribulada e festiva, Neymar Jr. tem 213 milhões de seguidores nas redes sociais. A maior parte deles com interesse especial no que acontece fora e não dentro das quatro linhas do campo.
Neymar foi flagrado brincando no Carnaval do Rio enquanto se recuperava de uma lesão. Bom. Neymar traiu a noiva grávida com outra mulher. Ótimo. Neymar foi acusado de estupro. Excelente.
Não há amoralidade nisso. O Brasil precisa dos “canalhas honestos”. Neymar tem sete meses para provar que pode jogar o mundial de seleções na América do Norte. Ancelotti diz que ele está na lista de convocáveis e continua sendo observado. Nos bastidores, um séquito de admiradores se movimenta. Raphinha, ex-lateral direito de Flamengo e São Paulo, apela para que o jogador não seja esquecido. “Sem ele, fica difícil ganhar a Copa”, diz. Já o volante Casemiro, que tem vaga garantida na competição, afirma que Neymar é indispensável porque “pode decidir a qualquer momento”. A idade do meia santista não é um empecilho. Ele tem 33 anos. A mesma de Casemiro.
Na canela
A verdade é que nenhuma seleção que se preze pode prescindir de um canalha. E Neymar gosta do rótulo.
Quando foi que ganhamos um Mundial com bom-mocismo? Aos 77 anos, o zagueiro uruguaio Atilio Ancheta é testemunha da cotovelada que lhe desferiu Pelé na semifinal da Copa de 70. O juiz não viu. Ou fingiu que não viu.
Torço o nariz para as fotos que mostram o agora pastor Kaká, ganhador do prêmio de melhor jogador do mundo, celebrando culto em igreja evangélica. Não se trata da imagem, mas da percepção. Chegará o dia em que os jogadores brasileiros, vítimas de uma botinada na canela, oferecerão a outra canela?
Eu sou Deus
Nada contra os jogadores que apontam o céu e se ajoelham para agradecer o gol do seu time (como se os adversários não merecessem a mesma benção). Mas, na hora do jogo, é melhor apelar ao diabo.
Em tempos mais sacudidos e risonhos, os jogadores faziam dancinhas provocativas e carregavam consigo alegorias para provocar os adversários. Hoje, até o drible é merecedor de advertência (ó vida).
Os mais velhos hão de lembrar do atacante Romário comemorando o gol com a simulação daquilo que Maria Chiquinha fez atrás da horta. Romário, aliás, não era de agradecer a Deus. Ele era Deus.
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