
O padre Adelir de Carli levantou voo de Paranaguá sustentado por um precário conjunto de mil balões de festa cheio de gás hélio. Foi em 2008. À época, o vice-presidente da Confederação Brasileira de Balonismo, Leonel Brittes, afirmou que Carli deveria ter sido impedido pela Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac. A agência é responsável pela autorização de sobrevoos caso seja solicitada uma reserva de espaço aéreo. O padre não fez a solicitação. A Anac deu de ombros.
A cidade inteira de Paranaguá, no litoral do Paraná, tinha conhecimento do voo do padre da paróquia. A façanha foi divulgada exaustivamente na imprensa e esta não era sua primeira aventura em balões. Em janeiro daquele mesmo ano, Carli havia viajado de Costa Oeste do Paraná à Argentina em um trajeto com duração de quatro horas. A Anac sabia.
Instrutor de voo livre em Curitiba, Márcio André Lichtnow contou na ocasião que o padre participara de seu curso em 2005, três anos antes, mas foi desligado depois que se mostrou “um perigo para si mesmo”.
“Eu o aconselhei a procurar outro esporte, porque o de ação não perdoa irresponsabilidade e exibicionismo”, afirmou.
Lichtnow disse ainda que o padre o havia procurado, após o primeiro voo, para pedir a ele que baixasse informações para o seu GPS – um modelo, segundo o instrutor, mais indicado para caminhadas.
Tempo ruim
Foi então que Carli revelou a Lichtnow que planejava decolar de Paranaguá com destino a Cascavel. “Minha pergunta foi: você pretende pousar na África do Sul? Porque os ventos Oeste predominam em altitudes acima de 2 mil metros no litoral e você vai parar no meio do oceano”. O padre teria retrucado: “Eu já calculei tudo e sei o que faço”. Mas não sabia. O instrutor o aconselhou a desistir da viagem. Disse a ele que as condições do tempo eram ruins, que enfrentaria uma viagem a seis mil metros de altura, acima das nuvens, com temperatura de 21 graus negativos. Carli não quis escutar.
As câmeras de televisão registraram o momento em que o padre, vestindo roupas térmicos e uma capa impermeável, que mal cobria seu corpo, decolou de Paranaguá. Ele usava um estilete para estourar os balões e controlar a altitude. Chovia e ventava forte. Mesmo assim, nenhum de seus auxiliares tentou demovê-lo da aventura suicida.
Adelir de Carli voou no domingo. Vinte minutos depois, o padre surpreendeu a equipe que o acompanhava em terra, atingindo a altitude de 5.800 metros acima do nível do mar, quase o dobro do que estava previsto.
Na última comunicação que fez com policiais militares, ele reclamou do clima e disse estar encontrando dificuldades para operar o aparelho GPS.
“Eu preciso entrar em contato com o pessoal para que eles me ensinem a operar esse GPS aqui para dar as coordenadas de latitude e longitude que é a única forma que alguém por terra possa saber onde eu estou. O celular via satélite fica saindo de área e além do mais a bateria está enfraquecendo”.
Equipes de busca
Na terça-feira, 48 horas depois de levantar voo, equipes de busca foram organizadas no litoral brasileiro, envolvendo a Marinha, a Aeronáutica e um grupo de bombeiros voluntários, que passaram um mês vasculhando o mar de Santa Catarina.
Banhistas em uma das praias da capital carioca disseram ter encontrado balões estourados trazidos pela maré. Em agosto, restos de seu corpo foram localizados no mar por um barco rebocador que prestava serviços à Petrobras próximo à costa de Maricá, no Rio de Janeiro.
Carli tinha 41 anos.
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