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Abrilino, o emparedado

21/11/2025

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Das páginas esportivas para as policiais, o cronista Abrilino Fernandes Gomes foi preso, no mês passado, em operação do Gaeco, órgão do Ministério Público do Paraná criado para combater o crime organizado.

Abrilino, vulgo Fernando Gomes, é acusado de participar de um esquema de desvio de recursos da Saúde de Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba. Com ele, foram presas mais cinco pessoas, entre elas Mauro Marcondes (PSD), prefeito do município.

Conforme o MP, a apuração apontou que os envolvidos desviaram R$ 10 milhões de Fazenda Rio Grande e R$ 40 milhões de outras cidades do Paraná em um período de três anos – de 2022 a 2025.

Há uma diferença

O cronista trabalhava (do verbo trabalhar) na Rádio Transamérica comentando jogos de futebol e ocupava (do verbo ocupar) cargo comissionado na Assembleia Legislativa do Paraná, com salário de R$ 18.831,43. É importante distinguir os verbos. Era sócio, também, de uma das empresas envolvidas no esquema.

Aos 77 anos, Abrilino foi solto por decisão do Tribunal de Justiça do estado, com imposição do uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares, entre as quais a proibição de se comunicar com testemunhas.

Por longo tempo, ele apresentou o Mesa Redonda, programa de debate esportivo da CNT. Abrilino não era daqueles que expressava opiniões. Preferia pontificar. E fazia isso com toques de pompa e circunstância, entremeados com a expressão “isto posto, meu nobre”. Era a senha para trocar de canal.

Secos e molhados

O cenário do televisivo parecia um mercado de secos e molhados. À frente do apresentador enfileiravam-se os mimos enviados pelos patrocinadores. Coisas assim como café Mococa, macarrão de letrinhas, marmelada Kidelícia, bala Juquinha, pipoca doce Emília, farinha de trigo Boa Sorte e calendário da funerária Vai Com Deus.

Corria a piada de que, se recuada, a câmera poderia flagrar um varal sobre a cabeça de Abrilino em que jaziam, pendurados, um naco da linguiça Estrela e outro da mortadela Confiança. Ambas nada confiáveis.

Era final dos anos 90. Este escriba e André Lopes, hoje diretor de redação do HojePR, exercitávamos o jornalismo trincheira no valente semanário horaH. O lema era: “Não poupamos ninguém. Nem a nós mesmos”. Batíamos à esquerda e à direita, de baixo para cima e de cima para baixo, a ponto da redação, com endereço no Alto da Glória, quase ser empastelada por obra e graça dos humilhados e ofendidos.

Fora de controle

Abrilino era um dos alvos de nossa verve cômica. E, no mais, todos aqueles à sua volta. Nós não paramos quando ele começou a nos notar. Não paramos quando ele nos chamou para a briga. E não paramos quando decidiu nos ignorar. De qualquer forma, não estava mais sob seu controle.

Ele não era um protagonista no mundo da bola e nós estávamos mais para figurantes. Abrilino, no entanto, cometeu o erro de convidar Nêgo Pessoa para o programa e desprezar sua opinião sobre técnicos. Pessoa dizia o seguinte: eles não eram necessários.

No linguajar das redes sociais, Abrilino cancelou Pessoa. E eu jurei vingança. O cronista era agora, e sempre, o meu Fortunato, personagem do conto “O Barril de Amontilado”, de Poe.

Pedra e cimento

Abrilino é inocente até prova em contrário. Não se discute. Caso ele escape das acusações, no entanto, pretendo fazer dele o meu personagem. Vou convidá-lo para um vinho em minha casa e hei de emparedá-lo. Não basta puni-lo, é preciso puni-lo impunemente. Serei Montresor. Vou prender suas mãos a argolas de ferro, uni-las em um cadeado e enfileirar tijolos na catacumba.

– Que bela piada! Efetivamente, uma excelente piada! Vamos rir muito com ela. E com um bom vinho! – dirá o ébrio Fortunato enquanto assento a última pedra de barro e a reboco com argamassa.

Não tenho vinho, não tenho adega, não tenho catacumba. De qualquer forma, já escapou do meu controle.

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