Foi só relativizar a liberdade de expressão e deu nisso. Platão foi expulso da universidade. Não importa se a ação ocorreu do lado do time da casa ou dos visitantes – esquerda e direita no raso futebolístico.
No Texas – onde mais? – os reitores do ensino superior aprovaram diretrizes que proíbem a defesa de ideologia de raça ou de gênero. Vale para os supremacistas brancos, mas também para todo aquele alfabeto dos não-binários: LGBTQXYZA+++. Recentemente, ouvi falar dos heteroflevíveis e não entendi nada.
Não vem ao caso. Há poucos dias, o professor Martin Peterson foi notificado que seu curso sobre questões morais contemporâneas não poderia discutir ‘O Banquete’ de Platão. Afinal, o filósofo grego que viveu 400 anos antes de Cristo afirma que a homossexualidade é natural e que humanos não são heteros em sua essência.
Calçou a havaiana
Desconfio que Platão legislou em causa própria. Que ele era um habitué das casas de banho e tinha um gosto especial por jovenzinhos há poucas dúvidas. Mas vejam em que sinuca chegamos. Os botocudos trumpistas alegam que Platão não deve ser ensinado porque sua filosofia confronta as regras. E as regras dizem que a ideologia identitária está excluída.
É uma manifestação da direita, mas que calça muito bem a havaiana do pé esquerdo, né não? Se a universidade virou um palco de extremistas, a esquerda tem boa parte de culpa. Juro, achei que Aristóteles seria a primeira vítima dos politicamente corretos. Ele foi um defensor do escravismo e de dispositivos da lei grega, segundo os quais as mulheres estavam no fim da cadeia alimentar. Eram tão descartáveis que os espartanos partiam para a guerra e, quando voltavam, reconheciam os filhos bastardos gerados durante sua ausência sem encenar qualquer tragédia.
Quando as estátuas começaram a ser derrubadas de seus pedestais em várias partes do mundo, seguindo o código ‘woke’, julguei que o autor de ‘Ética a Nicômaco’ estaria no index – e temo aqui dar ideias. Mas foi Platão, gay (e pedófilo, sim senhor), quem roubou a cena. E por motivos que ferem a compreensão. Ao menos dos normais.
Sofro, logo existo
O comediante Bill Maher diz que, apesar de Trump, hoje é muito mais fácil fazer piada da esquerda, com suas idiossincrasias, do que da direita. Não eram os conservadores quem odiavam os judeus? Pois é.
As universidades do Texas poderiam se safar da zombaria se deixassem o debate acerca de ‘O Banquete’ avançar. Ficaria claro, por exemplo, que Platão ao afirmar que os humanos não são sexualmente binários, estaria colocando a reprodução e a descendência em uma escala de necessidade e não de prazer. E o homo sapiens na condição de espécie única, o que Darwin mostrou não ser verdade.
Colunista da página 2 na Folha de S. Paulo, Hélio Schwartzmann assinala que o ‘absurdo chegou ao poder’. Mas não agora. Começou com as liberdades relativizadas, inclusive o direito ao humor, e deu em Monteiro Lobato, autor de ‘Sítio do Picapau Amarelo’, defenestrado nas escolas e James Bond reescrito.
Ora, para atender as exigências da esquerda até mesmo a ‘Mônica’ do gibi deixou de dar coelhadas no ‘Cebolinha’. A consequência é esse extremismo burro da direita e nessa cultura de vitimização da esquerda. Do sofro, logo existo. Bem feito para todos nós.
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