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Curta homenageia curitibano Nireu Teixeira, virtuose do samba da caixinha de fósforos

17/11/2025

nireu

Advogado, jornalista, chefe de gabinete de Jaime Lerner, o curitibano Nireu Teixeira foi tudo isso e mais o samba. Nas rodas de amigos, era ele quem puxava a caixinha de fósforos e dava a nota no batuque sincopado. Titi, Tatá. Titi para o balanço da caixinha, Tatá para a batida do dedo indicador. Samba é simples. Mas complicado.

É esse recorte da vida de Nireu que o diretor Estevan Silvera quis retratar no curta “Nireu Teixeira, é samba na caixinha”, que será exibido na Cinemateca de Curitiba, nesta terça (18), às 19 horas, com entrada franca.

Em paralelo com a exibição do filme está programada a exposição artística “Tddo Mundo é Nireu”, com parte do acervo do curitibano, e a apresentação da Orquestra da Caixinha de Fósforos acompanhada dos músicos Mazzinha – irmão do jornalista Luiz Geraldo Mazza – e PH do Pandeiro.

Falecido em 2008, aos 79 anos, Nireu foi a flor do lácio de uma geração que deu ao bate-papo a condição de arte. “Ele era mestre em afinações de conversa”, escreveu Ernani Buchmann em crônica recente.

E era exímio nos aforismos e nos chistes. Muitos deles perdidos no vento. “Ignorância é saber coisas demais”. “O bairro das Mercês é muito aristocrático: aqui os galos só cantam às 11 da manhã”. “Ontem bebemos meia Escócia e um terço da Irlanda. “Chegamos em casa semi-embriagadíssimos”.

Nireu não era só um virtuose da caixinha de fósforos, como Elton Medeiros e Cyro Nogueira. Era cronista de mão cheia e advogado, porque ninguém vive de brisa. Seus textos foram reunidos em dois livros: Espeto Corrido I e Espeto Corrido II, com auxílio luxuoso de Poty Lazarotto, que fez a ilustrações.

O diretor Silvera conhece o metiê. É boêmio dos becos e das frestas da cidade, foi íntimo de Dalton Trevisan, a ponto de ser chamado de ‘vampirinho de Curitiba’, e tem se notabilizado por resgatar, em seus documentários, a capital de antanho e suas figuras. Cometeu um lapso ficcional. Filmou “A Balada do Vampiro”, inspirada em contos de Dalton, mas sem a permissão de escorregar em licenciosidades poéticas. O texto, nu e cru, é Dalton. Ponto.

Dizem que Nireu Teixeira gravou um disco solo batucando na caixinha. Não se tem notícia disso. O jornalista era um contador de histórias, um músico de samba e uma figura icônica da boemia curitibana. Era dado à rotina de singrar os bares e aportar em um banquinho do Largo da Ordem, onde dava o compasso na caixinha e, ao mesmo tempo, despachava com o garçom. Cerveja fria e torresmo quente. Não o contrário.

Um ano depois de sua morte, Nireu foi homenageado pela Fundação Cultural de Curitiba com sua silhueta e uma mesa de trabalho, em bronze, fincadas no mesmo lugar onde batia a caixinha e escrevia suas crônicas. A ideia foi de Lerner. O apoio de René Dotti.

Nireu recusou em vida as homenagens póstumas. Não adiantou. Uma vereadora de Curitiba apresentou projeto batizando um dos “logradouros públicos” de Jornalista Nireu José Teixeira. A rua fica lá no Tatuquara, nome que dá samba se batido no compasso do Titi, Tatá.

 

Já estava no tempo…
(Crónica de Nireu Teixeira publicada na edição do jornal ‘Correio de Notícias’ em 5 de janeiro de 1985 e reproduzida no livro ‘Espeto Corrido I’, com ilustração de Potty Lazarotto)

Já estava no tempo de alguma instituição cultural, dessas tantas que andam por ai, se dedicar ao estudo de um dos instrumentos fundamentais para a música popular brasileira. Aquele sem o qual não teríamos a obra de Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Adoniran Barbosa, para citar apenas três dos importantes compositores de nossa terra.

Refiro-me, naturalmente, à caixa de fósforos. Hoje ela anda meio esquecida. É verdade que os sambistas de verdade também estão desaparecendo. Cyro Monteiro foi o último a usá-la para se acompanhar quando se apresentava na televisão. Atualmente apenas Elton Medeiros, nos discos de Paulinho da Viola, comparece batucando a sua caixinha.

Todavia, sendo um instrumento do povo, ela prefere o anonimato nos bares de subúrbio, onde se realizam grandes espetáculos. Talvez se algum japonês inventar uma caixa de fósforos eletrônica, ela possa ressurgir em grande estilo, para empolgar as novas gerações, a exemplo do que aconteceu com a guitarra elétrica. Mas é difícil que isso aconteça.

A caixa de fósforos exige muita criatividade, muito improviso, muita humanidade. Coisas que um computador não pode oferecer. Modestamente eu me incluo entre os privilegiados que sabem tocá-la. E isso tem me dado momentos de grande satisfação.

Ainda hoje, no fim de algumas festas, quando se começa a cantar as “Pastorinhas”, “Até amanhã” ou o infalível “Trem das Onze”, posso dar minha colaboração marcando o ritmo nesse instrumento brejeiro, malicioso, alegre, cujo prolongamento natural é o cavaquinho.

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