
Ator global foi às redes sociais cuspir fogo contra a megaoperação policial nos morros do Rio de Janeiro. Foram 121 mortos, entre eles quatro policiais. De sua casa, na Barra da Tijuca, o equivalente carioca da Faria Lima, ele escreveu que a cidade estava “sangrando” aos olhos do mundo. Culpou a Justiça pela lerdeza e, óbvio, solidarizou-se com as mães que choram, saudando a indignação das vozes lúcidas. Citou, entre estas, a ex-governadora petista Benedita Silva, e, claro, ele mesmo, com uma seta de luzes de neon apontada para sua cabeça.
As mortes são lamentáveis. A manifestação é legítima. O que dói é o virtuosismo digital. Sem falar no partidarismo. Nós, os bons. Eles, os maus. Morrem 45 mil pessoas assassinadas no país a cada ano. São 123 por dia. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O artista está indignado com o varejo, mas o atacado é um filme de horror.
Reportagem de ‘Veja’ desta semana mostrou que há 28,5 milhões de brasileiros, no Brasil, vivendo sob o jugo das facções criminosas. Entre eles, dona Delma que quase foi às vias de fato com o filho traficante, preso pela polícia do Rio de Janeiro. “Você não é vítima da sociedade, você é vítima de suas escolhas”, gritou
‘Veja’ entrevistou moradores das favelas do Rio. Eles se submetem ao Estado paralelo. Pagam por proteção e pelos serviços fornecidos pelos traficantes. O ‘gato’ da companhia elétrica. O ‘gato’ da operadora de celular. O ‘gato’ da TV a cabo. É consenso que os variados negócios do crime somados já dão mais lucro do que o comércio de drogas.
Para impedir o acesso da polícia aos morros, as facções fecham as vielas com estacas de ferro, trilhos de trem, cancelas e carros queimados. Um deles, como mostrado na revista, traz a seguinte pichação em vermelho: “Organize seu ódio”. Poético.
Cabeça baixa e boca fechada
Sob a mira de armas modernas e até drones lança-granadas, porque o Brasil é um mundo sem porteira (e sem fronteira), os moradores rezam a cartilha do tráfico. “Para sobreviver é cabeça baixa e boca fechada”. A milícia, formada por policiais e ex-policiais que se bandearam para o outro lado em busca do lucro fácil e rendoso, cresceu extorquindo e achacando. O síndico de um prédio de apartamentos cobra ágio de 50% na taxa de condomínio para garantir segurança na “portaria”. O dinheiro vai para o bolso dos milicianos.
Dez entre dez sociólogos, assim como dez entre dez atores globais, sustentam que a escalada da violência e da criminalidade no país está condicionada à solução dos problemas estruturais. É a pobreza que determina o criminoso. Mentira. A imensa maioria dos brasileiros de baixa renda, no Brasil, trabalha duro. A questão social dificulta, sem dúvida, mas não pode ser isolada e carimbada como via direta para o crime e para as mortes violentas intencionais.
Não dá para esperar que a justiça social venha antes do Estado intervir. As facções precisam ser enfrentadas em seu território e sob os ditames da lei. Não fosse o Febeapá – o Festival de Besteiras que Assola o País – e as autoridades poderiam se valer de bons exemplos. Sim, eles existem.
Em São Paulo e Santa Catarina, os assassinatos caíram a uma média de 8 por 100 mil habitantes graças ao desmantelamento das facções em seus territórios e do combate à criminalidade a partir de projetos educacionais.
Nos estados do Ceará, Pernambuco e Bahia o índice é de 37 por 1000 habitantes, quatro vezes maior. Enquanto o presidente da República (aquele) diz que “os traficantes também são vítimas dos usuários”, afirmação esta rejeitada por 81% dos brasileiros na pesquisa Genial/Quest, as soluções estão à vista. Bastar ter vontade política.
Em tempo
O ator global não nominado é pródigo em seus comentários nas redes sociais. Campeão da Libertadores em 2021 pelo Palmeiras, o goleiro Weverton agradeceu a Deus em entrevista logo após a conquista do título. O ator, irritado, fez postagem no X (ex-Twitter): “O discurso do goleiro do Palmeiras depois do jogo, aquela falação sobre Deus quando devia estar comemorando, aquela cena dele rezando antes de começar o jogo, me faz lembrar do goleiro Bruno, que rezava antes do jogo e depois ia matar a moça e jogar pros cães. Explica muito o Brasil”.
Ah, o virtuosismo digital…
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