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A mão peluda e o pênalti

31/10/2025

pênalti

É mais fácil compreender a teoria da relatividade do que entender qual o critério do árbitro de futebol para apitar falta quando o jogador toca a mão na bola.

Não faz muito, havia uma diferença elementar entre a bola na mão e a mão na bola. Se o toque era deliberado, intencional, o juiz apitava falta. Do contrário, o jogo seguia.

Mas então vieram os sábios da Fifa e decidiram que era hora de complicar. A regra da mão na bola passou a depender de uma série de critérios subjetivos.

Ao apitar a falta ou pior, o pênalti, o árbitro deve levar em conta a posição natural do braço, o movimento deliberado, a “reação à bola”, a origem do passe, a ampliação do corpo, a bola inesperada.

É essa multiplicidade de fatores que faz com que o torcedor que paga ingressos caros saia do estádio com a sensação de que foi tungado.

Há quatrocentas câmeras instaladas no campo, quatro árbitros, três na cabine do VAR e, não raro, cada um interpreta à sua maneira. Tudo é subjetivo. Ah, mas a ampliação do corpo, ah, mas a bola inesperada, ah, mas a posição natural do braço.

Freud explica

Dois casos ilustrativos: em Flamengo 2 x 0 Grêmio no primeiro turno do Brasileirão, a bola toca no peito do meia rubro-negro Gerson e depois no braço. O juiz diz que não foi pênalti, o VAR confirma. Pelos critérios atuais, esse contato com o corpo antes da mão é um dos elementos que podem isentar o jogador de punição.

LDU 3 x 0 Palmeiras na semana passada em jogo válido pela semifinal da Libertadores. O atacante chuta e a bola bate no ombro de Andreas Pereira, meia do time brasileiro. Em seguida, resvala no braço. Pênalti.

Na TV, o analista de arbitragem confirma a penalidade. O jogo está 1 a 0. Os equatorianos ampliam a vantagem. O torcedor vai ao divã e o psicanalista o faz acreditar que o que está vendo não é real. É a ilusão da realidade.

A suposta falta é repetida diversas vezes na TV. Em 24 frames por segundo e em câmera lenta. Tudo é sombra e neblina. A percepção de que experimentamos o real é mediada por nosso inconsciente e influenciada por desejos, fantasias e mecanismos de defesa como a negação. Se não acreditamos nisso, Sigmund Freud explica.

Nos vemos na seguinte condição. Ou os leões comem os cristãos ou os cristãos comem os leões. É uma questão de torcida. A ilusão de que a mão toca na bola ou a bola toca na mão é apenas um mecanismo de defesa do ego para que repudiemos uma verdade dolorosa.

Eu torço, nós torcemos

E se a mão peluda foi, de fato, responsável pelo resultado do jogo, é matéria para a resenha esportiva dos comentaristas torcedores. Há uma bandeira tremulando sobre suas cabeças. Sem qualquer pudor.

Eis uma questão que faz chover perdigotos. Obrigados a levar os braços para trás, jogadores de defesa comprometem as leis básicas da aerodinâmica. Se saltam, devem estar com os braços colados ao corpo, porque respeitar o equilíbrio e a lei da gravidade é caso de infração. Um homem-bala sendo cuspido de um canhão é a imagem que me ocorre para ilustrar a regra tal como prescrita.

Futebol é gol. Mas não à custa de um evidente mal estar da civilização. Aqueles cuja fé ao seu clube do coração é cega e inabalável necessitam que o sistema de crenças lhes ofereça consolo e segurança. Não dúvida e expiação.

Os que criaram a tábua de leis do futebol certamente não suspeitavam que haveria uma instabilidade na força entre a defesa e o ataque. Se o zagueiro precisa levar os braços às costas para evitar a falta ou pênalti, os atacantes deveriam fazer o mesmo quando entrassem na área adversária. Porque tocar a mão na bola reverteria a punição. Falta para o outro lado. Pênalti idem.

O futebol é relativo

Toda ideia cretina provoca uma reação imbecil de igual intensidade e direção, mas em sentido contrário. A ponto de “o pênalti sem querer” no jogo São Paulo 2 x 3 Palmeiras virar meme. Sim, a infração sem querer também é infração. Ou deveria ser.

Aqui, porém, um parêntese deve ser aberto. As novas regras ditam que a mão na bola, equivalente a uma botinada na canela, pode ser um “toque acidental, sem intenção clara”, se analisada sob o ponto de vista de que o movimento foi natural. Ora, se a intenção faz a falta, a não intenção tem efeito oposto.

É nesse ponto que as coisas se tornam relativas como a teoria de Einstein. Se queremos salvar o futebol, o melhor a fazer é devolver ao regulamento a bola na mão e a mão na bola. É mais justo, mais crível e melhor que a hermenêutica bizarra dos senhores da Fifa. Fecha parêntese.

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