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Jaguar tinha um nome a zerar

03/11/2025

Em uma série de crônicas em que perfilou seus amigos – sob o título Retrato 3×4 de Um Amigo 6×9 – Millôr Fernandes assim escreveu sobre Jaguar: “Às sextas-feiras, às vezes entrando pelo sábado, é apocalíptico. Em dias de alegria fica triste, mas esconde isso sob tal tumulto que sempre recebe o troféu Alegria da Festa. Da ponta do pé ao topo da cabeça vai toda a sua altura, mas nem isso o diminui. É casado, mas não acredita no inferno. Pratica-se diariamente, por isso é que é tanto. Agora, quanto ao câncer, é a favor. Costumo lhe dizer: ‘Com teu talento, Jaguar, eu não estaria aqui. Estaria em cana, nos Estados Unidos.’”

São recortes do texto, mas já dizem a que vêm. A Wikipedia assinala que Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1932 / Rio de Janeiro, 24 de agosto de 2025), que subscrevia Jaguar desde 1952, ficou famoso pela criação do personagem Sig. E Gastão, o Vomitador? E Bóris, o homem-tronco?

Em 1970, um ano depois da fundação de O Pasquim, que depois virou só Pasquim, foi preso pelo regime militar por ter brincado com o quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo. Ele fotocopiou a pintura e pregou nela um balão que dizia o seguinte: “Eu quero mocotó!” – uma gíria para pernas femininas.

Na era do puritanismo e do moralismo hipócrita em que vivemos, ele seria cancelado por satirizar Tarzan, tal como na charge abaixo e provavelmente seria queimado em praça pública por tratar de temas como adultério, homossexualismo, prostituição e atributos da mulher com um viés machista (céus).

Alguém pode dizer que Jaguar era um homem do seu tempo como se o humor fosse algo dos cafundós do passado. Hoje até charge política é a favor. Não sei se Ziraldo está revirando no caixão a essa altura. Millôr Fernandes, contra por excelência, certamente está.

Ruy Castro – que eu chamo de Ryo Castro porque monotemátco – escreveu em sua coluna, na Folha, que Jaguar teve seus desenhos recusados por Hélio Fernandes, diretor da Tribuna da Imprensa, que os teria considerado “a pior coisa que já vira”. Sorte que Millôr, o irmão esperto e mais autorizado, proclamou sem demora a genialidade de Jaguar. As charges estão aí para provar, mas precisam ser caçadas nos arquivos. Jaguar desenhava em guardanapos de bar ou em qualquer papel à mão e não guardava nada. Foram-se 30 mil cartuns assim.

No parágrafo que me resta, lembro que Jaguar ganhou a direção do Pasquim em uma aposta com Ziraldo. Nas eleições de 1982, as primeiras no período de redemocratização, ele cravou a vitória em Leonel Brizola (PDT) para o governo do Rio. Ziraldo foi de Miro Teixeira, do PMDB. Anos depois, no comando da editora Desiderata, Jaguar produziu três antologias do melhor do Pasquim e também o livro Confesso Que Bebi, um roteiro etílico pelos melhores bares do Rio. Deixou a editora de lado quando faturou R$ 1 milhão do governo na condição de perseguido político do regime militar. Há controvérsias sobre isso, mas nada que respingue em sua reputação de chargista, que jamais foi ilibada. Jaguar era desses que tinha um nome a zerar.

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