Bastou o Flamengo vencer a série A do Brasileirão e a Libertadores, em outra final de brasileiros, e virou um “clube europeu” com chances de vencer a Copa Intercontinental ou sei lá que torneio a Fifa venha a inventar. Menas, companheiro. É o tipo de ufanismo barato que acomete cronistas esportivos em tempos de vacas gordas. Um exemplo: o time carioca goleou o Vitória por 8 a 0, no Maracanã, e se tornou imbatível e pronto para vencer nove em dez brasileirões. Perdeu depois, deixou escapar temporariamente a liderança do campeonato nacional e sofreu um bocado para chegar à final da Libertadores, em Lima.
Contra o PSG, no Qatar, mostrou que havia aprendido a lição com a goleada de 4 a 2 sofrida contra o Bayer de Munique, quando tomou dois gols em exíguos dez minutos, em jogo válido pelo Mundial de Clubes (o outro). A prudência exigia que recuasse e desse a bola para o adversário. Foram 23 finalizações dos europeus contra 11 do Flamengo. O porcentual de posse de bola do PSG foi de 62,5%, o dos brasileiros 37,5%. É preciso comparar. No jogo contra Vitória, o Flamengo teve o domínio em 65% da partida, o Vitória, solapado e em frangalhos, não passou de 36%. Conclusão: contra o PSG, o time do técnico Filipe Luís jogou como time pequeno, encolhido, dominado.
Nua e mal passada
Isso explica o motivo pelo qual os campeões europeus, ora em diante, só aparecem para jogar a final. O presidente do Flamengo reclama, mas a realidade é nua e mal passada. Times sul-americanos quando não tropeçam na final, fazem pior: tropeçam na semifinal.
O Inter de Porto Alegre perdeu para o Mazembe do Congo, o Atlético Mineiro para o Raja Casablanca de Marrocos, o Palmeiras para o Tigre do México e o Flamengo (sim, o Flamengo) para o Al Hilal da Arábia Saudita, logo ali em 2022. No ano passado, foi a vez do Botafogo, o supercampeão da América, levar uma coça de 3 a 0 do Pachuca do México. É tanto vexame que a Fifa preferiu não causar maiores constrangimentos aos europeus. Se a vitória é certa, por que todo esse trabalho?
Vamos parar com esse negócio de complexo de vira-latas. Nós somos vira-latas. Botamos banca contra o Monagas, o Tolima, o San Antonio Bulo Bulo, o Talleres, o Colo-Colo, o Carabobo. Porém, quando se trata de enfrentar clubes europeus, somos miseravelmente inferiores.
É tudo verdade
Para o PSG, o Flamengo não existe. É um clube do terceiro mundo que tem o urubu, uma ave carniceira, como mascote. Será que eles comem gente? Claro, jogadores e dirigentes do time francês são polidos e respeitosos diante das câmeras, mas em privado riem às escâncaras. Neuer, o goleiro do Bayern e da seleção alemã, fez isso.
Foi Nelson Rodrigues, nosso Shakespeare, quem cunhou a expressão complexo de vira-lata em crônica que tratou do sentimento de inferioridade que os brasileiros têm em comparação ao resto do mundo. É um fato. Somos inferiores. Não só em relação ao futebol. Inclua no pacote, o cinema, a literatura, a ciência, a política. É tudo verdade. Na quarta-feira, 17, flamenguistas em todo o Brasil, inclusive no Rio, onde foi “decretado” ponto facultativo, ganiram de humildade logo no primeiro minuto de jogo. Não foi um ganido vão.
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