Alexandre de Moraes, herói da democracia, Torquemada do golpe de 8 janeiro, está trilhando o mesmo caminho percorrido pelo justiceiro da Lava-Jato. Em dado momento, ele se olhou no espelho e viu do outro lado, não o seu rosto, mas um espectro que foi ganhando forma, nitidez e um topete de causar inveja a quem não dispõe de sequer um fio de cabelo na cabeça. Era Sérgio Moro refletido.
Moraes sofreu o efeito Orloff, uma referência ao comercial da vodca cujo slogan era: “Eu sou você amanhã”. É um duro golpe para quem, há sete anos comanda 21 dos 37 inquéritos em curso no STF, em que faz os papéis de investigador, acusador e julgador, solapando o princípio do devido processo legal. Lembremos: a Justiça só se manifesta quando é provocada. O STF quebrou essa regra.
No mês passado, a jornalista Malu Gaspar, de “O Globo” pôs a nu o contrato de R$ 129 milhões da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, alvo recente de liquidação. Faturou 3,6 milhões por mês até que as portas da felicidade se fechassem.
O contrato de Viviane com a instituição financeira de Daniel Vorcaro delegava ao escritório representar os interesses do Master nos Três Poderes e em órgãos como o Banco Central, a Receita Federal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Mensagens apreendidas pela PF indicavam que os pagamentos ao escritório eram tratados internamente pelo Master como prioridade absoluta.
Escudeiros
Na esteira do escândalo, Malu Gaspar descobriu que o próprio ministro Alexandre de Moraes, o paladino da Justiça, manteve ao menos quatro contatos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tentando reverter a liquidação do Master – ele diz que foi tratar da Magnitsky. Conversa. Se a quebra do banco ocorresse, ele bem sabia, parte dos 129 milhões contratados por sua mulher virariam pó.
Sem se pronunciar diretamente, Moraes lançou duas notas insípidas que pouco ou nada informavam. Deixou que seus escudeiros saíssem em sua defesa. Dias Toffoli impôs segredo ao processo e chegou a anunciar uma acareação entre Daniel Vorcaro e representantes do Banco Central. Desistiu porque ficou evidente que ele pretendia jogar uma boia salva vida ao Master.
O decano Gilmar Mendes tocou o realejo de sempre: “Moraes é fortaleza moral do STF”; “Moraes tem a nossa absoluta confiança; Moraes atua pela ordem constitucional do país; e “Moraes tem apoio inequívoco”.
Nos bastidores, Mendes não quis dizer outra coisa senão que Moraes estava prestigiado. Fosse no futebol, este seria o prenúncio da degola.
Gilmarpalooza
O novo presidente do STF, Edson Fachin, acena com um código de ética para o STF, mas enfrenta forte reação de seus pares. Porque conduta não é mesmo o forte da corte. Que o diga o Gilmarpalooza, que reúne anualmente, no mesmo balaio, a nata de empresários, políticos e juízes em Lisboa.
Que o diga também o dispositivo do Código de Processo Civil que ampliava as hipóteses de impedimento de juízes quando parentes advogassem junto à corte. Em 2023, o Supremo o derrubou.
A verdade é que, até agora, Moraes se sentia intocável e desprezava o velho ditado que diz “quanto mais alto o pulo, maior a queda”. ‘Intocável’, aliás, é um termo sensível para os membros da Lava-Jato, entre eles Deltan Dalagnol, que se inspirou em Eliot Ness ao posar para foto com sua equipe. Sérgio Moro, mais comedido, estava lá, mas era considerado ‘eminência parda’.
Dois momentos da triste história do Brasil. A diferença, se é que existe, está nos detalhes. Moro repatriou bilhões depositados em paraísos fiscais por políticos, empreiteiros e diretores de estatais. Moraes fez diferente. Manteve intacto o quinhão que cabia a sua família no contrato de 129 milhões com o Master, agora dissolvido.
De resto, esperneou contra o prejuízo até onde sua condição de ministro do STF lhe permitiu. Se sua imagem não foi arranhada, ele é mesmo digno do troféu ‘Óleo de Peroba’.
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