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O homem é antes de tudo um triste

07/11/2025

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Há um Congresso Internacional de Felicidade em Curitiba. Temo pela sanidade dos palestrantes e ainda mais pela do público que pretende pagar por pacotes de 1.200 a 1.900 reais para ouvir dois dias de estultices sorridentes. Um sujeito se apresentou certa vez como coach da felicidade e tive impulsos de sacar o revólver.

No início dos anos 2000, a Amazon listava não mais que trezentos livros com a palavra ‘felicidade’ no título. Hoje, a lista inclui mais de 2.000. P.T. Barnum estava certo: nasce um otário a cada minuto. Um otário feliz, é claro.

Quem vai ao mercado encontra, nas gôndolas, ovos que foram postos por galinhas felizes. Eles são mais caros, mas o custo compensa a satisfação de saber que a ave que nos oferece o alimento o faz com um misto de prazer e altruísmo. Se o gado engordado no pasto e abatido a pauladas experimenta a mesma epifania, estamos conversados.

Diagnosticada com covid-19 durante a fase aguda da pandemia, em 2020, a influencer da positividade Gabriela Pugliesi agradeceu ao vírus pelos benefícios que ele supostamente terapia lhe trazido. Criticada nas redes, ela alegou que sempre busca tirar algo de benéfico das situações. Esse, aliás, é o mantra dos felizes.

Não é um besteirol reinante apenas no Brasil. Em todo o mundo, há filósofos, psicólogos, economistas e (muitos) jornalistas que defendem a propagação de medidas públicas destinadas e elevar a felicidade da população. Alguns falam até mesmo em “Felicidade Interna Bruta”.

Medir o estado da felicidade de uma pessoa é improvável, insondável e jamais pode ser reduzido a um denominador comum. “Eu sou feliz quando toco bandolim. Meu vizinho é infeliz quando me ouve tocar bandolim”, escreve o colunista da Folha, João Pereira Coutinho, fazendo troça com o conceito.

A questão principal é que tudo parece girar em torno de um “culto à felicidade”. E se é esse o caso, estamos entrando no terreno da religião. Se há um deus da alegria, há também um da tristeza, da dor, da vingança, da morte. Três décadas atrás, a ciência conseguiu sintetizar a felicidade a partir de um processo químico que é vendido nas prateleiras das farmácias com o rótulo de Prozac.

O que é felicidade para uns, não é para outros. Esse é o ponto. Livros de autoajuda são livros de antiajuda, diz Coutinho. “Transformam a felicidade em direito e, coisa pior, em dever”. Nas mãos do Estado isso é perigoso. Por exemplo: você pode muito bem se alegrar em perseguir gagos e anões. Ou gordos. Há uma série na HBO em que influencers belas e esbeltas dizem a uma menina acima do peso que ela deve derrubar os padrões de beleza. “Mas eu mal consigo sair da cama”, responde a personagem.

Dizer que os infelizes devem “ver o lado bom” e considerar que “nada é completamente ruim” é o mesmo que convencer um menino que a lata de esterco que ganhou de presente é apenas o primeiro degrau do sonho para conseguir um cavalo.

Eu não caio nessa. Nelson Rodrigues disse que o homem é, antes de tudo, um triste. Somos trágicos por excelência. Por isso desenvolvemos a capacidade de rir de nós mesmos. E dos outros.

No ano passado, Tio Paulo foi arrastado em sua cadeira de rodas para um banco, onde sua sobrinha tentou fazer com que ele assinasse os documentos de um empréstimo pré-aprovado. Em vão. Ele estava morto. A cena, no entanto, foi filmada e viralizou nas redes sociais. É impossível não rir. A tragédia é mesmo a véspera da comédia. Mas não é felicidade.

O site do Congresso informa a disposição dos palestrantes de compartilhar “ideias e práticas transformadoras em um evento único, diferente de tudo que você já viu”. Penso em P.T. Barnum. “Mais do que um congresso teórico, o evento proporciona uma jornada de autoconhecimento e reflexão acerca do que é felicidade”. Penso em P.T. Barnum. “São dois dias inteiros de palestras, experiência e reflexões profundas que vão te conectar a pessoas que buscam uma vida mais significativa, com mais propósito, bem estar e alegria”. Penso em P.T. Barnum. Leandro Karnal, o historiador, e Monja Coen, da qual não tenho referência, estão no time de palestrantes. Penso em P.T. Barnum.

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