
Paulo Leminski Neto, suposto filho do poeta curitibano falecido em 1989, foi às redes sociais pedir socorro. Morando no Rio de Janeiro, ele e a mulher, Cláudia, tiveram que deixar um hotel onde pagavam diária de R$ 120. Leminski Neto é músico e professor de canto, mas perdeu os alunos. Obrigado a dormir em uma praça, o casal enfrentou uma noite trágica. Cláudia se envolveu em uma briga e teria sido estuprada por um morador de rua. O boletim de ocorrência registrado pela polícia trata apenas de um caso de agressão.
Neste ano, Leminski Neto esteve na Flip – a Festa Literária de Paraty –, desfilando suas semelhanças físicas com o pai, o homenageado do evento. É inegável. Cara de um, fuça de outro. Ele reclama parte dos direitos autorais da obra de Paulo Leminski, cujo espólio é gerido pela viúva e também poeta, Alice Ruiz, e pelas filhas Áurea e Estrela. O processo segue em curso.
Alice já foi pintada como a madrasta de “Cinderela”. Suas filhas seriam Anastasia e Drizella. Cruéis, invejosas e egoístas.
Mas há um detalhe para o qual não se atentou nessa história. Leminski Neto recusa-se a fazer o exame de DNA. Em entrevista à Folha de S. Paulo, pouco antes da abertura da Flip, ele impôs uma condição para fazer o teste. “As irmãs (Áurea e Estrela) devem fazer o mesmo”. Isso não faz sentido.
Autor da biografia de Leminski (“O Bandido Que Sabia Latim”), foi o jornalista Toninho Vaz quem revelou o filho secreto do poeta. Vaz encontrou uma certidão de nascimento num cartório do Paraná que mostra que Leminski Neto foi registrado, em 1968, como filho de Paulo Leminski e Neiva Maria de Souza.
Amor livre
Leminski vivia com Neiva em uma comunidade hippie na capital paranaense que era regida pelo “amor livre’. Além do casal, moravam ali Ivan, por quem Neiva logo se apaixonaria, e Alice, que surgiu na festa de 24 de anos de Leminski e se instalou em sua vida. Além dos moradores permanentes, havia aqueles que iam e vinham. Pedro Leminski, irmão do poeta, era um deles.
Parceiro de Paulo em algumas músicas, ele aparecia no meio da noite, bêbado ou drogado – corriqueiramente as duas coisas – buscando um lugar para dormir. A cama poderia ser qualquer uma. Ora, poderia muito bem ser ele o pai do filho renegado, hoje com 57 anos.
Em 1976, quando Paulo Leminski e Neiva formalizaram sua separação, ela se mudou com Ivan para o Rio e conseguiu obter uma nova certidão de nascimento. Nela, o nome do menino foi trocado para Luciano Costa, com Ivan declarando ser seu pai legítimo.
A hipótese é que Paulo Leminski tenha decidido figurar como pai na primeira certidão para livrar o irmão e a então esposa do constrangimento. Essa arrumação, no entanto, teria sido desfeita quando Neiva e Ivan tomaram a decisão de seguir para o Rio, enquanto Paulo e Alice permaneceram em Curitiba.
Se Pedro estivesse vivo, talvez pudesse dar luz aos trechos nebulosos dessa história. Mas ele se enforcou em um quarto de pensão em 1986. Leminski morreria três anos depois, vítima de cirrose hepática.

Lenda curitibana
Em entrevista ao Estadão, por ocasião do lançamento da biografia do poeta, em 2001, Vaz afirma que, embora fosse amigo próximo de Leminski, nunca soube da existência do filho secreto. “Apenas um exame de DNA pode tirar as dúvidas”, afirmou.
O próprio Luciano Costa tinha dúvidas. Ouvido pelo jornal na mesma oportunidade, ele tratava o assunto como “lenda curitibana” até 2021, quando entrou com um processo na justiça e assumiu o nome Paulo Leminski Neto. Desde então, ele troca farpas com Alice Ruiz e as filhas nas redes sociais, reclamando o quinhão que lhe cabe na herança do suposto pai.
Recentemente, ele se mudou para Curitiba com a mulher e vive de contribuições de amigos e simpatizantes enquanto prepara um livro e aguarda o desfecho da ação judicial. A justiça não pode obrigá-lo a fazer o exame de DNA. Mas se ele tomar essa decisão e descobrir que é filho de Pedro, não restará pedra sobre pedra em sua pretensão.
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