
Há quase duas décadas, ‘Zeitgeist, The Movie’ (2007) testa a paciência do espectador com a ideia de que o mundo é controlado por velhacos. Figuras sombrias, de faces encovadas e troncos curvados que vão dar em mãos macilentas e em unhas pontiagudas.
Obviamente são homens do mal. Eles arrastam peças móveis, consultam mapas, definem estratégias e tornam tudo ainda mais divertido deixando uma decisão ou outra a cargo de um jogo que chamam de destino. Não é o mundo que manipulam. Isso é bobagem. Eles manipulam o sistema
Feita essa consideração, não é difícil perceber do que trata o longa-metragem, cujo título em alemão, significa “espírito do tempo”. Um longa que, aliás, é longo mesmo: são duas horas de narração em off ilustradas por imagens vertiginosas – algumas caleidoscópicas – precedidas ou entremeadas de escuridão e silêncio.
Tudo isso para que despertemos de nosso sono profundo e encontremos a verdade. E a verdade é: 1) o sistema nos controla e nós adoramos ser controlados; 2) todas aquelas teorias da conspiração não são teorias, são fato; 3) o que o sistema quer é dominar o mundo, unificar o mundo, destruir o mundo, governar o mundo, dividir o mundo e isso não é nem um pouquinho contraditório; 4) aqueles que comandam o sistema – os Rothschilds, os Morgans, os Rockefellers, os Murdochs – estão por trás das guerras, da quebra das bolsas, da crise do petróleo, da grande imprensa de rapina, dos assassinatos de líderes políticos e, principalmente, coisa que o filme deita ênfase especial, nas grandes tragédias recentes, o 11 de setembro em especial.
Detalhe: não foi a Al Qaeda quem planejou e executou o ataque terrorista às Torres Gêmeas, foi o sistema. Os terroristas eram agentes do FBI (seis estão vivos); Bin Laden é um soldado da CIA e os edifícios desabaram porque o governo americano mandou instalar bombas nos mais de cem andares – por isso o efeito semelhante a uma implosão; 5) de agora em diante, tudo ficará mais fácil, já que microchips estão sendo instalados em toda a população mundial e parte expressiva dela está muito satisfeita com o controle.
Mitos solares
Com tanta bobagem, é difícil crer que a primeira parte de ‘Zeitgeist’, que trata da religião, se assente em pesquisa e documentação não em conversa para boy dormir. Os 25 minutos de ‘Zeitgeist’ que valem a pena ser vistos sustentam que o cristianismo, por exemplo, é fruto de lendas sincretizadas ao longo dos tempos. E é mesmo quase impossível não ver semelhanças de mitos solares como Mitra e Hórus, este deus egípcio, com Jesus Cristo (é o Senhor?). Raras exceções, eles nasceram em 25 de dezembro, de mãe virgem, operaram milagres e ressuscitaram ao terceiro dia. A lenda do paraíso, e de Adão e Eva, é persa; a serpente é presença constante nas lendas orientais e o livro do apocalipse é parte umbilical da história das divindades.
Estudiosos da Igreja Católica desacreditam as similitudes, mas não arriscam além disso. Até o papel de Moisés (o legislador) e da tábua dos mandamentos parece mesmo uma alegoria para que a civilização freasse instintos e impusesse regras que, por sua vez, se tornaram a versão escrita da moral e dos bons costumes. Antes, a lei das 12 tábuas. Antes, o Código de Hamurabi. Antes, a lei de talião. Se a Bíblia tem seu mérito, e isso é inegável, este reside em unir fábulas que eram transmitidas de pai para filho a fim de assentar códigos estabelecidos e replicados ao longo dos séculos seguintes – para o bem ou para o mal. Convenhamos. Não há nisso plano malévolo algum. Quanto ao restante de ‘Zeitgeist’ pode muito ser visto como um filme de comédia besteirol. Está no Youtube, é de graça e cai muito bem com um balde de pipoca.
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