Já estava terminando a jornada daquele domingo e eu entregava a última janta, a última marmita e o rapaz aparentando seus quarenta anos se aproximou do carro e eu lhe ofereci:
– Sim.
Alguns moradores de rua me chamam a atenção por qualquer motivo, talvez difícil de explicar. Mas aquele “sim” me fez olhar nos olhos dele e percebi alguns objetos em suas mãos. Um quadro pintado, um objeto pintado e um pequeno violão, todos com o mesmo estilo de pintura. Aquele violãozinho é daqueles que vendem em lojas de $1,99. Parecido com um pequeno violão que uso nos meus números de palhaço. Resolvi contar a ele que faço palhaçaria e uso um violão parecido. Falei:
– Bonita a sua arte!
O violão estava preso em seu pescoço, com um barbante, tal qual uma alça. Ele retirou o violão, me contou que faz aquela arte em objetos, para sobreviver nas ruas e me perguntou se eu ganhava dinheiro como palhaço:
– Sou palhaço há pouco tempo e faço por prazer. Sou radialista e ganho a vida como cantor, ator, locutor e apresentador. Ainda não ganhei dinheiro fazendo palhaçaria.
Na mesma hora ele me passou o violão:
– É um presente. Você me deu comida e eu estava com muita fome. Eu quero que aceite.
Relutante, não queria aceitar e argumentei que estava sem a minha carteira para comprar dele e, com aquele violão, poderia faturar algum dinheiro, mas ele insistiu:
– Se você ainda não ganhou dinheiro com o seu palhaço e sai às ruas, matando a fome das pessoas, este violãozinho estará em boas mãos. É a minha maneira de agradecer a comida que você esta me dando. Aceite, é de coração.
Solidariedade não está na carteira cheia de dinheiro, me ensinou um artista de rua.



